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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Marina continuou olhando para os números durante vários minutos. Ainda faltavam o condomínio, o seguro, os produtos de limpeza, as compras do mercado e tudo aquilo que surgia no decorrer do mês sem pedir licença. Quando somou o que já havia saído de sua conta nos meses anteriores, percebeu que a frase “no mês que vem eu compenso” nunca tinha se transformado em dinheiro de verdade.

Ela não sentiu vontade de discutir naquela noite. Discussões anteriores tinham terminado sempre no mesmo lugar: Caio lembrava o sofrimento da mãe, Marina dizia que nunca havia proibido ajuda alguma, e as contas da casa permaneciam esperando. Então fechou o aplicativo, guardou o celular e decidiu que, dali em diante, observaria apenas aquilo que dependia dela.

Na manhã seguinte, ao chegar à empresa, Marina passou no setor responsável pelo refeitório. Perguntou quanto custava aderir ao plano mensal completo, que incluía café da manhã, almoço e jantar nos dias de expediente. O desconto cabia no orçamento dela e era muito menor do que aquilo que vinha gastando para manter a cozinha de casa abastecida para duas pessoas.

Marina assinou a adesão sem fazer anúncio nenhum. Não estava tentando punir Caio nem criar uma armadilha. Apenas não fazia mais sentido usar quase todo o próprio dinheiro para cobrir uma casa enquanto o marido tratava suas despesas comuns como responsabilidade automática dela.

Naquela mesma semana, ela deixou de fazer a compra grande do supermercado. Comprou apenas itens pessoais e o necessário para manter a limpeza básica do apartamento. O arroz que restava terminou, a garrafa de óleo esvaziou e Marina não colocou novos pacotes no carrinho.

Caio demorou alguns dias para perceber. Ele almoçava durante a semana perto do trabalho e costumava chegar em casa esperando encontrar alguma coisa pronta. Quando perguntou por que não havia jantar numa terça-feira, Marina respondeu apenas que já tinha comido no refeitório da empresa.

— E eu vou comer o quê? — ele perguntou, abrindo a geladeira.

— O que você quiser comprar.

Caio olhou para ela, esperando alguma continuação. Como Marina voltou a mexer no celular, ele pegou o aparelho e pediu comida por aplicativo. Quando viu o valor do pedido, reclamou da taxa de entrega, mas pagou.

Nos dias seguintes, repetiu a solução. Algumas vezes comprou um lanche no caminho; em outras, pediu comida. Marina não comentou quando as embalagens começaram a se acumular na lixeira, assim como Caio nunca comentara quando sacolas de supermercado entravam semanalmente pela porta.

No fim da primeira semana, ele perguntou se ela iria ao mercado no sábado. Marina respondeu que não precisava de nada. Caio pareceu estranhar, mas foi sozinho e voltou com arroz, macarrão, ovos e alguns produtos escolhidos às pressas.

Quando passou o cartão no caixa, percebeu que aquela compra pequena já consumia uma parte considerável do dinheiro que lhe restara depois da transferência para Sônia. Pela primeira vez em muito tempo, voltou para casa segurando uma nota fiscal que tinha saído do bolso dele. Guardou as sacolas sem dizer nada.

Marina manteve a rotina. De manhã comia na empresa, almoçava ali e, quando trabalhava até mais tarde, fazia também a última refeição antes de voltar para casa. Se sobrava alguma coisa permitida pelo refeitório, levava para consumir depois.

No fim daquele mês, Caio já não perguntava por que a cozinha estava menos abastecida. Em vez disso, começou a acompanhar com atenção o saldo da própria conta. Os R$ 1.020 que sobravam depois da transferência para a mãe desapareciam muito mais depressa quando precisavam pagar comida, transporte e pequenas necessidades que antes ele quase nunca contabilizava.

Dois dias antes do próximo salário, Caio abriu o armário e encontrou o pacote de arroz quase no fim. Ficou alguns segundos parado, olhando para dentro. Depois perguntou se Marina tinha dinheiro para fazer compras.

Ela levantou os olhos.

— Tenho dinheiro para as despesas que assumi e para aquilo que eu consumo.

— Nós somos casados, Marina.

— Somos. Por isso as despesas também deveriam ser dos dois.

Caio não respondeu. Na manhã seguinte, Marina saiu para o trabalho e ele ficou olhando a cozinha silenciosa, percebendo pela primeira vez que a ausência de uma discussão não significava que nada tivesse mudado.

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