
Parte 3
Naquela noite, depois que meu filho dormiu, espalhei os extratos sobre a mesa da cozinha. Não queria olhar para eles como uma esposa traída. Queria olhar como alguém que precisava entender a própria vida.
Separei os lançamentos por data. De um lado, deixei as despesas normais: escola, supermercado, condomínio, plano de saúde, contas da casa. Do outro, coloquei transferências e pagamentos que eu não reconhecia.
Os hotéis se repetiam.
Às vezes duas vezes no mesmo mês.
Em outras, passavam algumas semanas sem aparecer.
Não havia nada cinematográfico naquilo. Nenhuma suíte presidencial, nenhuma assinatura com batom, nenhum nome escandaloso no comprovante. Eram apenas números frios, datas e estabelecimentos.
Justamente por isso me atingiram com tanta força.
Enquanto eu calculava quanto dinheiro havia saído da nossa vida sem que eu soubesse, lembrei de quantas vezes tinha cancelado pequenas compras porque Marcelo dizia que precisávamos economizar.
Uma máquina nova para trabalhar.
Um curso de atualização em design.
Uma viagem curta nas férias do nosso filho.
Eu havia aceitado cada adiamento como parte de um projeto familiar.
Marcelo, aparentemente, vivia outro projeto ao mesmo tempo.
Na manhã seguinte, abri uma conta bancária apenas no meu nome.
Não transferi dinheiro que não fosse claramente meu nem tentei esvaziar a conta conjunta. Apenas passei a ter um lugar separado para qualquer renda que eu voltasse a receber.
Depois, procurei uma advogada de família.
Não contei uma história dramática. Levei documentos.
Ela passou quase uma hora examinando o que eu tinha e fazendo perguntas sobre o casamento, o patrimônio, a rotina do nosso filho e a forma como as despesas eram pagas.
— A primeira coisa — disse ela — é não tomar nenhuma atitude financeira por impulso. Guarde cópias de tudo a que você já tem acesso legítimo. A segunda é entender exatamente o que aconteceu com esse valor do imóvel.
— Posso simplesmente mandar bloquear?
— Não funciona assim. Se houver disputa, existem procedimentos. Primeiro precisamos saber para onde o dinheiro foi, qual foi a natureza da operação e como isso se encaixa na divisão patrimonial de vocês.
Aquilo me acalmou de uma forma estranha.
Eu não precisava explodir a vida de Marcelo em vinte e quatro horas.
Precisava parar de viver às cegas.
Quando voltei para casa, tirei do armário uma caixa que não abria havia anos.
Dentro estavam trabalhos antigos.
Logotipos.
Layouts.
Campanhas.
Algumas peças me pareceram datadas. Outras ainda tinham algo de bom.
Passei a tarde atualizando arquivos e procurando referências.
Eu não sabia se voltaria a trabalhar imediatamente, mas uma coisa ficou evidente: durante sete anos eu tinha tratado minha capacidade profissional como se tivesse deixado de existir.
Não tinha deixado.
Só estava parada.
Pouco depois das cinco, recebi uma ligação da mulher.
Não atendi.
Ela ligou novamente.
Na terceira tentativa, mandei uma mensagem.
【Se tiver algo objetivo para dizer, escreva.】
A resposta veio rápido.
【Você não tinha o direito de falar com meu marido.】
Fiquei alguns segundos olhando para a frase.
Depois respondi:
【Você entrou em contato comigo para falar do meu.】
Ela digitou durante algum tempo.
【Você destruiu minha família.】
Foi a primeira vez desde o início que senti raiva de verdade.
Não a raiva confusa de quem acaba de descobrir uma traição.
Era uma raiva limpa.
Porque aquela mulher havia procurado deliberadamente a esposa de outro homem, exibido dinheiro, joia e conversas, e agora queria que eu carregasse a responsabilidade pelas consequências do que ela mesma fazia.
Escrevi:
【Eu não criei nenhuma das datas que enviei. Também não escrevi as conversas que você me mostrou. Não vou discutir isso com você.】
Bloqueei o número.
À noite, meu filho perguntou quando o pai voltaria.
— Talvez amanhã ou depois.
— Ele disse que ia me trazer uma coisa de Curitiba.
— Então cobra dele quando chegar.
Meu filho riu.
Eu também.
Foi um momento pequeno, mas importante.
Pela primeira vez desde a mensagem da rosa, consegui estar com ele sem sentir que metade da minha cabeça estava ocupada pela traição.
No dia seguinte, atualizei meu antigo portfólio.
Enviei mensagem para duas pessoas com quem tinha trabalhado anos antes.
Não pedi emprego.
Apenas disse que estava voltando a aceitar projetos.
Uma delas respondeu quase imediatamente.
【Quanto tempo! Estou com uma apresentação comercial que precisa de redesign. É pequeno, mas se você quiser, mando o material.】
Aceitei.
O valor era modesto.
Ainda assim, fiquei vários minutos olhando para a tela depois de fechar o acordo.
Não pelo dinheiro.
Pelo que ele significava.
Quando meu filho voltou da escola, encontrou-me trabalhando na mesa da sala.
— Você está desenhando?
— Estou trabalhando.
Ele abriu um sorriso.
— Você trabalha?
A pergunta foi inocente.
Mesmo assim, alguma coisa apertou dentro de mim.
— Trabalho, sim. Só fazia tempo que eu não fazia isso.
Naquela noite terminei a primeira versão do projeto.
Eram quase onze horas quando ouvi uma chave girar na porta.
Congelei por um segundo.
Marcelo deveria voltar apenas no dia seguinte.
Ele entrou carregando a mala e fechou a porta com força demais.
Seu rosto estava tenso.
Não perguntou pelo nosso filho.
Não perguntou como estávamos.
Olhou diretamente para mim.
— O que você fez?
Fechei o notebook.
— Com o quê?
— Você sabe muito bem.
Ele largou a mala perto da porta.
— O marido dela me ligou.
Minha voz saiu calma.
— Então agora vocês dois têm um problema em comum.
Marcelo passou a mão pelo rosto.
— Por que você envolveu outra pessoa nisso?
Levantei-me.
— Porque essa “outra pessoa” é o marido da mulher que decidiu me procurar para dizer que você a ama.
— Você não entende a situação.
— Ótimo. Então explica.
Ele abriu a boca.
Mas, pela primeira vez em oito anos, eu não estava esperando uma explicação para saber o que pensar.
Eu estava esperando para descobrir até onde ele ainda pretendia mentir.
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