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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

A impressora começou a trabalhar atrás do balcão, soltando folha após folha. Quando o atendente colocou o maço diante de mim, parecia apenas papel, mas eu sabia que ali estavam dois anos da nossa vida financeira. Pedi também os comprovantes disponíveis das transferências feitas diretamente pela conta conjunta e saí do banco com uma pasta debaixo do braço.
Dentro do carro, comecei pelos meses mais recentes. A transferência de R$ 680 mil aparecia ali, feita poucas semanas antes para uma imobiliária, com referência a uma unidade residencial. O dinheiro não tinha saído da empresa de Marcelo nem de alguma aplicação que eu desconhecia: tinha saído da reserva que nós construímos durante anos.
Continuei voltando no tempo. Havia pagamentos frequentes para o mesmo hotel, quase sempre em dias em que Marcelo dizia ter jantar com cliente, reunião até tarde ou viagem de uma noite. Alguns valores eram pequenos perto dos R$ 680 mil, mas a repetição deles dizia muito mais do que um pagamento isolado.
Fotografei cada lançamento relevante e guardei os arquivos numa pasta protegida. Não telefonei para Marcelo. Também não escrevi para a mulher. Àquela altura, discutir sem saber a extensão do problema seria apenas entregar a eles a vantagem de saber o que eu conhecia.
No dia seguinte, cheguei ao café dez minutos antes das duas. Escolhi uma mesa de onde eu podia ver a entrada e pedi apenas água. Às duas em ponto, uma mulher entrou usando óculos escuros, bolsa cara e o mesmo Cartier que aparecia na fotografia do perfil.
Ela me reconheceu antes mesmo de eu me levantar. Aproximou-se sorrindo e tirou os óculos com uma calma estudada. — Então você é a esposa do Marcelo.
— Sou. Sente-se.
Ela pareceu ligeiramente incomodada por eu não reagir como esperava. Sentou-se, cruzou as pernas e colocou o celular sobre a mesa. — Achei que você fosse querer me perguntar desde quando estamos juntos.
— Se você quiser contar, pode contar.
O sorriso dela diminuiu. — Marcelo disse que o casamento de vocês já acabou faz tempo. Vocês só continuam na mesma casa por causa do menino.
Aquilo doeu, mas não porque eu acreditasse nela. Doeu porque reconheci na frase uma mentira que Marcelo podia perfeitamente ter contado para tornar sua própria traição mais confortável. — Ele também disse que estava sem dinheiro para as despesas de casa — respondi. — Mesmo assim, conseguiu separar R$ 680 mil para um imóvel.
Ela tocou o anel com o polegar. — Esse dinheiro é dele. E o apartamento também vai ser meu.
— Se fosse tão simples, você não teria precisado me mandar as fotos.
A expressão dela endureceu. — Eu mandei porque cansei de esperar. Ele sempre diz que vai resolver tudo no momento certo.
— Inclusive o seu casamento?
Dessa vez, ela não respondeu imediatamente. Seus dedos pararam sobre o anel, e eu percebi que a aliança que ela usava na foto antiga do aplicativo tinha desaparecido daquela mão. — Meu casamento não tem nada a ver com você.
— Então ainda existe.
Ela se inclinou para a frente. — Não tente mudar de assunto. O seu marido está comigo porque quer estar comigo.
Abri a pasta no celular e mostrei uma sequência dos pagamentos de hotel. Não precisei empurrar a tela para perto dela; bastou que reconhecesse as datas. — Eu não estou mudando de assunto. Só estou organizando os fatos.
O rosto dela perdeu parte da segurança. Antes que pudesse responder, acrescentei: — Você entrou em contato comigo e me enviou as conversas. Portanto, não vou fingir que não vi nada. E também não vou proteger você das consequências das suas próprias escolhas.
Ela pegou a bolsa. — Está me ameaçando?
— Não. Ameaça é prometer fazer alguma coisa. Eu prefiro simplesmente fazer o que considero necessário.
Saí do café sem levantar a voz. No carro, procurei o perfil público do marido dela, que eu já tinha localizado a partir das próprias informações que ela deixara visíveis. Enviei apenas o que podia provar: as capturas que ela mesma havia mandado e as datas dos pagamentos de hotel que saíram da minha conta conjunta.
Não escrevi insultos nem pedi que ele acreditasse em mim. Digitei apenas: 【Acredito que você tenha o direito de saber. Se quiser conferir, estas são as datas e os registros.】
Quase meia hora depois, enquanto eu esperava na fila para buscar meu filho, vi a resposta. 【Eu reconheço algumas dessas datas. Ela dizia que estava viajando a trabalho. Obrigado por me avisar.】
Guardei o celular antes que meu filho saísse pelo portão. Quando ele correu até mim, abracei-o como sempre fazia. Mas naquele momento eu já tinha certeza de uma coisa: não passaria mais os próximos anos aceitando uma vida construída sobre informações que todos conheciam, menos eu.

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