
PARTE 5
Sônia marcou nosso encontro em uma confeitaria perto da casa dela. Quando cheguei, ela já estava sentada e mexia no café sem beber. Pela primeira vez desde que a conhecia, não parecia completamente segura do que iria dizer.
— Obrigada por vir — começou.
— Você disse que queria conversar.
Ela assentiu.
Durante alguns segundos, nenhum de nós falou.
Então Sônia respirou fundo.
— Eu reconheço que o jantar ficou desagradável.
Esperei.
— Mas sua mãe também me colocou numa situação muito constrangedora.
Eu quase sabia que aquela frase viria.
— Minha mãe respondeu ao assunto que você escolheu levar para a mesa.
— Eu estava falando do meu filho.
— E usando meu caráter como comparação.
Sônia apertou os lábios.
— Não falei do seu caráter.
— Disse que o acordo provava que eu estava com Eduardo pelos motivos certos.
— Foi um elogio.
— Não pareceu.
Ela desviou o olhar.
Eu não estava ali para vencê-la numa discussão, então deixei alguns segundos de silêncio antes de continuar.
— Sônia, não me incomoda que Eduardo proteja o patrimônio dele. O que me incomoda é que vocês tratavam isso como uma proteção contra mim e acharam natural até descobrir que eu também tinha patrimônio.
Ela se endireitou na cadeira.
— Ninguém mudou de opinião porque você tem dinheiro.
— Eduardo quer rever o acordo.
A reação dela foi quase imperceptível, mas suficiente.
— Casamento exige flexibilidade.
— Ontem exigia separação.
— As circunstâncias mudaram.
— Não. A circunstância que mudou foi a informação que vocês têm sobre mim.
Ela ficou em silêncio.
Depois disse:
— Você precisa entender que meu filho construiu uma empresa. É natural eu querer protegê-lo.
— Concordo.
A resposta pareceu surpreendê-la.
— Então qual é o problema?
— O problema é achar natural protegê-lo de mim e ofensivo quando minha família faz o mesmo.
Sônia não conseguiu responder imediatamente.
Pedi a conta e me preparei para levantar, mas ela me interrompeu.
— Espere.
Voltei a olhar para ela.
— Eduardo está muito abalado com a suspensão do casamento.
— Eu também não estou feliz.
— Então por que continuar fazendo isso?
A pergunta me cansou.
— Porque casar não é um prêmio por evitar conflitos.
Ela franziu a testa.
— Eu não disse isso.
— Mas vocês estão tratando o casamento como algo que precisa continuar porque já gastamos dinheiro, avisamos parentes e escolhemos uma data. Nenhuma dessas coisas é mais importante do que descobrir se Eduardo e eu conseguimos tomar decisões juntos.
Sônia respirou lentamente.
— E o que você espera dele?
— Que tenha uma opinião própria quando a opinião da mãe dele e a da futura esposa forem diferentes.
Ela ficou visivelmente incomodada.
— Você está querendo afastá-lo da família?
— Não.
Levantei.
— Estou querendo descobrir se existe espaço para mim nela.
Saí sem elevar a voz.
Naquela noite, Eduardo apareceu no meu apartamento. Eu quase não abri a porta, mas decidi ouvi-lo.
— Minha mãe disse que você acusou ela de controlar minha vida.
— Eu não usei essas palavras.
— Foi isso que ela entendeu.
— Então pergunte a ela exatamente o que eu disse.
Eduardo entrou e ficou perto da porta.
— Mariana, isso está ficando grande demais.
— Já era grande. Só não estava visível.
Ele caminhou pela sala por alguns segundos.
— Vamos esquecer o acordo.
Olhei para ele.
— Como?
— Cancelamos tudo. Cada um administra o que tem e pronto. Sem papel, sem discussão.
Eu demorei um momento para responder.
— Você passou meses dizendo que o documento era indispensável.
— Eu mudei de ideia.
— Depois de saber dos meus prédios.
— Você vai usar isso contra mim para sempre?
— Não. Mas você precisa reconhecer a coincidência antes de pedir que eu finja que ela não existe.
Eduardo suspirou.
— Está bem. Eu fiquei surpreso.
— Só surpreso?
Ele não respondeu.
Aquele silêncio disse mais do que qualquer explicação.
Então ele sentou.
— Minha mãe acha que, já que nós dois temos patrimônio, não faz sentido agir como duas pessoas completamente separadas.
— E você?
— Eu acho que casados deveriam construir juntos.
— Eu também.
— Então pronto.
— Construir juntos não é a mesma coisa que transformar o que um já possuía em recurso comum.
Eduardo ficou novamente em silêncio.
Eu continuei:
— Se começarmos um negócio juntos depois do casamento, é nosso. Se comprarmos um imóvel juntos, é nosso. Se criarmos uma reserva comum, é nossa. Não tenho problema nenhum com isso.
— Mas?
— Mas meus prédios não precisam financiar sua empresa para provar que eu acredito no casamento.
A mudança no rosto dele confirmou que eu havia tocado no ponto certo.
— Eu nem falei da empresa.
— Ainda.
Ele se levantou.
— Isso é injusto.
— Então me diz que nunca pensou nisso.
Eduardo andou até a janela.
Depois de algum tempo, falou:
— Pensei que talvez a renda de um dos imóveis pudesse ser investida em alguma coisa mais rentável.
— Na sua empresa?
Ele não respondeu diretamente.
— Poderia ser.
Pela primeira vez desde o início daquela situação, eu não senti confusão.
Senti clareza.
— Não.
Eduardo se virou.
— Você nem sabe a proposta.
— Não preciso saber.
— Então você não confia em mim.
A frase quase me fez rir.
— Você me levou a um cartório porque dizia que confiança não substituía proteção patrimonial.
Ele percebeu a contradição imediatamente.
— Não é a mesma coisa.
— Para mim é.
Ficamos nos olhando.
Eu já não via apenas o homem com quem tinha planejado me casar. Via alguém que estabelecera uma regra quando acreditava estar em vantagem e começara a questioná-la assim que percebeu que a regra também me protegia.
— O casamento continua suspenso — falei.
— Até quando?
— Até eu saber se ainda quero casar.
Eduardo empalideceu.
— Então agora você está pensando em terminar?
— Estou pensando em não ignorar o que estou vendo.
Ele pegou a chave sobre a mesa.
Antes de sair, virou-se para mim.
— Dois anos juntos não podem acabar por causa de dinheiro.
— Concordo.
Minha voz saiu baixa.
— Mas talvez possam acabar por causa do jeito como alguém muda quando descobre quem tem o dinheiro.
A porta se fechou.
Na manhã seguinte, cancelei a reunião que teria com a decoradora e pedi o levantamento de todos os valores já pagos por mim.
Não era o fim do noivado.
Ainda não.
Mas eu deixara de planejar uma cerimônia enquanto tentava convencer a mim mesma de que o casamento continuava intacto.
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