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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

A proposta de minha mãe não era simples, nem poderia ser.

A Clara Patrimonial controlava os terrenos essenciais aos seis projetos. A Construtora Vasconcelos controlava as equipes, os contratos de construção, a marca, a relação com clientes e toda a estrutura operacional. Separadas, as duas empresas podiam continuar negociando; juntas de maneira mais organizada, poderiam reduzir boa parte da incerteza que ameaçava os projetos.

Minha mãe não propôs receber a construtora de graça.

Também não exigiu que Patrícia abrisse mão da herança.

A proposta previa uma avaliação independente das duas empresas e a criação de uma operação societária na qual direitos econômicos ligados aos terrenos seriam aportados ou contratados por longo prazo, enquanto a Clara Patrimonial receberia participação correspondente no negócio reorganizado.

Tudo dependeria de avaliação, aprovação e negociação.

Eu li as primeiras páginas e quase não entendi nada.

— Traduz para alguém que não passou quinze anos administrando empresa.

Minha mãe riu.

— Em vez de a construtora depender de contratos curtos sobre terrenos que não são dela, podemos criar uma estrutura estável. Eu coloco valor real na operação e recebo participação real em troca.

— Então você viraria sócia.

— Se os números fizerem sentido.

— E Patrícia?

— Continua com aquilo que lhe pertence. Só não pode exigir que meu patrimônio entre gratuitamente.

Quando a proposta foi apresentada, Patrícia rejeitou quase imediatamente.

— Você quer usar os terrenos para tomar a empresa.

Minha mãe respondeu:

— Quero receber participação equivalente ao valor que estou colocando no negócio.

— Augusto queria que Lucas comandasse.

— Augusto morreu.

Foi uma frase dura.

Mas não cruel.

Simplesmente verdadeira.

Lucas, ao contrário da mãe, pediu tempo para analisar.

O banco também.

Os consultores contrataram avaliadores independentes.

Durante algumas semanas, ninguém sabia exatamente qual seria o resultado.

Nesse intervalo, um novo problema surgiu.

Não um escândalo.

Um prazo.

Um dos grandes financiamentos da construtora precisaria ser renovado antes que os projetos seguintes entrassem numa etapa de maior custo. O banco não recusou a renovação, mas deixou claro que queria uma estrutura de longo prazo para os terrenos.

Patrícia percebeu que não podia apenas esperar.

Ela tentou encontrar outras instituições financeiras.

Algumas demonstraram interesse.

Todas fizeram a mesma pergunta depois de analisar os documentos:

“Qual é a garantia de permanência da construtora nas áreas?”

A resposta continuava dependendo da minha mãe.

Não por vingança.

Por propriedade.

Minha avó apareceu no apartamento naquela semana.

Foi a primeira vez que entrou ali.

Olhou ao redor sem fazer comentários.

Minha mãe serviu café.

As duas se sentaram frente a frente.

Dona Celina demorou para falar.

— Augusto nunca me explicou essa história dos terrenos.

— Ele não precisava explicar. Os registros estavam disponíveis.

— Você sabe o que quero dizer.

— Sei.

Minha avó mexeu na xícara.

— A empresa era a vida dele.

Minha mãe respondeu sem hesitar.

— Também foi uma parte enorme da minha vida.

— Ele era difícil.

Clara soltou um suspiro.

— Não transforme escolhas em temperamento.

Minha avó levantou os olhos.

Fiquei imóvel no canto da sala.

Minha mãe prosseguiu.

— Seu filho escolheu outra mulher. Escolheu organizar os bens dele daquela forma. Escolheu me mandar assinar um documento no hospital. Não estou pedindo que a senhora me defenda agora. Só não quero ouvir que tudo aconteceu porque ele “era difícil”.

Dona Celina não discutiu.

Pela primeira vez, pareceu envelhecida.

— Eu fui injusta com você.

Minha mãe permaneceu em silêncio.

— O que eu disse naquele quarto…

— Eu lembro.

— Não devia ter dito.

Clara respirou fundo.

— Não devia.

Não houve abraço.

Não houve reconciliação instantânea.

Minha avó terminou o café e foi embora.

Mas alguma coisa havia mudado.

Ela finalmente reconhecera uma parte do que fizera.

E minha mãe não precisara perdoá-la para ouvir.

Na construtora, Lucas também estava mudando de posição.

Ele começou a defender a negociação da reestruturação.

Patrícia interpretou aquilo como traição.

Os dois tiveram uma discussão tão séria que parte da diretoria ouviu.

— Meu pai queria que eu dirigisse a empresa — Lucas disse.

— Então dirija! — ela respondeu.

— Dirigir não significa fingir que os terrenos são nossos!

Quando me contou isso dias depois, não senti vontade de comemorar o conflito entre eles.

Pelo contrário.

Percebi que Lucas estava preso numa herança que parecia prêmio antes de vir acompanhada das obrigações.

— Você ainda quer ser vice-presidente? — perguntei.

Ele demorou.

— Eu quero saber se sou capaz.

— Isso não é a mesma coisa.

— Eu sei.

A avaliação independente finalmente foi concluída.

Os valores não eram idênticos aos que circulavam nas conversas familiares.

A Construtora Vasconcelos tinha grande valor operacional, mas suas dívidas e compromissos reduziam o valor líquido de uma eventual participação.

A Clara Patrimonial, por sua vez, concentrava ativos imobiliários valiosos, porém pouco líquidos enquanto vinculados aos projetos.

A conclusão reforçava algo que minha mãe repetira desde o início.

Ninguém estava sentado sobre uma montanha de dinheiro livre.

Todos possuíam ativos que só faziam sentido dentro de uma estrutura capaz de funcionar.

Na segunda rodada de negociação, minha mãe ajustou a proposta.

Não queria controle absoluto.

Queria governança.

Conselho profissional.

Limites para decisões entre familiares.

Auditoria permanente.

Política clara para novos investimentos.

E participação proporcional ao valor aportado pela Clara Patrimonial.

Patrícia olhou para ela com incredulidade.

— Depois de tudo, você ainda quer manter meu nome ligado à empresa?

— Não estou decidindo pelo seu nome. Estou decidindo pela viabilidade do negócio.

— Você poderia nos deixar quebrar e comprar tudo depois.

Minha mãe permaneceu séria.

— Poderia tentar. E, nesse processo, funcionários perderiam emprego, compradores seriam prejudicados e anos de trabalho perderiam valor. Não tenho interesse nisso.

Patrícia ficou sem resposta.

O banco deu apoio técnico à continuidade das negociações.

Não escolheu um lado.

Apenas informou que uma estrutura mais previsível facilitaria a análise do financiamento.

Pela primeira vez, Patrícia pediu uma reunião apenas com minha mãe.

Sem filhos.

Sem advogados dentro da sala.

Durou quase duas horas.

Quando Clara voltou para casa, perguntei o que havia acontecido.

Ela tirou os sapatos, sentou-se no sofá e respondeu:

— Ela perguntou se eu queria vê-la sem nada.

— E?

— Eu disse que não.

— Depois do que ela fez?

Minha mãe me olhou.

— Marina, eu não preciso que Patrícia fique sem nada para que eu tenha o que é meu.

A frase me atingiu em cheio.

Durante semanas, eu tinha imaginado justiça como uma inversão perfeita.

Nós no alto.

Eles embaixo.

Minha mãe parecia querer algo mais difícil.

Que cada pessoa terminasse apenas com aquilo que realmente lhe pertencia e com as consequências das próprias escolhas.

Naquela noite, Patrícia autorizou seus advogados a negociar formalmente a reestruturação.

A guerra não tinha acabado.

Mas, pela primeira vez, todos estavam discutindo uma saída em vez de fingir que ainda podiam voltar para o dia do testamento.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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