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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

Alguns meses se passaram.

Outubro, que antes carregava a data do casamento, começou a se aproximar sem que eu percebesse imediatamente. Um dia, ao abrir o calendário do computador, vi a semana que durante quase um ano havia estado marcada em vermelho e fiquei alguns segundos olhando para ela.

Eu esperava sentir um choque.

Não senti.

Havia uma reunião importante na segunda-feira, uma apresentação na quarta e um almoço com meus pais no domingo. A semana que deveria ter sido dominada por uma cerimônia agora parecia apenas parte da minha vida comum.

Eu tinha conseguido a liderança do novo projeto.

A promoção não foi anunciada com festa nem mudou minha vida de um dia para o outro. Veio com mais responsabilidade, mais reuniões e uma equipe que agora esperava decisões minhas.

Gostei disso.

Pela primeira vez em muito tempo, eu estava cansada por algo que tinha escolhido.

Minha mãe acompanhava tudo sem interferir.

Quando contei que havia conseguido a posição, ela me abraçou e perguntou:

— E você está feliz?

— Estou.

— Então comemore isso.

Não mencionou os edifícios, o noivado ou Eduardo.

A vida continuava.

Foi Eduardo quem entrou em contato outra vez.

A mensagem era curta.

“Você aceitaria tomar um café comigo? Não quero discutir volta nem casamento. Só queria conversar uma última vez.”

Pensei durante dois dias.

Depois aceitei.

Nos encontramos no mesmo café onde ele havia colocado o acordo patrimonial diante de mim meses antes.

A coincidência não foi planejada, mas nenhum de nós ignorou.

Eduardo chegou primeiro.

Quando sentei, ele sorriu com certo desconforto.

— Acho que escolhi o lugar errado.

— Talvez seja o lugar certo.

Ele entendeu.

Pedimos café.

Dessa vez, nenhum documento estava sobre a mesa.

Eduardo contou que tinha assumido mais responsabilidades na empresa e que, depois do fim do noivado, decidiu morar sozinho por um período. Antes, apesar de ter uma casa em seu nome, passava boa parte da semana na casa da mãe porque era mais conveniente.

— Eu percebi que chamava de conveniência muita coisa que, na verdade, era dependência — disse.

Eu não respondi imediatamente.

— E sua mãe?

— Ficou irritada no começo.

Ele sorriu.

— Depois aceitou.

Perguntei por que ele queria me contar tudo aquilo.

Eduardo girou a xícara entre as mãos.

— Porque eu passei meses pensando na pergunta que você me fez.

— Qual?

— Se eu teria mudado o acordo se você fosse apenas a funcionária que eu achava que era.

Eu lembrei.

— E qual é a resposta?

Ele olhou diretamente para mim.

— Não.

A honestidade foi dolorosa, mas necessária.

— Eu teria mantido tudo exatamente como estava.

Respirei devagar.

Eduardo continuou:

— Eu tratava minha proteção como prudência e a sua como desconfiança.

Assenti.

— Foi isso que eu senti.

— Hoje eu entendo.

Ele não pediu nada em troca da confissão.

— Quando descobri seus prédios, comecei a fazer contas antes de fazer perguntas. Pensei no que aquilo significava para o nosso padrão de vida, nos investimentos que poderíamos fazer, na empresa…

Ele parou.

— Foi feio.

— Foi revelador.

— Sim.

Por alguns segundos, nós dois sorrimos com tristeza.

Eduardo continuou:

— Eu queria pedir desculpas sem usar isso para pedir outra chance.

— Você já pediu desculpas antes.

— Eu sei. Mas naquela época eu ainda estava tentando te convencer a ficar. Acho que isso contaminava tudo que eu dizia.

A frase fazia sentido.

— Então eu aceito.

Ele soltou o ar, como se carregasse aquilo havia muito tempo.

— Obrigado.

Ficamos algum tempo falando sobre assuntos comuns.

A empresa dele seguia bem. Minha promoção exigia mais trabalho do que eu esperava. Sônia tinha começado a participar menos das decisões profissionais do filho.

Não havia tensão romântica naquela conversa.

Havia história.

E, estranhamente, isso bastava.

Antes de irmos embora, Eduardo perguntou:

— Você acha que, se eu tivesse entendido tudo isso antes, a gente teria dado certo?

Pensei bastante.

— Talvez.

Ele sorriu de lado.

— Resposta difícil.

— Mas é a única verdadeira.

Peguei minha bolsa.

— Algumas coisas só são percebidas quando já tiveram uma consequência.

Eduardo assentiu.

— E você não acha injusto?

— Às vezes.

— E mesmo assim não voltaria?

Olhei para ele.

— Não.

Não precisei pensar.

Ele abaixou a cabeça por um instante e depois levantou novamente.

— Eu sabia. Só queria ouvir de você uma vez sem estar tentando mudar sua resposta.

— Então agora ouviu.

— Agora ouvi.

Saímos juntos até a calçada.

Antes de cada um seguir para seu carro, ele me ofereceu a mão.

Eu apertei.

Não houve promessa de amizade.

Não houve frase sobre o destino.

Apenas duas pessoas reconhecendo que uma história importante havia terminado.

Na semana seguinte, recebi uma proposta da administradora dos meus imóveis para reformar parte de um dos edifícios. Pela primeira vez, decidi participar pessoalmente das reuniões em vez de deixar tudo sob supervisão da minha mãe.

Não porque de repente quisesse viver em função do patrimônio.

Mas porque compreendi que discrição não precisava significar distância da própria vida.

Analisei os números, fiz perguntas e escolhi adiar uma parte das obras até termos orçamentos melhores.

Quando saí da reunião, senti uma satisfação simples.

Aqueles bens eram meus.

Meu trabalho também era meu.

Minhas decisões, finalmente, estavam começando a ocupar o mesmo lugar.

No domingo anterior à data em que eu deveria me casar, minha mãe perguntou se eu queria viajar.

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Sorri.

— Não preciso fugir da data.

Ela me olhou por alguns segundos e sorriu também.

Naquele momento eu percebi que outubro não carregava mais um casamento cancelado.

Carregava apenas dias.

E eu podia decidir o que fazer com cada um deles.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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