
PARTE 5
Dois dias depois do resultado, encontrei o doutor César em seu escritório.
Sobre a mesa havia uma nova proposta enviada pelos advogados de Henrique. Não era uma aceitação completa do acordo, mas já não existia nenhuma frase sugerindo que eu desistisse do divórcio.
— Isso é progresso — disse César.
— É atraso com aparência de progresso.
Ele sorriu de leve.
— Juridicamente, às vezes as duas coisas parecem iguais.
Henrique queria conversar sobre a divisão do que fosse necessário, sobre minha saída definitiva da casa e sobre algumas despesas que permaneciam vinculadas à estrutura da família.
Não havia filhos entre nós.
Não havia motivo para transformar o processo em uma guerra interminável.
Minha posição era simples: eu ficaria com aquilo que legalmente me coubesse dentro do regime do casamento, retiraria meus objetos pessoais e encerraria qualquer vínculo financeiro que pudesse ser separado.
Eu não queria usar o divórcio como vingança.
Também não abriria mão de direitos apenas para provar que não estava interessada no dinheiro dele.
Na mesma tarde, Teresa apareceu no meu apartamento.
Eu não havia dado meu endereço a ela.
Provavelmente Henrique descobrira por algum documento relacionado ao processo.
Quando abri a porta e a vi no corredor, minha primeira vontade foi fechá-la novamente.
— Preciso falar com você — ela disse.
— Sobre o divórcio, meu advogado pode…
— É sobre Henrique.
Deixei que entrasse.
Teresa observou a sala pequena com uma expressão quase ofendida.
— Você saiu daquela casa para morar aqui?
— Saí daquela casa para morar onde eu escolhi.
Ela sentou no sofá.
— O resultado do exame saiu.
— Eu sei.
— A criança não é dele.
— Eu também sei.
Teresa apertou a bolsa no colo.
— Então você não tem mais motivo para se divorciar.
Por alguns segundos, apenas a encarei.
— A senhora realmente acredita nisso?
— Helena enganou todo mundo.
— Helena enganou Henrique sobre a paternidade. Henrique não foi enganado quando decidiu ter um relacionamento com ela.
Teresa franziu a testa.
— Homens cometem erros.
— E mulheres também podem decidir que não querem continuar casadas com homens que cometem esses erros.
— Você está destruindo uma família por orgulho.
Dessa vez, não precisei controlar nenhuma raiva.
A frase simplesmente não tinha mais força sobre mim.
— Qual família?
Ela se calou.
— Nos últimos três anos, a senhora me chamou de incapaz porque eu não engravidei. Seu filho mal falava comigo. Os funcionários da empresa nem sabiam que eu existia. Agora, porque a criança de Helena não é dele, eu deveria voltar para fingir que aquilo era uma família?
Teresa desviou o olhar.
— Dona Beatriz não gostaria disso.
Levantei-me.
— Não use a memória dela para me prender num casamento que ela nunca viu se tornar o que imaginava.
Teresa também se levantou.
— Henrique está diferente.
— Ótimo. Talvez isso seja importante para a próxima fase da vida dele.
— Você não sente mais nada?
A pergunta me surpreendeu.
Pensei antes de responder.
— Durante muito tempo, senti coisas suficientes pelos dois. Agora estou cansada de usar sentimento como justificativa para aceitar desrespeito.
Abri a porta.
Teresa entendeu que a conversa tinha acabado.
Antes de sair, falou mais baixo:
— Eu fui dura com você.
Era o mais perto de um reconhecimento que eu já tinha ouvido dela.
Mas não transformei aquilo em perdão instantâneo.
— Foi.
Ela assentiu e foi embora.
Naquela noite, enquanto isso, Henrique encontrou Helena em seu apartamento.
Ela havia recebido alta e estava com o bebê.
— Quem é o homem do hotel? — ele perguntou.
Helena estava exausta.
Talvez já tivesse entendido que chorar não faria aquela pergunta desaparecer.
— Rafael.
— Rafael quem?
— Rafael Mendes.
Henrique repetiu o nome.
— Ele pode ser o pai?
Helena demorou a responder.
— Pode.
Foi a primeira vez que admitiu.
Henrique fechou os olhos.
— Então você sabia que havia uma possibilidade.
— Eu não sabia. Eu só…
— Você sabia que existia uma possibilidade.
— Eu achava que era seu.
— Achava ou precisava que fosse?
Ela levantou o rosto.
— O que isso quer dizer?
— Você passou meses falando sobre o futuro do bebê como se não existisse qualquer dúvida.
Helena segurou a criança mais perto do peito.
— Eu estava com medo.
— E por isso decidiu que eu deveria assumir uma paternidade sem saber da dúvida?
Ela começou a chorar.
— Eu não tinha para onde ir.
Henrique olhou ao redor do apartamento que ele ajudara a manter durante o relacionamento.
— Você poderia ter dito a verdade.
— E você teria ficado?
Ele não respondeu.
Helena riu amargamente.
— Exatamente.
Henrique ficou alguns segundos parado.
Depois falou:
— As despesas médicas que eu já assumi não serão usadas contra a criança. Mas qualquer questão futura entre nós será tratada pelos advogados. E você precisa esclarecer a paternidade com Rafael.
— Você vai me deixar sozinha?
— Eu não deveria ter começado isso enquanto era casado. Mas continuar depois de tudo seria apenas repetir o mesmo erro.
Saiu.
Não houve reconciliação, abraço nem promessa.
Na manhã seguinte, o doutor César me informou que o advogado de Henrique havia retirado a objeção ao divórcio em si.
Ainda precisávamos resolver detalhes.
Mas ele não tentaria mais impedir o fim do casamento.
Li a mensagem duas vezes.
Depois coloquei o celular sobre a mesa.
Eu achava que sentiria triunfo quando aquele momento chegasse.
Em vez disso, senti silêncio.
Um silêncio diferente daquele da maternidade.
Não era o silêncio de uma verdade que acabara de explodir.
Era o de uma porta finalmente destrancada.
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