
PARTE 3
Quando o avião pousou em São Paulo, a cidade me pareceu ao mesmo tempo familiar e estrangeira. Trinta anos eram tempo suficiente para mudar avenidas, prédios, fachadas e até o modo como as pessoas ocupavam as calçadas, mas não apagavam certos cheiros, certas curvas de estrada e determinadas lembranças que voltavam antes mesmo de serem chamadas.
Rafael nos esperava na área de desembarque.
Eu o reconheci antes que ele levantasse a mão. O garoto arrogante de doze anos havia se transformado num homem de quarenta e poucos, de camisa social impecável e expressão permanentemente tensa. Quando nos aproximamos, ele cumprimentou Caio com um aperto de mão, Lívia com um movimento de cabeça e demorou um pouco mais diante de mim.
— Faz muito tempo.
— Faz.
Ele olhou para nossas malas.
— Minha mãe preparou quartos na casa.
Lívia respondeu antes de mim:
— Ficaremos em um hotel.
Rafael franziu levemente a testa.
— Não precisava.
— Para nós, precisa.
Ninguém discutiu.
No caminho até o hospital, ele falou sobre o estado de meu pai. O AVC havia comprometido parte da fala e os movimentos do lado direito do corpo. Os médicos ainda não sabiam quanto ele recuperaria. Estava consciente, reconhecia as pessoas e conseguia responder algumas perguntas com gestos ou palavras curtas.
Caio fez perguntas médicas, e Rafael respondeu o que sabia.
Durante alguns minutos, éramos apenas pessoas indo visitar um homem doente.
Então ele disse:
— O advogado deixou a declaração pronta. Se vocês quiserem, ele pode levar ao hospital.
Lívia virou o rosto lentamente.
— Rafael, nós atravessamos o país para visitar nosso pai. Não para fazer reconhecimento de firma no quarto dele.
— Não precisa falar desse jeito.
— De que jeito?
Ele não respondeu.
Quando chegamos ao hospital, Helena estava sentada num corredor perto da unidade neurológica.
Demorei alguns segundos para reconhecer a mulher que eu tinha guardado na memória. O cabelo estava quase todo branco, o rosto mais fino, os ombros curvados. Ainda assim, quando ela se levantou e abriu um sorriso contido, vi a mesma precisão de trinta anos antes.
— Clara. Caio. Lívia.
Ela tentou nos abraçar.
Caio permitiu um cumprimento breve. Lívia recuou meio passo. Eu apenas toquei a mão dela.
— Como ele está?
— Assustado. Muito fraco.
Helena levou a mão aos olhos.
— Ele perguntou por vocês.
Não sabia se aquilo era verdade, mas também não perguntei.
Entramos um por vez.
Caio foi primeiro. Saiu cerca de quinze minutos depois, com o rosto fechado.
— Ele me reconheceu.
— Falou alguma coisa? — perguntei.
— Meu nome. Só isso.
Lívia entrou em seguida.
Quando voltou, seus olhos estavam vermelhos, embora ela não tivesse chorado diante de nós.
Então chegou minha vez.
Meu pai parecia menor do que eu lembrava.
Durante três décadas, eu o conservara na memória como o homem alto que ocupava a cabeceira da mesa e falava como se qualquer decisão sua encerrasse uma discussão. Na cama do hospital, havia tubos, sensores e uma manta cobrindo-lhe as pernas.
Quando me viu, piscou várias vezes.
A mão esquerda se moveu sobre o lençol.
— Cla… ra.
Foi a primeira vez em trinta anos que ouvi meu nome na voz dele.
Parei ao lado da cama.
Não o abracei.
Também não fui embora.
— Eu vim.
Ele tentou dizer alguma coisa. As palavras saíram embaralhadas.
A enfermeira me explicou que eu deveria fazer perguntas simples.
Respirei fundo.
— O senhor sabe que Caio e Lívia também estão aqui?
Ele assentiu.
— O senhor sabe que Rafael pediu nossa assinatura para regularizar os imóveis?
O rosto dele mudou.
Demorou alguns segundos, mas assentiu novamente.
— Nós não vamos assinar nada sem entender os documentos.
Meu pai fechou os olhos.
Não consegui saber se aquilo significava cansaço, irritação ou alívio.
Antes de sair, falei:
— Nós viemos vê-lo porque o senhor é nosso pai. A papelada é outra coisa.
A mão esquerda dele se moveu novamente.
Dessa vez, os dedos fecharam em torno do lençol.
Do lado de fora, Helena nos aguardava com Rafael.
— Ele não pode se estressar — disse ela.
Caio respondeu:
— Ninguém está discutindo com ele.
— Eu só quero evitar problemas.
Lívia cruzou os braços.
— Então estamos de acordo.
Helena olhou diretamente para ela.
— Seu pai já resolveu tudo isso quando vocês eram crianças.
— É justamente o que queremos confirmar.
O sorriso de Helena desapareceu.
— Confirmar o quê?
— A origem dos bens, o inventário da nossa mãe, as matrículas e o alcance das doações.
Rafael deu um passo à frente.
— Vocês disseram que não queriam nada.
Eu me virei para ele.
— E continuamos sem querer nada que seja do nosso pai.
— Então assinem.
— Não.
Foi a primeira vez que minha voz se elevou, ainda que muito pouco.
— Uma pessoa pode não querer alguma coisa e ainda assim se recusar a assinar uma mentira.
O corredor ficou em silêncio.
Helena ajeitou a alça da bolsa.
— Depois de trinta anos, vocês aparecem e começam a falar como se nós tivéssemos roubado alguma coisa.
— Eu não disse isso.
— Mas está insinuando.
Lívia interveio:
— Não estamos acusando ninguém. Estamos verificando fatos. Se estiver tudo correto, os documentos mostrarão.
Helena pareceu ainda mais incomodada com aquela resposta do que ficaria com uma acusação aberta.
No hotel, naquela mesma noite, Lívia abriu o computador e começou a consultar registros que podiam ser solicitados eletronicamente. Algumas informações exigiriam documentos antigos e pedidos formais, mas a matrícula atual da casa da família apareceu primeiro.
Nós três nos aproximamos da tela.
O imóvel ainda estava registrado em nome de Helena.
Havia anotações referentes à doação feita décadas antes.
Mas uma observação na cadeia registral chamou a atenção de Lívia.
Ela aproximou a imagem.
— Aqui.
— O quê? — perguntou Caio.
— A aquisição original é anterior à morte da mamãe e consta o nome dos dois.
Senti meu estômago apertar.
— Dos dois?
— Papai e mamãe.
Caio puxou uma cadeira.
Lívia levantou a mão.
— Calma. Isso sozinho não resolve nada. Precisamos saber o regime de bens, o que aconteceu no inventário, se houve partilha, representação dos menores, tudo.
— Mas a casa não era só dele — eu disse.
— Pelo menos na origem, não.
Na manhã seguinte, fomos ao fórum onde o antigo inventário havia tramitado.
Parte do processo já estava digitalizada; outra parte precisaria ser localizada no arquivo.
Lívia identificou rapidamente algo que a deixou séria.
O inventário de nossa mãe existira.
Nós três aparecíamos nele como filhos menores.
A documentação, porém, era muito mais restrita do que esperávamos.
A casa da família não constava entre os bens partilhados naquele processo.
Nem alguns dos imóveis comerciais que nossa mãe ajudava a administrar.
Caio passou a mão pelo rosto.
— Como isso é possível?
Lívia fechou a tela.
— Ainda não sabemos. Pode haver explicação documental. Pode haver outra matrícula, alteração societária, algum detalhe que não vimos. Não vamos concluir antes da hora.
Eu me lembrei da voz de meu pai trinta anos antes.
“O que era da sua mãe também era meu.”
Naquela época, eu era uma adolescente e não sabia distinguir autoridade de verdade.
Agora, pela primeira vez, compreendi que talvez aquelas duas coisas nunca tivessem sido a mesma coisa.
Na saída do fórum, Rafael estava me ligando.
Atendi.
— Onde vocês estão?
— Resolvendo assuntos.
— Minha mãe quer conversar.
— Nós também.
— Sobre a assinatura?
Olhei para Lívia.
Ela balançou a cabeça.
— Não — respondi. — Sobre o inventário da nossa mãe.
Do outro lado, Rafael parou de falar.
Foi uma pausa curta.
Mas foi a primeira vez, desde sua ligação, em que ele não pareceu ter uma resposta preparada.
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