
Parte 6
Nas semanas seguintes, minha vida ganhou uma rotina que eu jamais teria imaginado antes daquela mensagem das três da tarde.
Acordava cedo, preparava meu filho para a escola e trabalhava durante a manhã.
À tarde, dividia o tempo entre projetos, tarefas da casa e reuniões com minha advogada quando necessário.
Marcelo buscava o menino duas vezes por semana e passava parte dos fins de semana com ele.
No começo, meu filho sempre voltava fazendo perguntas.
— O papai vai voltar para casa?
Eu nunca respondia com promessas.
— Eu e ele ainda estamos resolvendo nossas coisas.
— Vocês estão bravos?
— Estamos magoados. É diferente.
Ele aceitava a resposta por alguns minutos e mudava de assunto.
Eu desejava ter respostas mais fáceis.
Mas preferia uma verdade simples a uma mentira confortável.
Enquanto isso, a questão do imóvel avançava devagar.
A imobiliária não podia simplesmente apagar o contrato porque Marcelo se arrependia.
A mulher constava como compradora.
O valor havia sido pago.
Existiam cláusulas, prazos, possíveis penalidades e a necessidade de negociação entre as partes envolvidas.
Minha advogada me explicou tudo sem prometer resultados mágicos.
— O mais importante para você é que a origem do valor está documentada — disse ela. — O restante pode ser discutido na divisão do patrimônio, caso vocês se divorciem.
— “Caso”?
Ela levantou os olhos.
— Essa parte só você decide.
Saí da reunião pensando naquela frase.
Durante semanas, eu havia colocado toda a minha energia em fatos.
Dinheiro.
Datas.
Extratos.
Contrato.
Mas havia uma pergunta que nenhum documento responderia.
Eu ainda queria ser esposa de Marcelo?
Naquela noite, ele veio buscar nosso filho.
O menino correu para pegar a mochila.
Marcelo ficou perto da porta.
— Podemos conversar cinco minutos?
— Pode.
Fomos até a cozinha.
Ele parecia mais magro.
— Eu encerrei a relação com ela.
Não respondi.
— Achei que você devia saber.
— Certo.
— Só isso?
— O que você esperava?
— Não sei. Alguma coisa.
Encostei as mãos na bancada.
— Marcelo, terminar com ela é o mínimo. Não é uma reparação comigo.
Ele assentiu devagar.
— Eu sei.
— Então por que está me contando?
— Porque eu estou tentando fazer as coisas certas agora.
— Você quer fazer a coisa certa ou quer que eu veja você fazendo?
Ele não respondeu imediatamente.
— Talvez os dois.
Foi uma das primeiras respostas verdadeiras que ouvi dele desde que tudo começara.
Sentei-me.
— Por que você deu tanto dinheiro para ela?
Marcelo puxou uma cadeira.
— Eu queria provar que era sério.
— Para ela?
— Para mim também.
A frase me atingiu.
— Você precisava gastar dinheiro da nossa família para provar que amava outra pessoa?
Ele fechou os olhos por um instante.
— Quando você fala desse jeito, parece ainda pior.
— Porque é pior.
Marcelo não tentou se defender.
Contou que a mulher dizia não confiar em promessas.
Que queria uma demonstração concreta de que ele realmente deixaria o casamento.
O imóvel passou a representar essa promessa.
— E você aceitou.
— Aceitei.
— Então não foi um acidente.
— Não.
Ali, pela primeira vez, a última parte de mim que procurava uma explicação capaz de tornar tudo menos consciente perdeu força.
Marcelo não tinha sido enganado até transferir dinheiro sem perceber.
Ele havia escolhido.
Podia ter sido impulsivo.
Covarde.
Carente.
Egoísta.
Mas ainda assim tinha escolhido.
— Ela disse que era praticamente separada — ele acrescentou. — Depois descobri que o marido dela não sabia de nada.
— Isso faz diferença para você?
— Faz porque ela mentiu.
Eu quase sorri de incredulidade.
— E você mentiu para mim.
Marcelo abaixou a cabeça.
— Eu sei.
— Talvez agora você entenda como é construir uma decisão importante em cima da versão conveniente de outra pessoa.
A conversa terminou sem gritos.
Mas alguma coisa havia mudado.
Eu já não tentava descobrir se Marcelo era capaz de explicar o inexplicável.
Eu começava a decidir o que faria com a verdade que já possuía.
No trabalho, as coisas também avançavam.
O pequeno projeto que eu fizera gerou uma indicação.
Depois veio outro.
Em poucas semanas, eu tinha três clientes recorrentes.
Ainda trabalhava da mesa da sala, mas comprei um monitor usado e organizei um canto perto da janela.
Meu filho decidiu que aquele era “o escritório da mamãe”.
Colou um desenho na parede acima da mesa.
No papel, havia três bonecos de mãos dadas.
Eu, ele e Marcelo.
Fiquei olhando por muito tempo.
Não rasguei.
Não escondi.
Também não transformei aquilo numa razão para permanecer em um casamento que talvez tivesse terminado.
Uma família podia mudar de forma sem deixar de existir para uma criança.
Essa ideia começou a me dar coragem.
Na semana seguinte, Marcelo e eu tivemos outra reunião com os advogados.
A negociação sobre o dinheiro do imóvel estava emperrada.
A compradora não aceitava abrir mão da unidade sem receber compensação.
Marcelo queria processar a situação separadamente.
Minha advogada explicou que, para mim, o foco deveria continuar sendo proteger minha parte patrimonial e tratar qualquer valor desviado dentro da eventual divisão do casamento.
Saímos do escritório juntos.
No estacionamento, Marcelo parou.
— Você já decidiu?
Eu sabia o que ele perguntava.
— Ainda estou pensando.
— Eu faria qualquer coisa para voltar.
Olhei para ele.
— Você não pode voltar para o ponto anterior ao que fez.
— Então o que eu faço?
— Aceita que talvez não exista um caminho de volta.
Ele ficou parado enquanto eu entrava no carro.
Naquela noite, depois que meu filho dormiu, abri uma pasta no computador.
Dentro dela estavam meus novos projetos.
Pela primeira vez em anos, meu futuro tinha arquivos que não dependiam de Marcelo.
Foi então que percebi que eu já sabia a resposta para a pergunta que vinha adiando.
Ainda não tinha dito em voz alta.
Mas sabia.
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