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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

PARTE 3

No mês seguinte, o salário caiu novamente e Caio repetiu o gesto de sempre. Abriu o aplicativo, digitou R$ 7.700 e confirmou a transferência para Sônia. Durante alguns segundos, porém, ficou olhando para o saldo que restou com uma atenção que nunca tivera antes.

Aquele dinheiro, que durante anos lhe parecera suficiente para “as coisinhas dele”, agora tinha outra função. Era dali que saíam suas refeições, os produtos que usava, o combustível do carro e qualquer gasto inesperado. Marina não lhe cobrara nada além do que já existia; simplesmente deixara de absorver silenciosamente o restante.

Na primeira semana, Caio tentou viver como se a mudança fosse temporária. Comprou alguns congelados, trouxe pão, frios e café, e deixou tudo na cozinha. Quando Marina chegou, ele comentou que havia feito compras, num tom que parecia esperar reconhecimento.

— Vi as sacolas — ela respondeu.

Caio esperou mais alguma coisa, mas Marina apenas guardou a bolsa e foi tomar banho. Ele sentiu uma irritação difícil de explicar. Durante anos, as compras que ela fazia tinham sido tratadas como parte natural da casa; bastara ele fazer uma pequena compra para perceber que esperava receber por aquilo um agradecimento que nunca tivera o hábito de oferecer.

Dois dias depois, chegou a cobrança do condomínio. Marina encaminhou para ele a mensagem com o valor e escreveu apenas: “Qual parte você vai pagar?”. Caio leu várias vezes antes de responder que naquele mês estava apertado.

Marina não discutiu. Pagou porque o vencimento estava próximo, mas anotou o valor na mesma planilha em que registrava as demais despesas. Na linha ao lado, escreveu que aquele pagamento correspondia temporariamente à parte de Caio e deveria ser compensado.

Quando ele viu a planilha aberta no computador, franziu a testa.

— Agora você vai anotar tudo o que eu te devo?

— Não. Vou anotar tudo o que é da casa e quem pagou.

— Parece a mesma coisa.

— Só parece porque quase tudo está saindo da minha conta.

A resposta ficou pairando entre os dois. Caio abriu a boca para falar sobre a mãe, mas percebeu que Marina não tinha mencionado Sônia. O assunto naquele momento não era quanto ele ajudava os pais; era quanto deixava de assumir dentro do próprio casamento.

Naquela noite, ele preparou macarrão com ovos. A comida ficou simples e sem muito tempero, porque não encontrara vários dos ingredientes que costumava usar sem saber quem os comprava. Marina chegou depois, disse que já havia jantado e não tocou na panela.

No sábado, Caio foi novamente ao mercado. Dessa vez, percorreu os corredores com o celular na mão e calculou preços. Arroz, feijão, óleo, carne, frutas, sabão, detergente, papel higiênico. Quanto mais colocava produtos no carrinho, mais compreendia por que Marina jamais considerava aquelas compras “coisinhas”.

Ele retirou alguns produtos antes de chegar ao caixa. Levou o básico e voltou para casa com a sensação desagradável de ter gastado muito sem ter comprado quase nada. Quando comentou o preço dos alimentos, Marina não ironizou.

— É mais ou menos isso há bastante tempo.

— Você gastava tudo isso todo mês?

— Às vezes mais.

— E nunca falou.

Marina fechou a porta do armário.

— Eu falava. Você dizia que no mês seguinte compensaria.

Caio se calou.

Na segunda metade do mês, ele começou a evitar pedir comida por aplicativo. Levava marmita algumas vezes, comia lanches baratos em outras e passou a usar o café da empresa como forma de economizar. A mudança não era confortável, mas finalmente o obrigava a organizar o dinheiro que antes considerava exclusivamente disponível depois de ajudar Sônia.

Uma noite, Caio voltou mais cedo e encontrou Marina conferindo as contas. Sentou-se do outro lado da mesa e, pela primeira vez sem ser chamado, perguntou quanto faltava pagar naquele mês. Ela virou o computador na direção dele.

A lista não tinha nada extraordinário. Parcela do apartamento, condomínio, água, luz, internet, seguro, limpeza e pequenos gastos domésticos. Justamente por ser tão comum, tornou-se difícil para Caio continuar fingindo que aquelas despesas praticamente não existiam.

— Se eu colocar dinheiro aqui agora, não vai sobrar quase nada — ele disse.

— Eu sei.

— E você espera que eu faça o quê?

Marina sustentou o olhar dele.

— Eu não espero decidir isso por você. Só não vou mais completar a diferença para que você possa mandar quase todo o salário para outra casa.

Caio passou as mãos pelo rosto. Pela primeira vez, não respondeu que a mãe havia sofrido para criá-lo. Não porque tivesse deixado de acreditar nisso, mas porque finalmente percebera que aquela frase não pagava a parcela do apartamento onde ele próprio morava.

No pagamento seguinte, hesitou antes de fazer a transferência. Mesmo assim, enviou novamente os R$ 7.700. Quando confirmou a operação, sentiu menos alívio do que de costume.

No mesmo dia, Marina transferiu apenas o valor correspondente às despesas que decidira assumir e deixou o restante separado. Era uma mudança pequena no aplicativo bancário, mas enorme na dinâmica entre os dois.

A partir dali, Caio não podia mais contar com a certeza de que qualquer falta seria silenciosamente coberta por ela.

E Marina, pela primeira vez desde que ele retirara os R$ 35 mil da economia comum para a reforma da mãe sem conversar, sentiu que havia parado de pedir permissão para proteger o próprio dinheiro.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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