Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Naquela noite, Lívia não voltou a dormir. Ficou quase duas horas analisando cada linha da declaração que Rafael havia enviado. Quando me ligou novamente, já não parecia cansada; parecia alerta. — Eles não querem apenas que a gente aceite a transferência da casa, Clara. Querem que a gente confirme retroativamente tudo o que aconteceu trinta anos atrás.

Caio ainda estava no hospital onde trabalhava quando entrou novamente na chamada. — Isso faz diferença? — perguntou. Lívia respondeu sem hesitar: — Faz muita diferença. Uma coisa é dizer que não vamos contestar uma venda específica; outra é declarar que nunca tivemos direito algum sobre qualquer bem.

Abri o documento de novo e reli o trecho que mencionava a antiga casa, os imóveis comerciais e o terreno da fábrica. Eu conhecia aqueles lugares desde criança. Não porque meu pai tivesse nos explicado como eram registrados, mas porque nossa mãe participava das decisões sobre eles antes de morrer. — Foi por isso que perguntei a ele sobre o que mamãe tinha deixado — murmurei.

Lívia respirou fundo. — Eu lembro. E justamente por lembrar é que não vou assinar nada antes de consultar o inventário dela, as matrículas dos imóveis e os documentos da empresa. Depois de trinta anos, pode existir problema de prazo para discutir muita coisa, mas isso não significa que devemos assinar uma declaração genérica sem entender o que estamos renunciando.

Caio permaneceu em silêncio por alguns instantes. — Eu não quero dinheiro do papai. Nunca quis. — Nem eu — respondi. Lívia completou: — Verificar se alguma coisa pertencia à mamãe não é pedir dinheiro ao papai.

A frase caiu entre nós com um peso estranho. Durante três décadas, tínhamos construído nossas vidas com base naquela promessa feita por uma adolescente de dezesseis anos: não pegaríamos um centavo dele. Em algum momento, sem perceber, transformamos aquela frase numa regra que também nos impedia de olhar para trás.

— Vamos fazer uma coisa — eu disse. — Voltamos para vê-lo. Mas ninguém assina nada no hospital, na casa, no cartório ou em qualquer outro lugar até sabermos exatamente o que aconteceu.

Caio concordou primeiro. Lívia disse que pediria cópias dos registros públicos assim que chegássemos a São Paulo. Ela também sugeriu que guardássemos todas as mensagens trocadas com Rafael, não como arma, mas para que ninguém pudesse depois distorcer o motivo de nossa volta.

Na manhã seguinte, entreguei minhas responsabilidades na casa de repouso para a equipe administrativa e organizei alguns dias de ausência. Enquanto fechava a mala, encontrei no fundo de uma gaveta uma fotografia antiga. Nela, mamãe estava sentada entre nós três, sorrindo, e papai aparecia atrás de sua cadeira.

Fiquei olhando para a imagem por alguns minutos. Eu já não sentia a raiva abrasadora dos dezesseis anos. O que restava era algo mais difícil de nomear: uma ferida coberta por tempo suficiente para parecer cicatriz, até alguém pressionar exatamente o lugar certo.

Rafael me enviou outra mensagem antes de eu sair para o aeroporto. “Se vocês puderem assinar assim que chegarem, conseguimos resolver tudo no mesmo dia.” Li duas vezes. Então respondi: “Vamos primeiro visitar nosso pai e verificar os documentos. Não assinaremos nada antes disso.”

Ele levou menos de um minuto para responder. “Não compliquem uma coisa que já está resolvida há décadas.” Dessa vez, não respondi. Guardei o celular e fechei a mala.

Encontrei Caio e Lívia durante a conexão. Fazia meses que nós três não ficávamos juntos pessoalmente. Caio tinha fios grisalhos nas têmporas; Lívia usava os mesmos óculos finos que eu sempre esquecia de elogiar; e, por um instante, vi diante de mim o menino de quatorze anos e a garotinha de nove que eu havia levado pela mão para fora daquela casa.

Quando o embarque foi anunciado, Caio olhou para nós duas. — Estamos mesmo voltando depois de trinta anos. — Estamos — respondi. Lívia pegou sua pasta de documentos e completou: — Mas desta vez, ninguém vai decidir por nós o que nos pertence ou o que devemos renunciar.

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