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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

Marina levou mais algumas semanas para tomar a decisão. Nesse período, não procurou novos motivos para ficar com raiva de Caio nem tentou transformar o passado numa acusação diária. Continuou trabalhando, pagando sua parte das despesas e mantendo a rotina que havia construído.

Caio também não voltou aos antigos hábitos.

Seu salário já não desaparecia no primeiro dia do mês. Primeiro ele pagava as obrigações, guardava uma pequena reserva, separava o necessário para viver e então enviava à mãe o valor que realmente podia oferecer.

A relação com Sônia se estabilizou aos poucos.

Ela ainda preferia os tempos em que recebia R$ 7.700 sem precisar pensar muito, mas começou a ajustar as próprias despesas. Caio continuava ajudando e visitando os pais; apenas deixara de tratar qualquer limite financeiro como sinônimo de abandono.

Curiosamente, quanto mais equilibrada a situação ficava, mais Marina percebia que sua decisão não era uma reação momentânea à falta de comida na cozinha.

Se fosse apenas isso, talvez a solução já estivesse diante dela.

O problema era a confiança.

Havia uma diferença entre alguém cometer um erro isolado e construir, durante anos, um sistema em que as consequências de suas escolhas eram absorvidas por outra pessoa. Caio começara a desmontar aquele sistema, mas Marina não conseguia fingir que nunca vivera dentro dele.

Numa sexta-feira à noite, pediu que os dois conversassem.

Caio desligou a televisão.

— Você decidiu?

— Decidi.

Ele não fez outra pergunta.

Marina sentou-se na poltrona à frente dele.

— Eu quero me separar.

Caio baixou os olhos.

Nenhum dos dois falou por alguns segundos.

— É definitivo? — perguntou ele.

— É a decisão que eu quero tomar.

Caio respirou fundo.

— Eu sabia que podia acontecer.

Marina esperou.

— Mas achei que talvez, se eu fizesse tudo certo…

Ele parou sozinho.

A frase lhe pareceu errada antes mesmo de terminar.

— Eu sei — disse Marina. — E eu reconheço que você mudou muita coisa.

— Só não mudou o que você sente.

— Não.

Caio assentiu.

Aquela conversa não terminou em gritos.

Ele perguntou como ela imaginava os próximos passos, e Marina explicou apenas o que já sabia: eles precisariam organizar documentos, definir provisoriamente as despesas e buscar orientação para formalizar a separação de forma adequada. O apartamento financiado exigiria cuidado e não seria resolvido de um dia para o outro.

Caio não tentou vender, transferir ou movimentar nada sozinho.

Pela primeira vez, quando uma decisão atingia patrimônio dos dois, ele esperou que fosse tomada pelos dois.

Nos dias seguintes, reuniram comprovantes, extratos e documentos. Marina não tentou transformar cada transferência antiga em munição emocional, e Caio não tentou apagar os registros.

Quando chegaram ao valor que ele ainda estava repondo das economias usadas na reforma, Caio assumiu o compromisso de concluir a devolução dentro do acordo que viessem a formalizar.

— Eu devia ter perguntado antes de tocar naquele dinheiro — disse.

Marina continuou organizando os papéis.

— Devia.

— Eu achava que, porque era para os meus pais, você não tinha direito de questionar.

— Eu percebi.

Caio soltou um suspiro.

— Hoje isso parece absurdo.

Marina finalmente ergueu os olhos.

— Para mim parecia absurdo naquela época também.

Ele não tentou se defender.

Dias depois, participaram de uma nova conversa com orientação jurídica. Discutiram alternativas para o apartamento e chegaram a um caminho que poderia ser formalizado sem decisões precipitadas. Enquanto tudo não estivesse concluído, ambos continuariam cumprindo as obrigações relacionadas ao imóvel.

Não houve assinatura capaz de apagar anos de convivência.

Também não houve documento milagroso que resolvesse tudo naquela tarde.

O processo exigiria algum tempo.

Ainda assim, quando saiu do escritório, Marina sentiu uma tranquilidade que não experimentava havia meses.

Caio caminhou ao lado dela até a calçada.

— Posso te perguntar uma coisa?

— Pode.

— Se eu tivesse entendido tudo isso antes, você acha que a gente estaria se separando?

Marina pensou.

— Talvez não.

A resposta pareceu doer mais do que um “sim”.

— Então eu estraguei tudo.

— Eu não sei se resumiria assim.

— Como você resumiria?

Marina olhou para ele.

— Você fez escolhas durante muito tempo. Agora eu estou fazendo a minha.

Caio ficou em silêncio.

Nas semanas seguintes, começaram a organizar a vida de maneira cada vez mais separada. Cada um mantinha suas despesas pessoais, e as obrigações conjuntas eram tratadas de forma objetiva enquanto o processo avançava.

Caio não pediu que Marina abandonasse o refeitório da empresa e voltasse a cozinhar.

Na verdade, começou a preparar as próprias refeições com frequência. O homem que três meses antes ficara indignado por encontrar apenas molho de pimenta na cozinha agora sabia exatamente quanto arroz comprar para uma semana.

Certa noite, ao fechar o armário depois de guardar mantimentos, ele ficou parado por alguns segundos.

A lembrança daquela discussão voltou.

Dessa vez, não sentiu raiva.

Sentiu vergonha e uma espécie de compreensão tardia.

Quando dissera “somos casados” para convencer Marina a comprar comida, esperava que o casamento funcionasse como garantia de que alguém cobriria aquilo que ele próprio deixava descoberto.

Agora percebia que parceria significava justamente o contrário.

Marina passou por ele carregando uma caixa com alguns documentos pessoais que separara.

— Precisa de ajuda? — perguntou Caio.

— Não. Está leve.

Ele assentiu.

Não insistiu.

Naquela noite, os dois jantaram em horários diferentes.

Não havia hostilidade.

Havia apenas a consciência de que estavam chegando ao fim de uma relação que, durante muito tempo, continuara funcionando porque uma das duas pessoas compensava o que a outra se recusava a enxergar.

O processo ainda precisava ser concluído.

Mas a decisão principal já estava tomada.

Marina não estava mais esperando que Caio mudasse para saber qual seria sua vida.

Agora era Caio quem precisava aprender a viver com as consequências de uma escolha que ela finalmente havia feito por si mesma.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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