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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

A mediação foi marcada para a semana seguinte.

Até lá, continuamos visitando meu pai.

A fala dele melhorava lentamente, palavra por palavra. Às vezes demorava quase um minuto para completar uma frase. Caio nos lembrava constantemente de não transformar o quarto num interrogatório.

Eu concordava.

Apesar de tudo o que queríamos esclarecer, ele era um homem se recuperando de um AVC.

Na terceira visita daquela semana, Helena saiu para falar com o médico e Lívia foi buscar água.

Fiquei sozinha com meu pai.

Ele estava olhando pela janela.

— Clara.

— Sim.

— Você… odeia?

A pergunta veio quebrada.

Mesmo assim, entendi.

Sentei-me.

— Não sei.

Ele fechou os olhos por um instante.

— Eu… errei.

Minha primeira reação foi de raiva.

Uma frase tão curta parecia pequena demais para três décadas.

Mas o homem diante de mim mal conseguia movimentar metade do corpo, e eu não queria usar sua fraqueza para vencer uma discussão que jamais havíamos conseguido ter quando ele era forte.

— Em quê? — perguntei.

Ele levou algum tempo.

— Vocês… crianças.

Minha garganta apertou.

— Nós éramos crianças.

Ele assentiu.

— Eu disse… grandes.

Lembrei-me imediatamente daquela reunião.

“Vocês já estão crescidos.”

Caio, com quatorze.

Lívia, com nove.

Eu, com dezesseis, fingindo ser adulta porque ninguém mais parecia disposto a proteger os dois.

— Por que fez aquilo?

Meu pai tentou responder.

As palavras saíram desconexas.

Eu só consegui compreender partes.

Depois que mamãe morreu, ele queria “começar de novo”. Helena insistia que uma nova família não funcionaria se tudo continuasse dividido entre passado e presente. Ele concordou.

Mas ele não disse que fora enganado.

Não disse que Helena o obrigara.

Não tentou se absolver.

— Eu quis — conseguiu dizer.

Aquilo, de maneira estranha, foi menos doloroso do que uma desculpa falsa.

— Então foi sua decisão.

— Foi.

— E o patrimônio da mamãe?

Ele ficou imóvel.

O olhar desviou para a janela.

— Eu achei… meu.

— Porque alguém disse?

Ele balançou a cabeça.

— Porque eu… quis achar.

Senti as lágrimas chegarem, mas não deixei que caíssem.

Meu pai fechou a mão esquerda.

— Fácil.

— Era mais fácil pensar que tudo era seu.

Ele assentiu.

A porta se abriu.

Lívia entrou e percebeu imediatamente que estávamos falando sobre o passado.

— Querem que eu saia?

— Não.

Meu pai olhou para ela.

— Lívia.

Ela se aproximou.

Ele respirou fundo.

— Desculpa.

Minha irmã ficou imóvel.

Durante toda a vida adulta, ela havia sido a mais racional entre nós.

Naquele instante, parecia novamente a menina de nove anos agarrada à minha roupa.

— Eu não sei o que fazer com esse pedido agora — respondeu.

Meu pai fechou os olhos.

— Tudo bem.

Lívia puxou uma cadeira.

— Mas preciso perguntar uma coisa. O senhor está disposto a colaborar para esclarecer os documentos da mamãe?

Ele abriu os olhos.

Assentiu.

— Sim.

— Mesmo que isso signifique reconhecer que parte do que foi doado à Helena talvez não fosse exclusivamente seu?

Demorou mais.

Então assentiu outra vez.

— Sim.

Quando contamos a Caio, ele não reagiu como eu esperava.

— Ótimo — disse apenas.

— Só isso?

— O que você quer que eu diga?

— Não sei.

Ele cruzou os braços.

— Eu passei trinta anos querendo ouvir que ele estava errado. Agora ele disse. E eu descobri que isso não devolve meus catorze anos.

Ninguém tentou contradizê-lo.

Na mediação, alguns dias depois, Helena chegou acompanhada de seu advogado e de Rafael.

Meu pai ainda estava internado e não participou pessoalmente.

O mediador explicou que aquela conversa não decidiria quem tinha razão juridicamente. Serviria para identificar o que estava em disputa e verificar se havia uma solução possível sem anos de processo.

Lívia falou primeiro.

Apresentou nossa posição com uma frieza profissional que me impressionou.

Não contestávamos automaticamente tudo o que Helena havia recebido.

Não pretendíamos reabrir cada operação realizada ao longo de três décadas.

Mas também não aceitaríamos declarar que todo o patrimônio era exclusivamente de nosso pai antes da doação, porque os registros disponíveis levantavam dúvidas relevantes sobre os bens ligados à nossa mãe.

O advogado de Helena respondeu que qualquer reivindicação seria enfrentada com todas as defesas disponíveis, inclusive as relacionadas ao tempo transcorrido.

Lívia concordou.

— Esperamos isso.

Rafael pareceu irritado.

— Então vocês sabem que podem perder.

— Claro — disse ela. — Qualquer advogado sério sabe que um processo pode ser perdido.

Ele se calou.

O mediador perguntou qual era nossa proposta concreta.

Lívia apresentou três pontos.

Primeiro: acesso completo aos documentos necessários.

Segundo: avaliação independente dos bens atualmente envolvidos na negociação.

Terceiro: construção de um acordo restrito ao que fosse efetivamente identificado como controvertido, sem renúncias genéricas sobre toda a história patrimonial da família.

Helena ficou olhando para nós.

— E se eu não aceitar?

Eu respondi:

— Então cada lado assume o risco de seguir pelo caminho judicial.

Ela apertou as mãos.

— Vocês não têm ideia do que isso vai causar.

Caio falou pela primeira vez.

— Temos.

— Seu pai precisa de tranquilidade.

— E continua recebendo nossas visitas.

— Ele precisa de cuidados caros.

Caio franziu a testa.

— O tratamento dele não está sendo condicionado à venda de uma casa.

— Eu não disse isso.

— Então não use a doença dele para encerrar a discussão.

Helena se recostou na cadeira.

Pela primeira vez, pareceu cansada.

Não elegante.

Não calculada.

Apenas cansada.

— Vocês acham que foram os únicos que passaram trinta anos com ele? — perguntou. — Eu cuidei daquele homem todos esses anos. Administrei a casa, os imóveis, problemas da empresa, funcionários, impostos, tudo. Vocês desapareceram.

A palavra me atingiu.

— Nós não desaparecemos.

— Foram embora.

— Eu tinha dezesseis anos.

Helena não respondeu.

— Caio tinha quatorze. Lívia tinha nove. Quem exatamente você acha que abandonou quem?

O mediador interrompeu antes que a conversa se transformasse numa troca de acusações.

Mas algo já havia mudado.

Até então, Helena sempre descrevera nossa saída como uma escolha de adultos.

Assim como meu pai fizera.

Naquela sala, pela primeira vez, ela teve que ouvir as idades em voz alta.

Ao fim da sessão, não houve acordo.

Mas houve uma decisão prática.

Os dois lados indicariam profissionais para revisar conjuntamente os registros essenciais e separar três grupos: bens cuja origem era claramente de meu pai, bens de origem claramente conjunta com nossa mãe e bens cuja situação permanecia duvidosa.

Era um trabalho lento.

Imperfeito.

E, justamente por isso, real.

Quando saímos, Rafael veio atrás de mim.

— Clara.

Parei.

— Minha mãe acha que vocês querem tirar tudo dela.

— Não queremos.

— Então diga isso para ela.

— Eu já disse.

— Ela não acredita.

Olhei para ele.

— Talvez porque durante trinta anos vocês tenham acreditado que só existiam duas possibilidades: ou tudo era de vocês, ou alguém estava tentando roubar vocês.

Rafael ficou em silêncio.

— Existe uma terceira — continuei. — Algumas coisas podem ser de vocês. Algumas podem nunca ter sido.

Ele não respondeu.

Voltei para junto dos meus irmãos.

Pela primeira vez desde que desembarcamos, percebi que o conflito já não era sobre voltar ao passado.

Era sobre impedir que o passado continuasse sendo tratado como uma versão única, escrita por quem tinha ficado com a caneta.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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