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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

Parte 5

Minha advogada me ligou no início da tarde.

— O documento ajuda a entender o destino do dinheiro, mas não significa que tudo esteja automaticamente resolvido a seu favor — explicou. — O importante agora é registrar a origem dos recursos e não transformar isso numa guerra improvisada.

— Eu não quero guerra.

— Ótimo. Então vamos trabalhar com fatos.

Foi exatamente o que comecei a fazer.

Organizei os extratos, o contrato, os comprovantes e as capturas de tela que a própria mulher havia enviado. Nada de acessar contas de Marcelo sem autorização. Nada de procurar senha escondida.

O que eu já tinha era suficiente para exigir respostas.

Naquela mesma semana, recebi pelo pequeno projeto de design.

O valor caiu na conta nova que eu havia aberto.

Não era nem de longe o bastante para sustentar sozinha todas as despesas da casa, mas ver um pagamento com meu nome depois de tantos anos despertou algo que eu quase tinha esquecido.

Capacidade.

Passei a reservar duas horas por dia para atualizar meu portfólio.

Marcelo percebeu.

Nos primeiros dias, evitávamos discussões longas.

Ele dormia no quarto de hóspedes, levava nosso filho à escola em algumas manhãs e ia trabalhar.

À noite, tentava conversar.

Eu aceitava falar quando o assunto era objetivo.

— Eu falei com a imobiliária — disse ele numa quinta-feira. — Quero desfazer a negociação.

— Você consegue?

— Não sei ainda. Tem contrato, multa, essas coisas.

— Então descubra.

Ele apertou os lábios.

— Você acha que estou fazendo isso só porque você descobriu?

— Sim.

A resposta direta pareceu atingi-lo.

— Eu já estava confuso.

— Confuso é esquecer onde colocou a chave do carro, Marcelo. Transferir R$ 680 mil exige vários passos.

Ele baixou o olhar.

— Eu fiz uma coisa absurda.

— Fez.

— Você não vai me dar nenhuma chance de explicar por quê?

— Explicar não muda o que aconteceu. Mas, se quiser falar, eu escuto.

Marcelo contou que havia começado a se sentir distante de mim.

Disse que nossa conversa girava em torno de filho, casa, escola e contas.

Disse que, com a outra mulher, sentia-se admirado.

Ouvido.

Desejado.

Eu ouvi tudo.

Quando terminou, perguntei:

— Em algum momento você me disse que estava infeliz?

Ele hesitou.

— Não.

— Em algum momento me convidou para reconstruir nossa relação?

— Não desse jeito.

— Então o problema do nosso casamento pode até ter sido dos dois. A escolha de trair foi sua.

Ele não contestou.

Na sexta-feira, a mulher tentou falar comigo de outro número.

【Precisamos resolver o que você fez.】

Eu bloqueei.

Pouco depois, chegou outra mensagem.

【Meu marido saiu de casa. Ele está falando em separação. Você está satisfeita?】

Dessa vez, respondi antes de bloquear:

【Seu casamento é responsabilidade de vocês. O meu também.】

Não senti triunfo.

Aquela era uma diferença importante.

No café, eu havia desejado que ela provasse um pouco da insegurança que tentou provocar em mim.

Agora que isso estava acontecendo, percebi que não precisava acompanhar cada consequência.

Eu precisava cuidar das minhas.

No fim de semana, conversei com Marcelo sobre nosso filho.

— Ele já percebeu que você está dormindo no outro quarto.

Marcelo esfregou as mãos.

— O que vamos dizer?

— A verdade que uma criança de sete anos consegue carregar. Que estamos com problemas e precisamos de um pouco de espaço. Só isso.

— Você quer que eu saia de casa?

Demorei antes de responder.

— Acho melhor.

Ele fechou os olhos.

— Por quanto tempo?

— Eu não sei.

— Você está falando em separação?

— Estou falando que não consigo continuar convivendo como se fôssemos um casal enquanto descubro o tamanho do que aconteceu.

Naquela noite, nós dois sentamos com nosso filho.

Ele ficou no meio do sofá, olhando de um para o outro.

Fui eu quem começou.

— O papai e a mamãe estão com alguns problemas de adultos.

Ele imediatamente perguntou:

— Vocês vão se separar?

Crianças percebem muito mais do que imaginamos.

Marcelo respondeu:

— Ainda estamos resolvendo.

Segurei a mão do meu filho.

— O que não vai mudar é que nós dois amamos você. Nada disso aconteceu por sua causa.

Ele ficou triste.

Fez perguntas.

Quis saber onde o pai dormiria.

Dissemos apenas que Marcelo ficaria por algum tempo em um apartamento alugado perto dali e que continuaria levando-o à escola, vendo-o e participando da rotina.

Na manhã seguinte, Marcelo arrumou duas malas.

Eu o ajudei a separar algumas coisas do nosso filho para quando passasse o fim de semana com ele.

A cena foi dolorosa justamente porque não houve gritos.

Oito anos de casamento não desaparecem só porque alguém comete algo grave.

Existem hábitos.

Fotografias.

Objetos comprados juntos.

Piadas internas.

Memórias boas misturadas às ruins.

Quando Marcelo fechou a mala, ficou parado no corredor.

— Se eu conseguir recuperar o dinheiro, isso muda alguma coisa?

— Sobre o dinheiro, muda.

— E sobre nós?

Olhei para ele.

— Eu ainda não sei.

Ele assentiu, como se aquela resposta fosse menos cruel do que esperava.

Depois foi embora.

A casa ficou silenciosa.

Meu filho passou a tarde comigo, desenhando ao lado do meu notebook enquanto eu trabalhava.

No fim do dia, recebi uma mensagem da advogada.

Marcelo havia autorizado que os representantes trocassem informações sobre a negociação do imóvel.

Havia uma possibilidade de rescindir a compra, mas não seria simples.

Parte do dinheiro podia ficar retida por causa do contrato, e havia uma questão ainda maior: a compradora formal era a outra mulher.

Marcelo não podia simplesmente decidir sozinho desfazer tudo.

Era exatamente o tipo de consequência que ele havia ignorado quando fez a transferência.

Na segunda-feira, ele me ligou.

— Ela não quer cancelar.

— Eu imaginava.

— Disse que o apartamento foi um presente.

— E o que você respondeu?

Houve uma pausa.

— Que o dinheiro não era só meu para presentear.

Fiquei em silêncio.

Marcelo continuou:

— Ela disse que eu prometi uma vida para ela.

— Prometeu?

— Sim.

A palavra veio baixa.

Não senti surpresa.

Mas senti alguma coisa se encaixar definitivamente dentro de mim.

A relação deles não tinha sido uma sequência de encontros sem futuro.

Marcelo havia construído expectativas, feito promessas e colocado dinheiro da nossa família nelas.

Naquela noite, abri meu portfólio e enviei propostas para mais três trabalhos.

Eu ainda não sabia se meu casamento terminaria.

Mas já sabia que minha dependência precisava terminar primeiro.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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