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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

A tranquilidade relativa durou pouco.

Os advogados de Patrícia decidiram questionar formalmente a estrutura patrimonial dos terrenos. O argumento deles era simples: como a Clara Patrimonial havia sido constituída durante o casamento e tinha negócios ligados à Construtora Vasconcelos, seria necessário esclarecer se alguma participação ou algum valor poderia integrar a sucessão de meu pai.

Minha primeira reação foi de pânico.

— Eles podem tomar a empresa da senhora?

Minha mãe corrigiu imediatamente.

— Podem questionar. Isso não significa que vão conseguir.

Ela não tratou o processo como uma ofensa pessoal.

Reuniu documentos contábeis, contratos, registros bancários e históricos societários. A equipe jurídica fez o mesmo. O objetivo não era mostrar um papel milagroso, mas reconstruir anos de operações e demonstrar como cada aquisição havia sido feita e registrada.

O processo também obrigou Patrícia a fazer algo que até então parecia evitar: reconhecer em documentos oficiais que a propriedade dos terrenos era uma questão separada da herança.

Enquanto os advogados trabalhavam, a construtora precisava continuar funcionando.

Essa separação entre disputa jurídica e operação empresarial se tornou essencial.

Minha mãe insistiu em manter o acordo provisório.

— Se um juiz quiser analisar alguma coisa, que analise — disse ela. — Não vou usar funcionários como moeda de pressão.

A postura acabou influenciando o banco.

Nenhuma das partes podia alterar unilateralmente a situação dos seis terrenos enquanto a questão fosse examinada, mas os contratos existentes continuariam válidos. Na prática, o status quo foi preservado.

Patrícia não conseguiu transformar o questionamento em controle imediato.

Minha mãe também não ganhou nenhum poder novo por causa dele.

Tudo continuou dependendo de negociação e documentos.

Foi durante esse período que comecei a acompanhar mais de perto o trabalho da Clara Patrimonial.

Até então, eu sequer sabia que a empresa existia.

Descobri que ela tinha uma estrutura pequena.

Poucos funcionários.

Uma contabilidade organizada.

Nenhuma sede luxuosa.

Seu principal patrimônio eram justamente os imóveis e os contratos ligados aos projetos.

— Por que nunca falou dela comigo? — perguntei novamente.

Minha mãe sorriu.

— Porque adolescentes normalmente não gostam de ouvir a mãe falar sobre matrícula imobiliária e estrutura patrimonial.

— Talvez eu gostasse.

— Você reclamava quando eu pedia para conferir a fatura do cartão.

Não consegui evitar uma risada.

Foi a primeira vez que rimos juntas desde a morte do meu pai.

Aquele momento pequeno me fez perceber quanto nossa vida tinha mudado em poucas semanas.

Eu ainda estava magoada.

Ainda sentia raiva quando lembrava do hospital.

Mas já não passava horas imaginando maneiras de ver Patrícia sofrer.

Começava a pensar no que minha mãe faria.

Isso era diferente.

Durante uma reunião de mediação, Patrícia apareceu muito mais abatida do que antes.

O preto impecável do funeral dera lugar a roupas simples.

Não havia derrota teatral em seu rosto.

Havia cansaço.

— Augusto me disse que eu e Lucas estaríamos protegidos — falou.

Minha mãe respondeu com calma.

— E vocês receberam bens e direitos que realmente pertenciam a ele.

— Mas não era isso que ele me fez acreditar.

Clara manteve o olhar nela.

— Então sua conversa é com a memória dele, não comigo.

Patrícia apertou os dedos ao redor de uma caneta.

— Você acha que venceu.

— Eu não estou competindo com você.

— Está, sim. Sempre esteve.

Minha mãe respirou fundo.

— Patrícia, durante anos você teve um relacionamento com meu marido. Agora recebeu aquilo que ele decidiu deixar dentro dos limites do que podia dispor. Eu não vou fingir que isso não me feriu. Mas me recuso a passar o resto da vida definindo minhas decisões por você.

A sala ficou em silêncio.

Eu estava sentada ao fundo e senti um peso sair de meu peito.

Não porque minha mãe tivesse humilhado Patrícia.

Ela não fez isso.

Mas porque, pela primeira vez, disse em voz alta que a dor existia sem permitir que a dor comandasse tudo.

A mediação não resolveu a disputa jurídica naquele dia.

Resolveu outra coisa.

Patrícia aceitou assinar uma extensão temporária dos contratos operacionais exatamente nos termos negociados, sem tentar obter garantias adicionais sobre os terrenos.

Em troca, minha mãe concordou em não alterar os valores durante o período de análise.

Foi uma decisão prática.

E ela deu à construtora alguns meses de previsibilidade.

Lucas aproveitou esse tempo para tentar se firmar no cargo.

Ele começou a participar de reuniões que antes deixava nas mãos de diretores antigos.

Cometeu erros.

Fez perguntas básicas demais.

Recebeu respostas impacientes.

Mas, aos poucos, deixou de agir como se o sobrenome fosse suficiente.

Certo dia, encontrou-me no corredor da sede.

— Marina.

Continuei andando.

— O quê?

— Sobre o hospital…

Parei.

Ele pareceu procurar uma frase.

— Eu fui um idiota.

Não era uma explicação elaborada.

Talvez por isso tenha soado mais verdadeiro.

— Foi.

— Eu achei que sua mãe estava tentando segurar alguma coisa que não era dela.

— E isso dava a você o direito de rir?

Ele abaixou os olhos.

— Não.

Eu poderia ter continuado.

Poderia ter repetido cada palavra que ele dissera.

Mas percebi que não queria mais viver naquela cena.

— Então não faça de novo.

E fui embora.

Na mesma semana, os primeiros resultados do plano financeiro começaram a aparecer.

A construtora conseguiu concluir uma etapa importante de um dos projetos e liberar parte dos recebíveis previstos.

Isso reduziu a pressão imediata sobre o caixa.

Ao mesmo tempo, a análise jurídica sobre a Clara Patrimonial avançou.

Os documentos mostravam uma separação consistente entre a empresa patrimonial e a construtora, com registros próprios e contratos celebrados ao longo dos anos.

Os advogados de Patrícia continuaram questionando pontos específicos, mas a tese de que os seis terrenos simplesmente pertenciam ao espólio de meu pai perdeu força.

Minha mãe não comemorou a notícia.

Ela apenas guardou o parecer preliminar.

— Ainda não terminou.

— Mas está melhor.

— Está mais claro. É diferente.

Aprendi que Clara gostava dessa palavra.

Claro.

Não vencedor.

Não derrotado.

Claro.

Talvez porque, depois de tantos anos numa família onde meu pai decidia a narrativa, clareza fosse a forma de liberdade que ela mais valorizava.

No fim daquele mês, o banco marcou uma reunião com todas as partes.

A construtora precisaria decidir como financiaria os próximos estágios dos seis projetos.

Os contratos temporários com a Clara Patrimonial não poderiam durar para sempre.

Uma solução estrutural teria de ser encontrada.

E, desta vez, minha mãe não esperaria que os outros decidissem primeiro.

— Vou apresentar uma proposta — disse.

— Para quê?

Ela me entregou uma pasta.

Na primeira página havia duas palavras:

“Reestruturação societária”.

Foi então que compreendi que ela não estava mais apenas protegendo o que era seu.

Estava começando a decidir o que queria construir a partir dali.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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