
PARTE 3
O jantar de noivado foi organizado por Sônia em um restaurante reservado para a família. Havia parentes de Eduardo que eu conhecia pouco, alguns amigos dos pais dele e meus pais sentados à mesa principal. Durante a primeira hora, tudo correu de forma tranquila. Falamos sobre a data do casamento, o número de convidados e os detalhes da cerimônia.
Eu já estava começando a pensar que aquela noite passaria sem qualquer discussão sobre patrimônio quando uma tia de Eduardo perguntou, em tom de brincadeira, se ele estava preparado para a vida de casado.
Sônia riu antes que ele respondesse.
— Preparado ele está. E nós também fizemos tudo direitinho antes.
Eu sabia imediatamente aonde aquela conversa iria chegar.
Eduardo tentou mudar de assunto perguntando sobre o vinho, mas a mãe continuou.
— Hoje em dia a gente precisa ter cuidado. Não dá para passar uma vida construindo patrimônio e depois descobrir que alguém entrou na família pensando em outra coisa.
A tia concordou com a cabeça.
Sônia, animada pela reação, explicou que a casa de Eduardo, o carro, os investimentos e a participação na empresa estavam formalmente protegidos. Falou até do valor aproximado do patrimônio dele, como se estivesse apresentando uma conquista diante da mesa.
— Mais ou menos R$ 12 milhões — disse. — Não é uma fortuna gigantesca, claro, mas é dinheiro suficiente para a gente ter responsabilidade.
Eu continuei comendo.
Minha mãe, ao meu lado, também permaneceu em silêncio.
Eduardo lançou um olhar rápido para mim. Parecia constrangido, mas não pediu para a mãe parar.
Então Sônia acrescentou:
— Mariana entendeu perfeitamente. Assinou tudo sem criar problema. Isso mostra que ela está com meu filho pelos motivos certos.
Minha mãe pousou os talheres.
O movimento foi pequeno, mas eu sabia o que significava.
Ela pegou a bolsa que estava ao lado da cadeira e retirou uma pasta fina.
— Já que estamos falando de regras — disse com a mesma calma de sempre —, acho justo esclarecer uma coisa também.
Sônia virou para ela.
— Claro.
Minha mãe colocou a pasta sobre a mesa.
— Mariana também formalizou todo o patrimônio anterior ao casamento.
Eduardo parou de mexer no copo.
Minha mãe continuou:
— Os dois edifícios comerciais registrados no nome dela estão devidamente declarados e protegidos.
A mesa inteira ficou em silêncio.
Sônia deixou os talheres escaparem. O pequeno ruído metálico pareceu muito mais alto naquele salão.
Eduardo me encarou.
— Dois edifícios?
Eu assenti.
— Sim.
— Que edifícios?
— Os que meu avô passou para meu nome quando fiz vinte e quatro anos.
Ele continuou me olhando, como se tentasse decidir se eu estava falando sério.
Sônia foi a primeira a recuperar a voz.
— Edifícios inteiros?
Minha mãe respondeu antes de mim.
— Sim.
— Comerciais?
— Sim.
A expressão de Sônia mudou. O sorriso confiante de alguns minutos antes desapareceu completamente.
Eduardo colocou o copo na mesa.
— Por que você nunca me contou isso?
A pergunta saiu mais forte do que eu esperava.
— Você nunca perguntou sobre meu patrimônio — respondi. — Sabia onde eu trabalhava e quanto eu ganhava. Para mim, isso sempre foi suficiente.
— Não é a mesma coisa.
— Para mim era.
Ele franziu a testa.
— Mariana, estamos noivos.
— E quando ficamos noivos você também nunca falou em detalhes sobre seus bens. Só falou quando decidiu que precisava protegê-los de mim.
Sônia se ajeitou na cadeira.
— Ninguém disse que precisava se proteger de você.
Minha mãe olhou para ela.
— A senhora acabou de passar vários minutos explicando exatamente isso.
Alguns parentes desviaram os olhos.
Sônia respirou fundo.
— Eu estava falando de prevenção. É diferente.
— Foi por isso que fizemos a mesma coisa — minha mãe respondeu. — Prevenção.
Não havia agressividade na voz dela, o que tornava a situação ainda mais difícil para Sônia contestar.
Eduardo se inclinou na minha direção.
— Quanto valem esses prédios?
A pergunta veio tão rápido que eu demorei um segundo para responder.
— Isso importa agora?
— Claro que importa.
— Por quê?
Ele abriu a boca e depois fechou.
Eu senti algo mudar dentro de mim.
Até aquele momento, uma parte de mim ainda acreditava que o problema havia sido apenas a influência exagerada da mãe dele. Talvez Eduardo tivesse aceitado o acordo para evitar conflito em casa. Talvez tivesse sido covarde, mas não necessariamente calculista.
Só que o primeiro impulso dele, depois de descobrir que eu tinha patrimônio, não foi perguntar por que eu tinha escolhido viver de forma simples.
Foi perguntar quanto valia.
Sônia, percebendo o clima, tentou suavizar a conversa.
— Bom, isso muda bastante as coisas.
Eu olhei para ela.
— O que muda?
— Nada de ruim, claro. Só estou dizendo que agora sabemos que as famílias têm condições parecidas.
Minha mãe arqueou levemente uma sobrancelha.
— E isso deveria alterar alguma coisa entre eles?
— Não foi isso que eu quis dizer.
Mas foi exatamente o que pareceu.
O jantar continuou, porém ninguém voltou ao tom descontraído do início.
Eduardo quase não falou comigo durante o restante da noite. De vez em quando eu percebia que ele me observava, como se estivesse reorganizando mentalmente tudo que pensava saber sobre mim.
Quando finalmente nos levantamos para ir embora, ele pediu que eu fosse com ele até o estacionamento.
— A gente precisa conversar.
— Podemos conversar amanhã.
— Não. Eu quero entender isso agora.
Parei perto do carro.
— Entender o quê?
— Como você conseguiu esconder uma coisa desse tamanho de mim durante dois anos?
A palavra me incomodou.
— Eu não escondi.
— Mariana, você tem dois prédios.
— E você tem uma empresa, uma casa, aplicações e quase R$ 12 milhões. Eu também não sabia os valores até você colocar aquele acordo na minha frente.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Mas eu te contei.
— Quando quis garantir que eu não teria direito a nada.
Eduardo ficou em silêncio.
— Se eu tivesse contado antes, o que teria mudado? — perguntei.
Ele demorou para responder.
— Talvez eu tivesse conduzido essa conversa de outra forma.
Aquilo foi muito mais revelador do que ele imaginava.
— Então a forma como eu merecia ser tratada dependia do tamanho do meu patrimônio?
— Não foi isso que eu disse.
— Foi exatamente o que você disse.
Eduardo tentou segurar minha mão, mas eu a afastei.
— Mariana, não transforma isso numa briga.
— Eu não estou transformando. Estou tentando entender.
Respirei fundo.
— Ontem você achava natural que tudo que viesse da sua empresa continuasse exclusivamente seu. Também achava razoável me oferecer R$ 4 mil por mês como se eu fosse depender de você.
Ele ficou vermelho.
— Eu estava tentando assumir responsabilidade pela casa.
— E hoje?
— Hoje eu sei que a situação é diferente.
— Minha situação sempre foi a mesma, Eduardo. A única coisa diferente é que agora você sabe.
Ele não respondeu.
Entrei no meu carro e fui embora.
Na manhã seguinte, Eduardo me ligou cedo.
Sua voz estava mais cuidadosa.
— Pensei muito no que aconteceu.
Eu esperei.
— Acho que a gente devia rever nosso acordo.
Fechei os olhos por um instante.
Menos de quarenta e oito horas depois de insistir que a separação completa era essencial para um casamento saudável, ele agora queria discutir novamente as regras.
E, dessa vez, eu sabia exatamente o que havia mudado.
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