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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

A primeira reunião formal entre minha mãe e a nova administração da Construtora Vasconcelos aconteceu uma semana depois. Patrícia compareceu como principal beneficiária do patrimônio deixado por meu pai, enquanto Lucas entrou na sala já se apresentando como vice-presidente. Do outro lado estavam minha mãe, dois consultores independentes e representantes do banco.

Eu fiquei perto dela, em silêncio.

Minha mãe abriu a reunião estabelecendo uma coisa que pareceu irritar Lucas imediatamente.

— Não vim discutir meu casamento. Vim discutir seis contratos.

Ele soltou uma risada curta.

— Para você é fácil separar as coisas agora.

— É exatamente porque eu sei separar as coisas que esses terrenos não estão misturados com o patrimônio operacional da construtora.

Os consultores começaram a apresentar os dados.

Dos seis empreendimentos, quatro estavam em fase de construção e dois ainda passavam por etapas preparatórias. A construtora tinha compromissos assumidos com compradores, fornecedores e instituições financeiras. Interromper tudo de maneira abrupta atingiria centenas de pessoas que nada tinham a ver com a disputa familiar.

Minha mãe deixou claro que não pretendia fazer isso.

Em vez de exigir a devolução das áreas, ela propôs um período de transição.

Durante alguns meses, os contratos continuariam nas condições atuais, desde que a construtora apresentasse informações financeiras periódicas, mantivesse os pagamentos previstos e não oferecesse nenhum direito sobre os terrenos como garantia sem autorização da proprietária.

Patrícia pareceu ofendida.

— Você quer fiscalizar a empresa.

— Não. Quero fiscalizar o uso dos meus imóveis.

Lucas se inclinou sobre a mesa.

— Você está tentando entrar pela porta dos fundos porque meu pai deixou a empresa para nós.

Minha mãe não elevou a voz.

— Seu pai deixou a participação dele na empresa conforme o que estava formalizado. Ele não deixou meus terrenos porque não podia.

A frase criou um silêncio desconfortável.

Minha avó, que havia insistido em participar da reunião, bateu os dedos sobre a mesa.

— Clara, você viveu desta empresa por anos.

Minha mãe virou o rosto para ela.

— Eu trabalhei nesta empresa por quinze anos.

— É tudo a mesma coisa.

— Não, dona Celina. Foi justamente tratar tudo como se fosse a mesma coisa que trouxe todos nós até aqui.

Eu me lembrei imediatamente do quarto do hospital.

“Entrou sem nada, vai embora sem nada.”

Minha mãe, porém, não mencionou aquela frase.

Ela continuou falando de números.

O banco informou que, sem clareza sobre a continuidade dos direitos de uso dos terrenos, novas liberações de determinadas linhas de crédito seriam analisadas com mais cautela. Isso não significava congelamento automático, mas obrigava a nova administração a apresentar um plano financeiro realista.

Foi aí que percebi algo importante.

Patrícia tinha herdado poder formal.

Mas poder formal vinha acompanhado de responsabilidades que ela aparentemente nunca havia considerado.

Os funcionários precisavam receber no fim do mês.

As obras precisavam continuar.

Os fornecedores tinham contratos.

Os clientes tinham prazos.

Os bancos tinham condições.

Meu pai podia escrever o nome de Patrícia num testamento, mas não podia escrever uma frase capaz de apagar todas essas obrigações.

Ao final da reunião, minha mãe entregou uma proposta de transição de noventa dias.

Patrícia se recusou a assiná-la imediatamente.

— Quero analisar com meus advogados.

— É o que você deve fazer — respondeu Clara.

Lucas pareceu surpreso com a ausência de pressão.

— E se não aceitarmos?

— Os contratos atuais continuam valendo. Nas etapas que exigirem novas autorizações, vocês terão de apresentar uma alternativa compatível com os direitos da proprietária. Não estou ameaçando ninguém. Estou apenas dizendo que a empresa não pode continuar funcionando com base na suposição de que meus terrenos são dela.

Na saída, um grupo de funcionários estava reunido no corredor.

Alguns reconheceram minha mãe.

Ela havia trabalhado com muitos deles durante anos.

Uma mulher chamada Renata, da área administrativa, aproximou-se hesitante.

— Dona Clara, a empresa vai fechar?

Minha mãe respondeu sem pensar duas vezes.

— Não é isso que eu quero.

— Estão dizendo que a senhora vai tomar os terrenos e parar as obras.

Clara olhou para mim por um instante.

Eu entendi que o boato já estava se espalhando.

— Diga aos seus colegas apenas uma coisa — falou ela. — Não tomem decisões baseados em rumores. Enquanto os contratos forem cumpridos, ninguém será tirado de obra nenhuma por minha iniciativa.

No carro, perguntei por que ela se importava tanto com uma empresa que a havia tratado daquele jeito.

Ela demorou alguns segundos antes de responder.

— A empresa não me tratou daquele jeito. Pessoas fizeram isso.

A frase ficou na minha cabeça.

Naquela noite, Lucas publicou internamente uma mensagem dizendo que a nova gestão garantiria a continuidade de todos os projetos. Também afirmou que “questões patrimoniais paralelas” seriam resolvidas rapidamente.

Minha mãe leu e não comentou.

No dia seguinte, porém, chegou a primeira consequência concreta.

Um dos fornecedores responsáveis por estruturas pré-moldadas exigiu confirmação das garantias financeiras antes de renovar um grande pedido. Outros dois pediram reuniões.

A incerteza começava a custar dinheiro.

Lucas queria reagir prometendo que tudo estava sob controle.

Minha mãe insistia que o único caminho era mostrar números.

Foi nesse momento que Patrícia finalmente aceitou a auditoria conjunta limitada aos contratos dos seis projetos.

Não porque tivesse mudado de opinião sobre minha mãe.

Mas porque precisava dos bancos.

E os bancos queriam documentos.

Durante as semanas seguintes, eu acompanhei minha mãe em várias reuniões.

Aos poucos, percebi que os seis terrenos eram apenas o centro de uma estrutura muito maior de obrigações.

A construtora tinha valor.

Tinha contratos lucrativos.

Tinha uma marca forte.

Mas também tinha dívidas, compromissos e uma expansão que exigia fluxo de caixa constante.

O “império” que Patrícia imaginara receber pronto era, na realidade, uma máquina que precisava funcionar todos os dias para não começar a desmontar.

Quando o relatório preliminar da auditoria chegou, minha mãe leu até tarde.

Na manhã seguinte, encontrei-a na cozinha.

— É ruim?

Ela fechou a pasta.

— Não é uma empresa quebrada.

Senti alívio.

Então ela completou:

— Mas também não é o cofre cheio de dinheiro que eles imaginaram.

Segundo o relatório, grande parte do valor atribuído à Construtora Vasconcelos vinha de sua capacidade de concluir projetos e gerar receitas futuras. O caixa disponível era muito menor do que o valor patrimonial divulgado. E a expansão acelerada dos últimos anos havia tornado a companhia dependente de crédito e de cronogramas bem executados.

Não havia um crime escondido.

Não havia uma fraude milagrosa esperando ser descoberta.

Havia algo muito mais comum e, talvez por isso, mais perigoso: uma empresa grande que precisava ser administrada com competência.

Patrícia havia passado anos próxima de meu pai.

Lucas tinha sido preparado para ocupar um cargo.

Mas nenhum dos dois tinha participado de verdade da gestão financeira cotidiana.

Minha mãe tinha.

E agora todos começavam a entender a diferença.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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