
PARTE 4
O segundo mês passou sem grandes discussões, mas também sem qualquer retorno à antiga rotina. A cozinha continuou muito menos movimentada, porque Marina fazia quase todas as refeições na empresa. Quando chegava em casa, tomava água, preparava alguma coisa simples para o dia seguinte ou seguia diretamente para o quarto.
Caio aprendeu a cozinhar o básico por necessidade. Às vezes queimava o arroz, em outras ocasiões colocava sal demais, e algumas noites acabava desistindo e comprando alguma coisa pronta. Cada escolha tinha um preço que ele agora precisava enxergar.
No começo, aquilo o irritava. Caio interpretava a postura de Marina como frieza, quase como se ela tivesse transformado o casamento numa divisão empresarial. Mas toda vez que pensava em acusá-la, lembrava que ela continuava pagando a parte que havia assumido e jamais lhe pedira que deixasse de ajudar Sônia.
O problema estava em outro ponto: Caio queria continuar agindo como antes e, ao mesmo tempo, queria que Marina continuasse funcionando como antes. As duas coisas já não cabiam juntas.
Quando a terceira transferência de R$ 7.700 foi feita, o saldo restante lhe pareceu menor do que nunca. Não porque o salário tivesse diminuído, mas porque agora ele sabia exatamente quantos dias aquele dinheiro precisaria durar.
Na primeira semana daquele mês, o carro precisou de combustível. Depois veio uma pequena cobrança que ele havia esquecido. Em seguida, foi ao mercado e saiu com menos da metade do que pretendia comprar.
Caio começou a almoçar refeições mais baratas perto do trabalho e, em alguns dias, preferiu apenas um lanche. Não passava fome por falta absoluta de dinheiro; passava aperto porque tinha escolhido comprometer quase tudo antes de considerar as próprias despesas básicas.
Marina percebia, mas não comentava.
Certa noite, ele abriu a geladeira e encontrou ovos, uma garrafa de água e alguns potes pequenos que pertenciam a Marina. Abriu o armário. Não havia arroz.
— Você não comprou arroz?
Marina, sentada no sofá, levantou os olhos.
— Não.
— Acabou.
— Eu sei.
— E você não achou que devia comprar?
— Eu quase não como em casa.
Caio fechou a porta do armário com mais força do que pretendia.
— Mas eu como.
— Então compra.
Ele virou o rosto e ficou alguns segundos em silêncio. Ainda havia dinheiro na conta, mas gastar R$ 30 ou R$ 40 começava a significar retirar o mesmo valor de outra necessidade futura. A matemática simples o incomodava porque desmontava uma comodidade antiga.
Naquela semana, o botijão de gás praticamente não foi usado. Marina não precisava cozinhar, e Caio passou dois dias comendo pão e ovos para evitar novas despesas. O medidor permanecia quase imóvel.
Quando o mês se aproximou do fim, ele já estava cansado de organizar cada refeição. Uma quinta-feira particularmente longa no trabalho terminou com Caio chegando em casa tarde, irritado e com tanta fome que sentia o estômago embrulhar.
Abriu a geladeira.
Nada que pudesse chamar de refeição.
Abriu o congelador.
Vazio.
Foi até o armário e puxou uma porta depois da outra.
Na prateleira do fundo, havia apenas meio pote de molho de pimenta.
Ele ficou parado diante do armário por alguns segundos. Três meses antes, aquilo talvez lhe parecesse absurdo. Agora, porém, havia um caminho inteiro de escolhas ligando aquela prateleira vazia ao aplicativo bancário em seu celular.
Marina estava sentada no sofá, passando o dedo pela tela do telefone.
Caio caminhou até a sala.
— Afinal, o que você está querendo fazer?
Ela ergueu os olhos.
— O que você quer dizer?
— A casa não tem comida. Não tem arroz. Você praticamente não usa mais o gás. Eu chego do trabalho e não tem nada.
Marina não respondeu imediatamente.
Caio estava cansado, com fome e envergonhado por estar reclamando de uma realidade que, em boa parte, ele próprio tinha criado. Mesmo assim, a raiva saiu antes da reflexão.
— Minha mãe passou por tanta dificuldade para me criar. Você não consegue ter um pouco de compreensão?
Marina voltou os olhos para o celular.
— Então deixa sua mãe continuar cuidando de você. Afinal, quase todo o seu dinheiro já vai para ela.
Dessa vez, depois de ouvir a frase inteira, Caio não conseguiu responder de imediato.
Ele voltou para a cozinha, pegou o celular e abriu o aplicativo do banco. Viu a transferência para Sônia, depois abriu a conversa em que Marina havia enviado as despesas do mês.
Ficou alternando entre as duas telas.
De um lado, R$ 7.700 enviados no primeiro dia.
Do outro, a parcela do apartamento, condomínio, água, luz, internet, compras e todas as pequenas despesas que mantinham de pé o endereço que aparecia no documento dele como residência.
Marina entrou na cozinha alguns minutos depois para beber água. Caio continuava parado junto à bancada.
— Você fez isso para me dar uma lição? — perguntou.
— Não.
— Então por quê?
— Porque eu cansei de pagar para você ter o direito de ignorar quanto custa a nossa vida.
Ele abaixou o celular.
Marina não estava gritando. Aquilo tornava a resposta ainda mais difícil de contestar.
— Eu nunca te mandei pagar tudo.
— Não precisava mandar. Você simplesmente deixava as contas chegarem, dizia que compensaria depois e mandava seu dinheiro para outro lugar.
Caio olhou novamente para a tela.
Ali, pela primeira vez, as duas partes da vida dele estavam visíveis ao mesmo tempo.
E já não era possível fingir que uma não existia por causa da outra.
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