
PARTE 2
Naquela noite, encontrei minha mãe sentada à mesa da cozinha, esperando por mim. Ela não perguntou se eu estava triste nem começou criticando Eduardo; apenas apontou para a cadeira à sua frente e perguntou o que exatamente ele havia proposto. Coloquei a pasta sobre a mesa e deixei que ela lesse tudo.
Minha mãe passou pelas páginas sem pressa. Quando terminou, voltou à cláusula sobre os rendimentos da empresa e depois à parte que falava em responsabilidade da esposa pelo fim do casamento. Só então levantou os olhos. — Você pretende assinar isso exatamente assim?
— Pretendo formalizar a separação do patrimônio, não aceitar qualquer frase que me coloque numa posição inferior. Expliquei que tinha concordado porque não via problema em cada um proteger o que já possuía. O que me incomodava era a maneira como Eduardo e a mãe dele tratavam a proteção como se fosse necessária apenas contra mim.
Minha mãe fechou a pasta. — Separar patrimônio não é ofensa. Tratar a outra pessoa como suspeita enquanto você se coloca acima dela é outra coisa. Depois pegou o celular e me passou o contato de uma advogada que cuidava de questões patrimoniais da família havia anos.
Na manhã seguinte, antes de ir ao cartório, conversei com a advogada. Ela leu o documento e explicou que algumas cláusulas precisavam ser reformuladas para que o acordo fosse equilibrado e juridicamente coerente. Eu não queria vantagem nenhuma; queria apenas que as obrigações e proteções valessem para os dois.
Cheguei ao cartório alguns minutos antes das dez. Eduardo já estava ali com a mãe, Sônia, que usava uma bolsa grande demais para a quantidade de coisas que parecia carregar e um sorriso ainda maior quando me viu. — Eu sabia que você era uma menina sensata.
Ela deu dois tapinhas na minha mão. — Não leve para o lado pessoal, querida. A gente só está se prevenindo contra gente mal-intencionada. Eu mantive o mesmo sorriso. — Acho certo.
Eduardo perguntou pela minha relação de bens. Entreguei um envelope junto com os documentos preparados pela advogada. Ele segurou o pacote e riu quando viu a quantidade de folhas. — Tudo isso por causa de um carro e algumas economias?
— Você pediu uma relação completa. — Eu pedi, mas não precisa exagerar. Eduardo sequer abriu o envelope antes de colocá-lo sobre a mesa do funcionário responsável pelo atendimento.
Durante a conferência, ficou claro que o texto original precisaria ser ajustado. A cláusula que criava uma consequência apenas para mim em caso de separação foi substituída por uma redação aplicável aos dois, e a proteção patrimonial passou a seguir o mesmo critério para cada lado. Sônia não gostou muito.
— Nosso texto já estava pronto — ela reclamou. — Não entendo por que complicar. O funcionário respondeu com calma que, se o objetivo era estabelecer regras entre duas pessoas, o documento deveria refletir a vontade de ambas.
Eu não precisei discutir. Eduardo olhou para a mãe, depois para mim, e acabou concordando com as alterações. Parecia mais preocupado em concluir tudo do que em saber por que eu tinha insistido tanto na reciprocidade.
Quando chegou o momento de verificar os anexos, Eduardo recebeu novamente a relação que eu havia levado. Poderia ter lido cada página. Em vez disso, passou os olhos apenas pela primeira folha e assinou onde indicaram.
— Confio nela — disse, quase com orgulho. A frase teria soado bonita se, menos de vinte e quatro horas antes, ele não tivesse me explicado que o acordo existia justamente porque confiança não era suficiente.
Sônia também não pediu para ver. O que parecia interessá-la era sair dali com a certeza de que a casa, a empresa, o carro e os investimentos do filho estavam protegidos. Quando tudo terminou, respirou aliviada.
Na porta do cartório, Eduardo passou o braço pelos meus ombros. — Pronto. Agora a gente pode parar de falar de dinheiro e cuidar do casamento. Eu olhei para ele. — Seria bom.
Sônia já estava alguns passos à frente quando se virou. — No sábado temos o jantar de noivado com a família. Agora posso contar para todo mundo que resolvemos tudo direitinho. A satisfação na voz dela me deixou desconfortável.
No carro, liguei para minha mãe e contei que a escritura havia sido feita com as alterações. Ela perguntou apenas se Eduardo tinha lido minha declaração patrimonial. Respondi que ele tivera oportunidade, mas praticamente não olhara.
Houve um breve silêncio. — Então não esconda nada, mas também não corra atrás de alguém para obrigá-lo a enxergar o que está diante dele — minha mãe disse. Antes de desligar, acrescentou que estaria no jantar de sábado.
Fiquei olhando pela janela enquanto o trânsito avançava devagar. Pela primeira vez, percebi que o documento em si talvez nunca tivesse sido o verdadeiro problema. A questão era o que cada um de nós acreditava estar protegendo quando decidiu assiná-lo.
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