
PARTE 4
Encontrei Eduardo naquela noite em uma cafeteria perto do meu trabalho. Ele chegou antes de mim e já tinha pedido duas bebidas, inclusive a que eu costumava tomar. Em outros tempos, o gesto teria me parecido carinhoso. Naquele dia, só me fez lembrar de como ele sabia detalhes pequenos sobre mim enquanto ignorava coisas muito maiores simplesmente porque nunca considerara necessário perguntar.
— Não quero que a gente comece a conversa brigando — ele disse assim que sentei.
— Então fala o que você quer mudar.
Eduardo respirou fundo.
— O acordo ficou muito rígido.
Eu quase sorri.
— Foi você quem trouxe esse acordo.
— Eu sei. Mas talvez a gente tenha exagerado.
— Ontem ele não parecia exagerado.
— Ontem eu não tinha a visão completa da nossa situação.
A frase novamente me atingiu.
— E qual é a visão completa agora?
Ele hesitou antes de responder.
— Você também tem patrimônio relevante. Então talvez faça mais sentido pensar como um casal de verdade.
— Nós não éramos um casal de verdade quando você achava que eu só tinha meu salário?
— Mariana…
— Estou perguntando.
Eduardo desviou os olhos.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Eu me inclinei um pouco para a frente.
— Então explica.
Ele começou a falar sobre planejamento financeiro conjunto. Disse que, depois do casamento, poderíamos criar uma conta para despesas comuns, investir juntos e estabelecer objetivos maiores. Até aí, eu não tinha nenhuma objeção. Era exatamente o tipo de conversa que qualquer casal deveria ter.
O problema apareceu alguns minutos depois.
— Talvez parte da renda dos imóveis possa entrar nesses projetos — ele sugeriu.
— E parte dos dividendos da sua empresa?
Eduardo ficou em silêncio por um instante.
— Também podemos discutir.
— Ontem isso era exclusivamente seu.
— Porque eu estava pensando em proteção.
— E hoje você está pensando em quê?
Ele apoiou os cotovelos na mesa.
— Em parceria.
Eu senti uma tristeza muito mais calma do que a raiva que esperava sentir.
— Eduardo, parceria não pode começar no momento em que você descobre que eu tenho mais dinheiro do que imaginava.
— Não é isso.
— É difícil acreditar que não seja.
Ele ficou alguns segundos sem falar.
Depois tentou outro caminho.
— Minha mãe ficou muito constrangida ontem.
— Eu também fiquei quando ela falou do seu patrimônio diante de todo mundo.
— Ela não quis te humilhar.
— Mas quis provar para os parentes que tinha tomado medidas para se proteger de mim.
Eduardo abaixou a voz.
— Você sabe como ela é.
— Sei. O que eu ainda estou descobrindo é como você é quando isso acontece.
Ele me encarou.
Eu continuei:
— Você não interrompeu sua mãe. Não disse que aquela conversa era inadequada. Não lembrou que o acordo valia para os dois. Ficou quieto.
— Eu não queria criar uma cena.
— Sua mãe já tinha criado uma.
Eduardo se recostou, frustrado.
— Então o que você quer que eu faça?
Era uma pergunta simples, mas importante.
— Quero que você pare de tratar a reação da sua mãe como algo inevitável que eu preciso suportar.
— Ela é minha mãe.
— E eu seria sua esposa.
Ele ficou em silêncio.
Pela primeira vez desde o noivado, percebi que nosso problema não estava limitado ao dinheiro. O acordo tinha apenas colocado uma lupa sobre uma dinâmica que eu talvez tivesse ignorado durante muito tempo: Sônia estabelecia os termos, Eduardo tentava mantê-la satisfeita e esperava que eu me adaptasse.
Quando voltei para casa, minha mãe estava lendo na sala. Contei o que Eduardo havia proposto.
Ela não comemorou por ter previsto nada.
— E você, o que quer fazer?
— Não sei ainda.
— Então não marque nenhuma decisão definitiva enquanto não souber.
Sentei ao lado dela.
— Estou pensando em adiar o casamento.
Minha mãe fechou o livro.
— Porque está com raiva?
— Não.
Pensei por alguns segundos.
— Porque eu não quero chegar a outubro esperando que um problema que já existe desapareça sozinho depois da cerimônia.
Ela assentiu.
No dia seguinte, liguei para Eduardo e pedi que viesse me encontrar.
Não prolonguei a conversa.
— Quero suspender os preparativos do casamento.
Ele demorou a reagir.
— Suspender como?
— Sem novas contratações, sem novos pagamentos e sem decisões de cerimônia até a gente resolver o que está acontecendo.
— Você está adiando nosso casamento por causa de um contrato?
— Não é por causa do contrato.
— Então é por causa da minha mãe.
— Também não.
Eu o encarei.
— É por causa de nós dois.
Eduardo ficou pálido.
— Mariana, faltam poucos meses.
— Por isso estou falando agora.
— E o que eu digo para minha família?
— A verdade.
— Qual verdade?
— Que descobrimos que não temos a mesma visão sobre dinheiro, confiança e limites familiares e precisamos resolver isso antes de casar.
Ele passou as mãos pelos cabelos.
— Você sabe o tamanho da confusão que isso vai causar?
— Eu sei o tamanho da confusão que um casamento mal resolvido pode causar.
A frase encerrou a discussão.
Naquela tarde, avisei os fornecedores pelos quais eu era responsável de que nenhum novo serviço deveria ser contratado até segunda ordem. Eduardo ficou encarregado de fazer o mesmo com os que estavam do lado dele.
Foi a primeira consequência real.
A data de outubro ainda existia no calendário, mas, pela primeira vez, deixou de ser inevitável.
Nos dias seguintes, Eduardo mandou mensagens tentando retomar o assunto. Algumas eram carinhosas. Outras claramente carregavam ansiedade.
Na sexta-feira, ele apareceu na saída do meu trabalho.
— Minha mãe quer conversar com você.
Eu parei.
— Sobre quê?
— Sobre o jantar.
— Se ela quiser conversar comigo, pode me ligar.
— Ela prefere pessoalmente.
— Então ela pode me convidar.
Eduardo pareceu irritado.
— Por que tudo precisa virar uma questão de princípio?
Pensei um pouco antes de responder.
— Porque sempre que eu abro mão do princípio para evitar desconforto, alguém transforma isso em obrigação.
Ele não respondeu.
Foi embora alguns minutos depois.
Naquela noite, Sônia finalmente me ligou.
Não pediu desculpas.
Disse apenas:
— Acho que nós duas começamos com o pé errado. Podemos conversar como duas mulheres adultas?
Concordei.
Não porque quisesse agradá-la.
Mas porque eu já tinha decidido que, antes de escolher se continuaria ou não naquela família, ouviria com atenção tudo que ela acreditava ter direito de exigir de mim.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














