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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

As negociações levaram quase dois meses.

Houve dias em que pareciam avançar rapidamente e outros em que uma única cláusula ocupava horas. Minha mãe se recusava a tratar aquilo como um acerto familiar informal. Se sua empresa colocaria patrimônio numa nova estrutura, tudo precisava ser avaliado, registrado e acompanhado por profissionais.

Patrícia ainda tinha dificuldade em aceitar isso.

Ela queria preservar o máximo possível da participação recebida de meu pai.

Minha mãe queria garantir que o valor dos terrenos fosse reconhecido.

O banco queria estabilidade.

Os diretores queriam continuar trabalhando.

Os compradores queriam receber os imóveis pelos quais haviam pago.

Cada pessoa na mesa tinha um interesse diferente.

Talvez por isso a solução demorasse tanto.

Durante esse período, minha mãe tomou uma decisão importante.

Ela não voltaria a ser a mulher que administrava silenciosamente enquanto outra pessoa aparecia como único dono.

— Se eu entrar nessa empresa de novo, será com cargo, voto e responsabilidade definidos — disse.

— Você quer ser presidente?

— Não necessariamente.

— Então o quê?

— Quero que a empresa deixe de depender de uma pessoa só.

Essa era uma crítica ao modelo de meu pai, mas também uma proteção contra qualquer repetição.

A proposta de governança previa um conselho com membros independentes e diretores profissionais para áreas técnicas.

Familiares poderiam ocupar posições apenas se tivessem funções claras e desempenho avaliado.

Lucas leu essa parte várias vezes.

— Isso vale para mim também.

— Principalmente para quem tem sobrenome na porta — respondeu minha mãe.

Ele não gostou.

Mas aceitou discutir.

Patrícia foi mais resistente.

— Augusto colocou Lucas como vice-presidente.

— E ele poderá permanecer se o conselho entender que tem condições e se cumprir as responsabilidades do cargo.

— Você quer desfazer a vontade dele.

Minha mãe respondeu:

— Seu filho vai dirigir uma empresa com milhares de obrigações. Isso não pode depender apenas da vontade de uma pessoa morta.

A frase pareceu dura, mas Lucas não a contestou.

Naquela mesma semana, ele próprio propôs permanecer por um período em função executiva reduzida, acompanhando diretores experientes antes de voltar a pleitear uma vice-presidência plena.

Foi o segundo grande momento em que percebi que ele havia mudado.

Não se tornara meu amigo.

Não se transformara em santo.

Ainda discutia.

Ainda era orgulhoso.

Mas já não acreditava que um cargo fosse seu apenas porque o pai escrevera seu nome num documento.

Patrícia interpretou a decisão como humilhação.

Ele respondeu com uma frase que eu jamais esperaria ouvir dele meses antes.

— Mãe, o pior jeito de provar que eu mereço o cargo é exigir que ninguém possa me avaliar.

Depois disso, ela parou de insistir.

O questionamento jurídico sobre os terrenos também chegou a um ponto decisivo.

As análises documentais reforçaram a autonomia da Clara Patrimonial e a titularidade dos imóveis. Questões financeiras secundárias ainda poderiam ser discutidas, mas não havia base para simplesmente transferir os seis terrenos ao espólio de meu pai.

Patrícia poderia continuar a disputa.

Se quisesse.

Seus advogados, porém, explicaram que isso custaria tempo e dinheiro sem garantir o resultado que ela esperava.

Ela retirou o pedido mais amplo e manteve apenas discussões pontuais sobre valores.

Minha mãe também desistiu de qualquer pretensão de ampliar o conflito.

— Se podemos resolver o necessário, não preciso transformar isso numa guerra de dez anos.

Eu estava aprendendo que encerrar uma disputa também podia ser uma forma de vencer a própria vida.

A proposta societária foi então reformulada em termos mais concretos.

A Clara Patrimonial não transferiria imediatamente a propriedade integral dos seis terrenos.

Em vez disso, seriam estabelecidos direitos de longo prazo e uma reorganização progressiva, ligada ao avanço dos empreendimentos.

Parte do valor econômico desses direitos seria convertida em participação da minha mãe na estrutura reorganizada.

Outra parte continuaria pertencendo à empresa patrimonial.

Assim, nenhum lado entregaria tudo de uma vez.

O banco considerou a estrutura aceitável para análise.

Os consultores também.

Restava Patrícia.

Na última reunião daquele mês, ela ficou quase vinte minutos em silêncio diante da versão mais recente do acordo.

— Se eu assinar, minha participação diminui.

— Sim — respondeu minha mãe.

— E a sua aumenta.

— Porque minha empresa está aportando valor.

— Então no final você volta.

Clara pensou antes de responder.

— Não volto para o casamento. Não volto para a casa. Não volto para a vida que eu tinha. Se eu participar da empresa, será de outra maneira.

Patrícia levantou os olhos.

Talvez tenha entendido naquele instante que o que estava acontecendo não era uma disputa para substituir uma mulher pela outra.

Minha mãe não queria o lugar dela.

Queria o próprio lugar.

Patrícia assinou a autorização para avançar à etapa final de elaboração.

Ainda seriam necessárias aprovações societárias, registros e consentimentos financeiros.

Nada estava concluído.

Mas a direção tinha mudado.

Naquela noite, minha mãe e eu jantamos no pequeno apartamento da zona oeste.

Eu olhei para a mesa simples, para os móveis antigos e para a janela estreita.

— Você pretende sair daqui?

— Um dia.

— Não sente falta da casa antiga?

Ela pensou.

— Sinto falta de algumas coisas que vivi lá. Não da casa.

— Nem um pouco?

— Uma casa grande não conserta uma vida pequena.

Fiquei olhando para ela.

— Você sempre fala assim ou passou semanas preparando essa frase?

Minha mãe começou a rir.

Eu ri também.

Depois o riso passou, e ficamos em silêncio.

Dessa vez, porém, o silêncio não parecia vazio.

Parecia paz.

No dia seguinte, soubemos que a construtora havia fechado mais uma etapa de obra dentro do novo cronograma.

Os fornecedores que tinham suspendido decisões começaram a renovar pedidos.

O banco manteve as linhas previstas.

Os rumores de fechamento diminuíram.

A empresa ainda não estava livre de dificuldades.

Mas voltava a ser administrada como uma empresa, não como um troféu de família.

Pouco depois, Patrícia decidiu colocar à venda um dos imóveis pessoais que recebera de meu pai.

Não porque estivesse falida.

Mas porque precisava reorganizar sua própria liquidez sem depender da construtora.

Quando me contaram, lembrei da mulher no banco perguntando quanto dos R$ 1,8 bilhão poderia movimentar imediatamente.

Finalmente, ela havia entendido a diferença entre patrimônio e dinheiro.

Lucas também tomou uma decisão.

Abriu mão temporariamente do título de vice-presidente previsto por meu pai e aceitou assumir uma diretoria adjunta, sujeita à avaliação do novo conselho quando a reorganização fosse concluída.

Minha avó ficou furiosa.

Meu irmão por parte de pai respondeu:

— Se eu não conseguir crescer dentro da empresa, não adianta ter o título.

Eu nunca imaginei concordar com Lucas.

Mas, naquele momento, concordei.

Duas das maiores mudanças daquela história tinham acontecido sem ninguém gritar.

Patrícia aceitara negociar a redução de sua participação.

Lucas aceitara que herdar um cargo não significava estar pronto para exercê-lo.

E minha mãe, que todos haviam visto saindo de mãos vazias, se preparava para entrar numa nova estrutura não como esposa de Augusto Vasconcelos.

Mas como proprietária de algo que ela mesma construíra.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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