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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Marcelo permaneceu perto da porta, ainda com a mala ao lado dos pés.

— Não quero conversar com você desse jeito.

— Que jeito?

— Como se você já tivesse decidido tudo.

— Algumas coisas já foram decididas por você antes de eu saber.

Ele soltou o ar com força e caminhou até a sala.

— Eu errei. Tá bom? Eu errei.

— Isso é tudo?

— O que você quer que eu diga?

— A verdade seria um começo.

Ele se sentou no sofá e passou as mãos pelo cabelo. Durante alguns segundos, pareceu mais cansado do que irritado.

— Eu conheci essa mulher há mais ou menos um ano.

A frase confirmou aquilo que os pagamentos de hotel já sugeriam.

Não fiz nenhuma cena.

— E os R$ 680 mil?

Ele levantou os olhos.

— Eu ia te explicar.

— Quando?

— Quando resolvesse a situação.

— Qual situação? Nosso casamento ou o apartamento dela?

Marcelo se levantou novamente.

— Não é um apartamento “dela” desse jeito.

— O comprovante que ela me enviou dizia outra coisa.

— Foi uma entrada. Eu estava negociando um imóvel. As coisas se misturaram.

— Dinheiro da nossa reserva familiar não “se mistura” sozinho.

Ele ficou vermelho.

— Eu ganhei a maior parte desse dinheiro.

— E durante sete anos eu cuidei da casa e do nosso filho porque você me pediu para fazer exatamente isso.

— Eu não estou dizendo que você não fez nada.

— Você disse ontem que estava sem dinheiro para as despesas do mês seguinte enquanto centenas de milhares de reais saíam da nossa conta.

Marcelo desviou os olhos.

Aquela reação respondeu mais do que qualquer argumento.

— Você sabia que ela ainda era casada? — perguntei.

Ele demorou.

— Ela disse que estava separada.

— Não estava.

— Agora eu sei.

Quase ri.

— Então vocês dois estavam prometendo um ao outro uma vida nova enquanto continuavam vivendo com outras pessoas.

— Não simplifica desse jeito.

— Não estou simplificando. Estou tirando as desculpas da frente.

Marcelo andou até a janela.

— O marido dela me ligou como um louco. Disse que recebeu extratos, datas de hotel, prints…

— Ele recebeu os registros que eu podia provar.

— Você não precisava fazer isso.

— Ela também não precisava me procurar.

Ele virou-se.

— Você fez por vingança.

Pensei antes de responder.

— Talvez uma parte de mim tenha gostado de saber que ela não continuaria me provocando sem consequência. Mas não inventei nada. Não alterei nada. Apenas mostrei ao marido dela o que estava acontecendo.

Marcelo ficou quieto.

Meu celular estava sobre a mesa, ao lado do notebook aberto com o projeto de design.

Ele apontou para a tela.

— O que é isso?

— Trabalho.

— Trabalho?

— Voltei a aceitar projetos.

A surpresa em seu rosto me incomodou mais do que deveria.

Como se a possibilidade de eu voltar a ter renda precisasse da autorização dele.

— Por quê?

— Porque eu quero.

— Nunca disse que você não podia trabalhar.

— Você não precisava dizer.

Ele entendeu.

Eu também.

Durante anos, nossa organização tinha funcionado porque eu confiava que o dinheiro ganho por ele era dinheiro da família.

A partir do momento em que essa confiança desapareceu, depender totalmente daquela estrutura deixou de ser confortável.

Tornou-se perigoso.

— Eu quero ver os documentos do imóvel — falei. — Contrato, proposta, comprovantes, tudo o que existir.

— Pra quê?

— Para saber o que aconteceu com o nosso dinheiro.

— Eu resolvo.

— Não. Você já resolveu sozinho demais.

Marcelo bateu a mão na lateral do sofá.

Não forte o bastante para assustar, mas forte o bastante para mostrar que estava perdendo a paciência.

— Você acha que pode simplesmente me tratar como criminoso?

— Eu não usei essa palavra.

— Mas é isso que está fazendo.

— Estou tratando você como um homem que mentiu para a própria esposa, manteve uma relação com outra mulher e usou uma quantia enorme de dinheiro sem conversar comigo.

Ele não respondeu.

Do corredor, ouvimos um barulho.

Meu filho apareceu segurando seu cobertor.

— Pai?

A expressão de Marcelo mudou no mesmo instante.

— Ei, campeão.

O menino correu até ele.

Marcelo se abaixou e o abraçou.

— Você voltou cedo.

— Voltei.

— Cadê minha surpresa?

Mesmo naquele momento, Marcelo riu.

— Na mala.

Olhei para os dois.

A traição era entre nós.

Nosso filho não precisava carregar aquilo.

— Já está tarde — falei. — Amanhã você vê.

Ele fez uma careta, mas voltou para o quarto.

Esperei a porta fechar.

Depois falei baixo:

— Não vamos discutir na frente dele.

Marcelo assentiu.

— Concordo.

— E, por enquanto, acho melhor você dormir no quarto de hóspedes.

Ele me encarou.

— Você está me expulsando do nosso quarto?

— Estou dizendo que não consigo dormir ao lado de você como se nada tivesse acontecido.

— A gente precisa conversar.

— Estamos conversando.

— Não desse jeito.

— Esse é o único jeito que consigo agora.

Marcelo pegou a mala.

Antes de entrar no quarto de hóspedes, parou.

— Eu não quero perder minha família.

Pela primeira vez, sua voz não tinha raiva.

Tinha medo.

Eu senti a dor daquela frase, mas não a confundi com reparação.

— Então você devia ter pensado nisso antes de construir outra vida escondida da sua família.

Ele entrou no quarto sem responder.

Na manhã seguinte, Marcelo levou nosso filho à escola.

Eu permaneci em casa trabalhando.

Pouco depois das dez, chegou uma mensagem dele.

【Mandei por e-mail o contrato do imóvel.】

Abri imediatamente.

Não era uma escritura definitiva.

Era um instrumento de compra de uma unidade ainda em processo de aquisição.

E o nome que aparecia como compradora não era o de Marcelo.

Era o dela.

Continuei lendo.

O pagamento de R$ 680 mil constava como parte substancial da entrada.

Fechei os olhos por um instante.

Até aquele momento, ainda existia uma pequena possibilidade de Marcelo tentar convencer a si mesmo de que tinha feito apenas um “investimento”.

O documento eliminava essa desculpa.

Salvei uma cópia.

Depois encaminhei para minha advogada.

Minutos mais tarde, mandei uma única mensagem para Marcelo:

【Agora eu entendi por que você não queria que eu visse.】

A resposta demorou.

Quando veio, continha apenas:

【A gente precisa consertar isso.】

Olhei para a frase durante alguns segundos.

Depois voltei ao meu trabalho.

A diferença era que, daquela vez, eu já sabia que “consertar” não significava necessariamente salvar o casamento.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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