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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

Dois dias depois, pedi que Marcelo viesse conversar.

Ele chegou às oito da noite, depois que nosso filho já estava dormindo.

Não trouxe flores.

Não trouxe presentes.

Talvez finalmente tivesse entendido que nenhuma dessas coisas serviria.

Sentamos na sala.

Durante alguns segundos, ninguém falou.

Eu havia ensaiado muitas frases na cabeça.

Quando chegou a hora, escolhi a mais simples.

— Eu quero o divórcio.

Marcelo abaixou os olhos.

Não pareceu surpreso.

Mesmo assim, sua mandíbula se contraiu.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Não quer tentar terapia primeiro?

— Terapia poderia ter sido uma tentativa quando existia um problema entre nós e nenhum de nós sabia como resolver. Agora existe também uma decisão que você tomou durante muito tempo sem mim.

— Eu consigo mudar.

— Talvez consiga.

Ele ergueu o rosto.

— Então por que não me deixa provar?

— Porque a sua mudança não precisa ter como prêmio continuar casado comigo.

A frase ficou entre nós.

Marcelo respirou fundo.

— Você ainda me ama?

Eu demorei.

— Uma parte de mim ama a pessoa com quem vivi oito anos. Isso não significa que eu consiga continuar sendo sua esposa.

Ele apertou as mãos.

— E nosso filho?

— Continuará tendo pai e mãe.

— Não é a mesma coisa.

— Não. Não é. Mas viver numa casa onde eu não confio em você também não seria a mesma coisa.

Marcelo levantou-se e caminhou até a janela.

— Eu estraguei tudo.

Não respondi.

Não precisava.

Depois de alguns minutos, ele voltou a se sentar.

— O que você quer fazer agora?

Foi a primeira pergunta prática.

Expliquei que minha advogada prepararia a documentação necessária.

Como tínhamos um filho menor, algumas questões precisariam ser formalizadas adequadamente: rotina de convivência, despesas, responsabilidades e patrimônio.

— Eu não quero tirar ele de você — falei. — Quero que vocês continuem próximos.

Marcelo assentiu.

— Eu também.

— Mas não vou aceitar que o dinheiro do imóvel seja tratado como se nunca tivesse existido.

— Eu sei.

— E não vou assumir sozinha o custo da decisão que você tomou.

— Eu sei.

Houve uma mudança naquela conversa.

Até então, Marcelo sempre parecia procurar uma brecha para preservar o casamento.

Naquela noite, começou a entender que o que ainda podíamos preservar era outra coisa.

Uma relação minimamente digna como pais.

Nos dias seguintes, os advogados começaram a trocar propostas.

Não houve solução imediata.

O apartamento era o ponto mais complicado.

Como estava vinculado à outra mulher, Marcelo precisaria decidir se tentaria recuperar parte do valor por uma negociação ou por uma disputa própria.

Minha posição era mais simples.

Na divisão entre nós, aquela saída de recursos não podia ser ignorada.

O problema criado por Marcelo não seria convertido numa perda exclusivamente minha.

Ele resistiu inicialmente ao valor considerado.

Disse que parte do dinheiro vinha de rendimentos que julgava pessoais.

Minha advogada pediu comprovação.

Quando os documentos foram organizados, ficou claro que grande parte havia passado pela estrutura financeira usada pelo casal ao longo do casamento.

A discussão deixou de ser emocional e virou matemática.

Foi melhor assim.

Ao mesmo tempo, meu trabalho cresceu.

Um dos clientes me indicou para uma pequena empresa que precisava renovar toda a identidade visual.

Pela primeira vez, aceitei um projeto grande o suficiente para exigir semanas de trabalho.

Quando assinei a proposta, senti medo.

Sete anos afastada não desapareciam porque alguém me contratara.

Passei a estudar à noite.

Revisei ferramentas.

Aprendi recursos que nem existiam quando parei de trabalhar.

Errei.

Refiz.

Entreguei.

O cliente aprovou.

Naquela tarde, fui buscar meu filho na escola com vontade de contar para alguém.

Ele entrou no carro e perguntou:

— Mãe, por que você está sorrindo?

— Porque terminei um trabalho importante.

— Você ganhou?

Ri.

— Não era competição.

— Mas ficou bom?

— Ficou.

Ele levantou a mão para um toque.

— Então ganhou.

Bati minha palma na dele.

Talvez tivesse mesmo.

Não contra Marcelo.

Contra a versão de mim que acreditava não conseguir mais viver de outro jeito.

Alguns dias depois, Marcelo veio deixar nosso filho.

Ficou na porta e entregou a mochila.

— Ele fez a tarefa, mas não quis comer legumes.

— Normal.

Nosso filho correu para dentro.

Marcelo permaneceu ali.

— Falei com ela sobre o apartamento.

Meu corpo ficou tenso, mas minha voz não.

— E?

— Ela não quer abrir mão. Disse que eu prometi.

— Você prometeu.

— Eu sei.

— Então essa parte você resolve com ela.

— É isso que estou fazendo.

Ele hesitou.

— O marido dela entrou com pedido de separação.

— Não é problema meu.

Marcelo pareceu perceber que eu dizia a verdade.

Meses antes, aquela informação teria provocado em mim uma mistura de satisfação e curiosidade.

Agora era apenas mais uma consequência fora do centro da minha vida.

— Eu queria pedir desculpa por uma coisa específica — Marcelo disse.

Esperei.

— Por ter feito você acreditar que dependia de mim porque eu estava cuidando da família. Na minha cabeça, eu achava que estava sustentando todo mundo. Só agora percebo o quanto isso me fez achar que eu podia decidir sozinho sobre dinheiro.

A frase me surpreendeu.

Não porque apagasse nada.

Mas porque era a primeira vez que ele nomeava o mecanismo que tinha tornado a traição financeira possível.

— Eu também permiti que você decidisse muita coisa — respondi. — Porque confiava em você.

— Eu usei essa confiança mal.

— Usou.

Ele assentiu.

Depois foi embora.

Na semana seguinte, minha advogada me enviou uma nova proposta de acordo.

Marcelo aceitava que o valor transferido para o imóvel fosse considerado na composição patrimonial entre nós.

Ainda faltavam ajustes.

Ainda faltava definir detalhes do nosso filho.

Mas pela primeira vez havia um caminho concreto para encerrar o casamento sem fingir que o dinheiro desaparecera.

Li o documento inteiro.

No final, havia uma linha reservada para minha assinatura quando todos os termos fossem definidos.

Fiquei olhando para aquele espaço vazio.

Durante oito anos, minha vida tinha sido construída em torno de um “nós”.

Em breve, eu precisaria assinar oficialmente a volta para o “eu”.

E, para minha surpresa, a ideia já não me assustava como antes.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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