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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

Sônia atendeu no terceiro toque. A voz dela parecia normal, e isso fez Caio hesitar ainda mais antes de dizer por que estava ligando. Perguntou primeiro como ela estava, ouviu alguns comentários sobre a rotina e só depois entrou no assunto do dinheiro.

— Mãe, eu vou precisar diminuir um pouco o valor que mando todo mês.

Do outro lado houve um silêncio curto.

— Aconteceu alguma coisa no trabalho?

— Não. Meu salário continua o mesmo.

— Então por quê?

Caio olhou para a porta da cozinha. Marina estava no quarto e nem sabia que ele havia decidido fazer aquela ligação.

— Porque eu preciso pagar minha parte das despesas daqui de casa.

Sônia demorou a responder.

— Marina falou alguma coisa?

Caio já esperava aquela pergunta. Durante alguns segundos, sentiu a vontade automática de dizer que sim e simplificar tudo. Seria muito fácil transformar a conversa numa exigência da esposa.

Mas não fez isso.

— Não é só a Marina. Eu fui olhar as contas.

— Você nunca precisou se preocupar tanto com isso.

Caio quase respondeu que não precisava porque Marina se preocupava. Parou antes.

— Pois é. E esse era justamente o problema.

Sônia suspirou.

Ela lembrou que sempre administrara a casa com pouco dinheiro e disse que sabia como as despesas podiam apertar. Ao mesmo tempo, explicou que já contava com o valor que Caio mandava todos os meses e que uma redução repentina exigiria reorganização.

Caio ouviu sem interromper. Não havia revelação escondida nem mentira dramática por trás dos repasses; havia apenas uma rotina que ele mesmo ajudara a construir. Sônia se acostumara a receber aquela quantia porque o filho a enviava regularmente e dizia que podia.

— Quanto você consegue mandar? — perguntou ela.

Caio não respondeu de imediato.

Era a primeira vez que fazia a pergunta na ordem inversa. Antes, ele decidia quanto queria mandar à mãe e tentava sobreviver com o restante. Agora precisava descobrir quanto realmente sobrava depois das próprias obrigações.

— No próximo mês eu te digo o valor certo. Mas vai ser menos.

Sônia ficou abatida.

— Você está passando dificuldade?

— Eu estava fazendo as contas de um jeito errado.

A frase saiu mais simples do que ele imaginava.

Depois que desligou, Caio permaneceu sentado no sofá com o celular na mão. A conversa não havia sido agradável, mas o mundo também não acabara. Sua mãe não deixara de falar com ele, não adoecera de repente, não acontecera nenhuma catástrofe.

O que havia acontecido era apenas algo que ele evitara durante muito tempo: colocar um limite.

A parcela do apartamento venceria no dia seguinte. Caio ainda não tinha dinheiro suficiente para cobrir tudo o que havia combinado com Marina, porque o salário daquele mês já tinha sido quase inteiramente transferido.

Ele vendeu alguns itens pessoais pouco usados e cancelou duas despesas não essenciais. O valor arrecadado não cobriu tudo, mas reduziu bastante a diferença.

À noite, chamou Marina.

— Eu tenho isso aqui agora — disse, mostrando o valor. — Falta uma parte.

Marina olhou para ele.

— E o que você pretende fazer?

— Posso completar quando receber?

Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Desta vez, sim. Mas quero que fique registrado como pendente.

Caio assentiu.

Não houve agradecimento emocionado nem reconciliação. Marina simplesmente garantiu que a parcela não atrasasse e anotou exatamente quanto ele deveria repor. A diferença em relação ao passado era pequena nos números, mas enorme no princípio: aquilo não desapareceria como se nunca tivesse existido.

Quando o salário seguinte caiu, Caio não fez a transferência para Sônia imediatamente.

Primeiro colocou na conta conjunta o valor combinado para a parcela do apartamento, o condomínio, as contas e uma reserva pequena para despesas domésticas. Depois separou o que precisava para transporte, alimentação e compromissos pessoais.

Só então olhou para o saldo restante.

O número era muito menor do que R$ 7.700.

Ele ligou para a mãe novamente antes de transferir. Explicou quanto conseguiria mandar naquele mês e repetiu que o valor poderia variar conforme as despesas.

Sônia não gostou.

— Então agora eu tenho que esperar para saber quanto sobra?

Caio fechou os olhos.

— Mãe, não é o que sobra porque você é menos importante. É o que eu posso ajudar depois de pagar as coisas que são minha responsabilidade.

Ela ficou calada.

— Eu devia ter organizado assim desde o começo — ele completou.

Ao desligar, Caio sentiu culpa. Mas, pela primeira vez, aquela culpa não se transformou automaticamente numa transferência maior.

Naquela noite, ele mostrou a Marina o comprovante de sua contribuição para a conta da casa.

— Coloquei tudo o que combinamos.

— Certo.

— E mandei menos para minha mãe.

Marina apenas assentiu.

Caio ficou incomodado novamente com a falta de entusiasmo.

— Você não está feliz?

Ela fechou o livro que estava lendo.

— Eu acho bom que você esteja assumindo suas responsabilidades. Mas não vou tratar isso como se apagasse o que aconteceu antes.

Ele ficou sério.

— O que mais você quer que eu faça?

Marina demorou a responder.

— Eu ainda não sei.

Caio esperava uma lista. Um pedido de desculpas específico, talvez alguns meses de pagamentos, talvez a devolução do dinheiro usado na reforma.

Mas o que Marina disse foi diferente.

— Durante muito tempo eu achei que nosso problema era o dinheiro que você mandava para sua mãe. Agora eu percebi que o problema maior era você decidir sozinho e presumir que eu sustentaria o resto.

Caio não contestou.

— Eu posso mudar isso.

— Pode.

— Então me dá tempo.

Marina desviou os olhos para a janela.

— Eu não estou impedindo você de mudar, Caio.

Ele entendeu o que ela não estava prometendo.

A mudança dele poderia melhorar a vida dele.

Poderia melhorar a forma como lidava com dinheiro.

Poderia até reparar parte do prejuízo.

Mas não garantia que Marina continuaria no casamento apenas porque ele finalmente começara a fazer aquilo que deveria ter feito antes.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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