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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

PARTE 5

Lívia respondeu ao advogado naquela mesma noite.

A mensagem era curta e objetiva: não nos opúnhamos, naquele momento, a nenhuma operação específica por simples capricho; apenas não assinaríamos uma renúncia geral antes de receber documentação suficiente para avaliar a origem e a titularidade histórica dos bens.

Ela pediu cópias dos instrumentos de doação, documentos relacionados ao inventário de nossa mãe, registros societários relevantes e informações sobre a operação que dependia de nossa declaração.

A resposta chegou na manhã seguinte.

O advogado de Helena afirmava que a doação feita por nosso pai havia sido formalizada décadas antes e que qualquer discussão deveria considerar o longo período transcorrido. Também dizia que a declaração solicitada tinha objetivo preventivo e que a família desejava evitar litígios desnecessários.

Lívia leu em voz alta.

— Pelo menos pararam de dizer que é uma simples formalidade.

Caio tomava café perto da janela.

— E agora?

— Agora a gente não faz nada impulsivo.

Eu sorri.

— Você fala como se estivéssemos prestes a invadir a casa com tochas.

— Você não. O Caio, talvez.

Meu irmão ergueu a xícara.

— Sou cirurgião. Tenho mãos delicadas.

Foi a primeira vez que rimos desde que voltamos.

A leveza durou pouco.

Naquela tarde, fomos novamente ao hospital.

Meu pai estava mais desperto. Conseguia formar algumas palavras, ainda com dificuldade.

Helena estava no quarto quando chegamos.

Caio conversou com o médico e depois se aproximou da cama.

— A recuperação vai levar tempo.

Meu pai fez um pequeno movimento com a cabeça.

Eu permaneci perto da porta.

Ele olhou para mim e depois para Helena.

Com a mão esquerda, apontou para ela.

— Sai.

Helena não entendeu.

— Augusto?

Ele repetiu, com esforço:

— Sai… por favor.

A expressão dela endureceu.

Ainda assim, pegou a bolsa e deixou o quarto.

Nós três ficamos com ele.

Meu pai respirou fundo.

— Papel?

Lívia respondeu:

— A declaração que Rafael mandou?

Ele assentiu.

— Não… assina.

Ninguém falou por alguns segundos.

Lívia se aproximou.

— O senhor está dizendo que não devemos assinar?

— Assim… não.

Caio olhou para mim.

Meu pai estava cansado demais para uma conversa longa, mas aquela frase mudava algo.

Não porque resolvesse a questão jurídica.

Não resolvia.

Mas porque era a primeira vez que ele contrariava claramente a pressa de Helena e Rafael.

Lívia perguntou:

— O senhor sabe por que estão pedindo?

Ele demorou.

— Venda.

Então era isso.

Havia uma negociação em andamento.

— Da casa? — perguntei.

Meu pai balançou a cabeça de modo incerto e conseguiu dizer:

— Casa… terreno.

Lívia não pressionou.

— Nós vamos verificar tudo. O senhor não precisa falar mais agora.

Quando saímos, Helena estava no corredor.

Pelo rosto dela, percebi que sabia que algo havia acontecido.

— O que ele falou?

Caio respondeu:

— Assuntos entre pai e filhos.

— Eu sou esposa dele.

— E nós somos filhos dele.

Rafael surgiu do elevador alguns minutos depois.

Helena o chamou para um canto, mas ele veio diretamente até nós.

— O advogado disse que vocês estão exigindo uma lista absurda de documentos.

Lívia ergueu as sobrancelhas.

— Matrículas, inventário e instrumentos de doação são absurdos?

— Depois de trinta anos, sim.

— Então não peçam nossa assinatura sobre fatos de trinta anos atrás.

Ele ficou vermelho.

— Vocês estão bloqueando uma operação importante.

— Não bloqueamos nada — respondi. — Vocês é que condicionaram a operação à nossa renúncia.

— É a mesma coisa.

— Não é.

Helena se aproximou.

— Vocês querem punir seu pai.

A frase me atingiu de um jeito inesperado.

— Se eu quisesse puni-lo, teria voltado antes.

Ela ficou em silêncio.

Continuei:

— Eu construí uma vida inteira sem entrar naquela casa, sem procurar vocês, sem pedir explicações. Caio fez o mesmo. Lívia também. Quem nos chamou de volta foi Rafael.

— Porque Augusto ficou doente.

— E porque vocês precisam de uma assinatura.

Helena perdeu a paciência.

— Está bem! Sim, precisamos. Existe uma negociação. Há documentos antigos que precisam ser regularizados. Isso não significa que vocês tenham direito a nada.

— Talvez não tenhamos — disse Lívia. — É uma possibilidade real.

Helena pareceu surpresa.

— Então por que continuar?

Minha irmã fechou a pasta.

— Porque a outra possibilidade também existe.

Nos dias seguintes, a documentação começou a chegar aos poucos.

Nem tudo estava completo.

Alguns arquivos eram cópias antigas. Outros continham referências a documentos ainda não localizados. Havia operações societárias que exigiriam análise contábil.

Mesmo assim, um padrão ficou mais claro.

Após a morte de nossa mãe, papai havia tratado vários bens como se fossem exclusivamente dele antes de doá-los a Helena.

Se isso era juridicamente sustentável em todos os casos, ainda não sabíamos.

A casa era o ponto mais sensível.

Sua origem conjunta estava documentada.

O inventário de mamãe não a mencionava.

Quando Lívia consultou um colega especializado em sucessões mais antigas, ouviu exatamente o que já suspeitava: seria imprudente prometer vitória. Trinta anos criavam obstáculos sérios, e qualquer medida judicial teria de enfrentar questões de prazo, prova e situações consolidadas.

Mas ele acrescentou outra coisa.

A tentativa atual de apresentar uma cadeia de titularidade sem risco poderia ser justamente o motivo pelo qual uma declaração nossa tinha se tornado tão valiosa.

Não precisávamos vencer uma ação antiga para sermos relevantes numa negociação presente.

Essa diferença mudou nossa estratégia.

Lívia decidiu que não iniciaríamos imediatamente uma guerra judicial ampla.

Em vez disso, responderíamos formalmente propondo uma revisão documental conjunta e, se necessário, mediação.

— Não quero passar cinco anos brigando por uma casa onde não moro há trinta — eu disse.

— Nem eu — Caio concordou.

Lívia nos encarou.

— Então precisamos definir o objetivo.

Voltei a pensar na pergunta de Helena.

“O que vocês querem?”

Dessa vez, eu tinha uma resposta melhor.

— Quero que ninguém nos obrigue a declarar que mamãe nunca teve direito a nada.

Caio assentiu.

— Eu quero sair daqui sem sentir que, mais uma vez, alguém decidiu por nós.

Lívia respirou fundo.

— E eu quero que qualquer acordo diga exatamente o que estamos reconhecendo e exatamente o que estamos recebendo ou renunciando. Nada de frase genérica apagando trinta anos de história.

Foi assim que nossa proposta foi enviada.

Dois dias depois, o advogado de Helena respondeu.

Eles aceitavam uma reunião de mediação privada.

Não era uma vitória.

Não era uma rendição.

Era apenas a primeira vez em três décadas que a conversa começava sem meu pai na cabeceira da mesa dizendo que o assunto estava encerrado.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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