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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Minha mãe atendeu no terceiro toque. Eu nem consegui cumprimentá-la direito antes de perguntar se a Clara Patrimonial era realmente dela. Do outro lado da linha, houve apenas uma breve pausa. — É minha, Marina.

Olhei novamente para as seis matrículas abertas diante de mim. Perguntei como todos aqueles terrenos podiam estar registrados em nome de uma empresa dela se os empreendimentos eram apresentados há anos como projetos da Construtora Vasconcelos. Minha mãe respondeu com a mesma tranquilidade da noite anterior. — Porque terreno e operação nunca foram a mesma coisa.

Ela explicou que, durante a expansão da construtora, os terrenos tinham sido adquiridos e mantidos numa empresa patrimonial separada. A Construtora Vasconcelos recebeu direitos contratuais para desenvolver os projetos, enquanto a propriedade imobiliária permaneceu fora da empresa operacional. — Seu pai sabia disso — acrescentou ela. — Os contratos não foram feitos escondidos.

Senti o coração acelerar. — Então ele sabia que aqueles R$ 1,2 bilhão não pertenciam à construtora? Minha mãe respirou fundo. — Ele sabia o que estava registrado. O que ele resolveu acreditar depois é outra história.

Perguntei por que ela nunca havia contado aquilo para mim. Clara respondeu que eu era filha, não sócia, advogada ou contadora da família, e que não queria me transformar em participante de uma guerra entre adultos. Depois pediu que eu solicitasse cópias atualizadas das matrículas e dos atos empresariais. — Não discuta com ninguém. Só traga os documentos.

Antes de desligar, não resisti. — Então aquela assinatura de ontem não tirou isso de você? Minha mãe respondeu sem hesitar. — Eu renunciei ao que estava sendo colocado diante de mim. Não assinei a transferência de uma empresa que é minha.

Voltei para casa no início da tarde com uma pasta cheia de documentos. Minha mãe estava sentada à mesa da cozinha, conferindo algumas planilhas antigas no computador. Ela analisou página por página, verificando datas, números de matrícula e registros societários. Não havia satisfação em seu rosto, apenas concentração.

Pouco depois, recebemos a notícia de que meu pai havia falecido. Minha mão ficou parada sobre a mesa. Minha mãe fechou os olhos por alguns segundos e então desligou a tela do computador. — Apesar de tudo, ele foi seu pai. Você decide se quer se despedir.

Fui ao velório com ela. Patrícia recebeu familiares como se já ocupasse oficialmente o centro da família Vasconcelos, enquanto Lucas circulava entre executivos da construtora falando sobre continuidade e nova gestão. Minha avó mal olhou para nós. Minha mãe ofereceu suas condolências e não mencionou dinheiro.

Na saída, Lucas se aproximou. — Espero que vocês não estejam pensando em criar problema agora. Minha mãe encarou-o sem alterar a voz. — Eu não vim criar problema. Vim me despedir de alguém com quem vivi vinte e três anos.

Ele sorriu de lado. — Melhor assim. A empresa precisa de estabilidade. Clara respondeu apenas: — Concordo. E estabilidade começa por saber exatamente o que pertence a quem.

O sorriso dele desapareceu por um instante. Antes que perguntasse qualquer coisa, minha mãe segurou minha mão e seguimos para o carro. Pela primeira vez, percebi que Lucas não sabia sobre as matrículas.

Na manhã seguinte, Clara enviou, por meio de um advogado contratado apenas para acompanhá-la, uma comunicação formal à Construtora Vasconcelos. Ela informava que os contratos de utilização dos seis terrenos continuariam sendo cumpridos conforme suas cláusulas, mas qualquer alteração relevante de controle, garantia ou financiamento precisaria respeitar os direitos da proprietária. Não exigiu desocupação, não interrompeu obras e não pediu pagamento antecipado.

— Você poderia simplesmente mandar todo mundo sair? — perguntei. Minha mãe balançou a cabeça. — Existem contratos, funcionários, compradores, fornecedores. Propriedade não significa poder fazer qualquer coisa de uma hora para outra.

Enquanto isso, Patrícia começou os procedimentos para administrar os bens deixados por meu pai. Ela acreditava que assumiria rapidamente tanto o patrimônio pessoal quanto o controle econômico da construtora. Lucas já se apresentava internamente como futuro vice-presidente, exatamente como o documento de meu pai determinava.

No fim daquele dia, o telefone de minha mãe tocou. Era um representante do banco que financiava parte dos seis empreendimentos. Ele queria uma reunião para confirmar a posição da Clara Patrimonial diante da mudança de controle da construtora. Minha mãe marcou para a manhã seguinte.

Ela desligou e voltou a olhar as matrículas sobre a mesa. — Agora eles começaram a conferir o que deveria ter sido conferido antes. Pela primeira vez desde que saímos do hospital, compreendi que o problema não era recuperar os R$ 1,8 bilhão. Era descobrir quanto daquele império meu pai realmente tinha o direito de entregar.

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