
PARTE 2
Henrique apareceu na porta com a expressão fechada. Atrás dele, pela abertura, consegui ver algumas pessoas sentadas em torno da mesa de reunião. Quando seus olhos encontraram os meus, ele se virou e disse apenas que a reunião estava encerrada.
Os executivos saíram em silêncio, evitando olhar diretamente para mim. Tiago também tentou se afastar, mas Henrique pediu que ele permanecesse do lado de fora. Entrei no escritório e coloquei a terceira cópia do acordo sobre a mesa.
— Rasgar papel não impede um divórcio — falei. — Só faz o doutor César imprimir outra via. Henrique olhou para o documento, mas não o tocou.
— Por que essa pressa? — perguntou. Eu quase sorri. Durante três anos, ele havia agido como se cada minuto ao meu lado fosse desperdício, e agora queria saber por que eu tinha pressa para ir embora.
— Não é pressa. Foram três anos. Eu apenas demorei três anos para entender que você estava falando sério quando disse que cada um deveria viver a própria vida.
Ele caminhou até a janela, passou a mão pelo rosto e voltou a me encarar. — Isso começou por causa do bebê? — Não. O bebê só me fez parar de fingir que nosso casamento ainda tinha alguma coisa para salvar.
Henrique apontou para o acordo. — Eu não vou assinar enquanto você estiver agindo por raiva. Peguei uma caneta, coloquei ao lado do papel e respondi que ele não precisava assinar naquele momento. Se recusasse um acordo, meu advogado seguiria pelos meios judiciais.
Pela primeira vez, a segurança dele vacilou. — Você já preparou tudo? — Sim. — Antes de ir à maternidade? — Sim. Eu tinha começado a preparar minha saída antes mesmo de Helena entrar em trabalho de parto.
Ele ficou alguns segundos sem falar. Depois perguntou sobre a captura do hotel e sobre o que eu realmente sabia. Eu disse apenas que sabia o suficiente para querer um DNA e que não transformaria uma investigação de paternidade em uma negociação sobre meu casamento.
— Helena acabou de dar à luz — ele insistiu. — Não faça nada contra ela agora. A frase me fez olhar para ele com uma calma que eu mesma não esperava. — Eu não preciso fazer nada contra Helena. Quero apenas sair da vida de vocês.
Tirei do bolso a chave da antiga casa da família e coloquei ao lado do acordo. Henrique franziu a testa. — O que é isso? — A chave da ala onde você me deixou morar durante três anos.
— Você vai sair de casa? — Já saí em quase tudo que importa. Só faltam algumas caixas. Ele abriu a boca, mas eu continuei antes que dissesse qualquer coisa.
Também tirei do dedo a aliança de aço. Coloquei-a sobre o papel, ao lado da chave. — Isso custou menos que um almoço, mas durante três anos eu tratei como se significasse alguma coisa. Não significa mais.
Henrique pegou a aliança e a observou. Parecia ser a primeira vez que realmente reparava nela. — Marina… — Não use meu nome agora como se nós finalmente tivéssemos intimidade.
Ele apertou os dedos em torno da aliança. — E se o DNA disser que o bebê não é meu? — Meu pedido de divórcio continua exatamente o mesmo. — E se disser que é? — Continua exatamente o mesmo.
A resposta o atingiu de uma forma que a discussão na maternidade não havia conseguido. Até aquele momento, talvez ele acreditasse que o exame fosse uma tentativa de recuperar alguma coisa entre nós. Finalmente entendeu que eu não estava disputando Henrique com Helena.
Peguei minha bolsa. — O resultado sai em quatro dias. Até lá, seu advogado pode falar com o meu. Se quiser rasgar essa terceira cópia também, fique à vontade.
Quando cheguei à porta, Henrique falou atrás de mim. — Eu nunca pedi para você esperar por mim durante esses três anos. Parei sem me virar. — É verdade. Esse foi um dos poucos avisos seus que eu deveria ter levado a sério desde o começo.
Saí do escritório e atravessei o corredor. Tiago me acompanhou até o elevador sem dizer nada, mas, quando as portas começaram a fechar, ele perguntou se eu realmente não voltaria para a casa. Respondi apenas: — Desta vez, não.
Naquela mesma tarde, o doutor César protocolou o pedido de divórcio e comunicou formalmente os advogados de Henrique. Eu não dependia mais da assinatura que ele se recusava a dar. Pela primeira vez, rasgar o papel não mudava absolutamente nada.
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