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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

Eu havia alugado um apartamento pequeno em outro bairro dois dias antes de ir à empresa. Não tinha o tamanho, o silêncio imponente nem os funcionários da antiga casa dos Vasconcelos, mas a primeira noite ali foi a primeira em muito tempo em que fechei uma porta sabendo que o espaço atrás dela era realmente meu.

Levei poucas coisas. Roupas, alguns livros, documentos pessoais e objetos que eu havia comprado antes do casamento. Quando comecei a separar tudo, percebi como era pequena a marca que eu deixara naquela casa em três anos. Eu ocupara quartos enormes sem jamais ter construído uma vida dentro deles.

Na manhã seguinte, o doutor César me ligou. Henrique já havia sido informado de que o processo poderia seguir mesmo sem sua concordância com o fim do casamento.

— Ele pode discutir questões patrimoniais, termos e procedimentos — explicou o advogado. — Mas não pode obrigar você a permanecer casada.

Eu sabia disso quando preparei os documentos, mas ouvir em voz alta me trouxe um alívio inesperado.

Henrique passara anos usando a indiferença como forma de poder. Agora a minha saída não dependia de ele concordar, entender ou aprovar.

Pouco depois, recebi uma ligação de minha sogra, Teresa.

— O que você está fazendo? — perguntou sem qualquer cumprimento.

— Organizando meu divórcio.

— Helena acabou de ter um filho do Henrique e você escolheu justamente agora para criar confusão?

Fechei os olhos por um segundo.

Durante três anos, aquela mulher havia me chamado de inútil porque eu não tinha dado um herdeiro à família. Agora que outra mulher aparecia com um bebê, eu deveria desaparecer discretamente para facilitar as coisas.

— Teresa, se o filho for do Henrique, ele poderá assumir as responsabilidades dele. Isso não me obriga a continuar casada.

— Você deveria pensar na família.

— Passei três anos pensando na família. Agora vou pensar em mim.

Ela começou a falar sobre gratidão, sobre Dona Beatriz, sobre tudo o que os Vasconcelos supostamente haviam feito por mim. Eu não levantei a voz.

— Dona Beatriz me tratava como neta. Nunca me tratou como dívida.

Depois desliguei.

Foi a primeira vez que encerrei uma conversa com Teresa antes que ela decidisse que tinha terminado de me humilhar.

Na empresa, enquanto isso, Henrique finalmente mandou Tiago investigar não quem havia me apresentado ao advogado, mas o que acontecera no Hotel Imperial no Dia dos Namorados.

Eu soube porque Tiago me telefonou no fim da tarde.

— Marina, o Henrique me perguntou se você tinha mais alguma coisa sobre aquele hotel.

— E o que você respondeu?

— Que não sei.

Ele fez uma pausa.

— Eu realmente não sei.

— Então disse a verdade.

Tiago respirou do outro lado.

— Ele também perguntou se você já tinha alugado outro lugar.

Meu olhar percorreu o apartamento. Havia caixas ainda fechadas junto à parede, uma caneca sobre a bancada e uma janela que dava para prédios comuns. Nada ali tinha sido escolhido para impressionar alguém.

— Diga a ele que assuntos pessoais não passam mais pela assistente dele.

— Entendi.

Antes de desligar, Tiago falou:

— Marina… eu sinto muito por nunca ter…

Ele parou.

— Não precisa — respondi. — Você trabalhava para ele. Quem era casado comigo era Henrique.

À noite, Gustavo me enviou uma mensagem.

Ele vinha me ajudando a organizar informações que eu já desconfiava havia algum tempo. Não era advogado nem alguém capaz de decidir nada por mim. Sua função era apenas verificar fatos que eu não queria mais ignorar.

“As imagens do hotel confirmam que Helena não entrou sozinha.”

Fiquei olhando para a tela.

Não senti vitória.

Apenas aquela sensação amarga de descobrir que a pessoa que você conhecia havia dez anos não era quem dizia ser.

Gustavo enviou alguns quadros das câmeras da entrada e do corredor do hotel. Helena aparecia ao lado de um homem que eu não conhecia pessoalmente. Entraram juntos na área dos elevadores naquela noite.

A imagem não provava quem era o pai do bebê.

Mas provava que ela havia mentido quando disse que passara o Dia dos Namorados sozinha.

Respondi:

“Guarde tudo. Não divulgue nada.”

Eu não queria humilhá-la na internet, destruir sua reputação nem transformar aquilo num espetáculo. Precisava apenas entender até onde as mentiras tinham ido e proteger minhas decisões.

Naquela mesma noite, Henrique apareceu no hospital.

Helena ainda estava internada com o bebê.

— Você foi ao Hotel Imperial no dia 14 de fevereiro? — ele perguntou.

Ela desviou os olhos.

— Marina está colocando coisas na sua cabeça.

— Eu perguntei se você foi.

— Fui.

— Sozinha?

Helena demorou.

— Henrique, eu tinha acabado de brigar com você naquela época.

— Nós nem estávamos na mesma cidade.

— Justamente por isso.

Ele a encarou.

— Sozinha, Helena?

Ela começou a chorar.

— Por que você está me interrogando poucos dias depois de eu dar à luz?

Durante anos, aquela reação fora suficiente para mudar o rumo de qualquer conversa.

Dessa vez, Henrique não recuou.

— Porque em quatro dias sai um exame dizendo se eu sou ou não o pai dessa criança.

Helena apertou o lençol.

— Você está acreditando na Marina em vez de mim?

Henrique ficou em silêncio por alguns segundos.

— Eu deveria ter feito perguntas muito antes.

Saiu do quarto sem outra palavra.

Mais tarde, soube por Tiago que ele voltou sozinho para a antiga casa.

A ala onde eu morava estava quase vazia. As gavetas abertas, os cabides separados e a ausência dos poucos objetos pessoais que eu tinha levado deixavam claro que não era uma ameaça feita durante uma briga.

Eu realmente tinha ido embora.

Na manhã seguinte, Henrique me ligou.

Não atendi.

Ele ligou novamente.

Na terceira tentativa, enviei uma mensagem:

“Assuntos do divórcio: doutor César. Assuntos do DNA: aguarde o resultado.”

Ele respondeu depois de quase dez minutos.

“Quero falar com você.”

Não havia pedido de desculpas, explicação nem pergunta.

Apenas a mesma expectativa de que eu deveria me colocar à disposição porque ele queria alguma coisa.

Bloqueei a tela do celular e fui preparar o café da manhã.

Durante três anos, eu havia organizado meus dias em torno das ausências de Henrique.

Naquele apartamento, pela primeira vez, comecei a organizar minha rotina sem levar em conta se ele apareceria ou não.

E, enquanto o prazo do DNA se aproximava, percebi que o resultado já não decidiria meu futuro.

Decidiria apenas qual verdade Henrique teria de enfrentar.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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