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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

O divórcio foi concluído pouco antes de completar um ano desde a cirurgia de Henrique. Quando recebi a confirmação, fiquei olhando para a mensagem de Patrícia por alguns minutos. Não houve música, sensação de liberdade instantânea ou vontade de comemorar. Houve apenas a consciência de que um ciclo tinha terminado oficialmente.

Henrique me ligou naquele mesmo dia. Conversamos durante poucos minutos. Ele perguntou se eu estava bem e eu disse que sim. Depois agradeceu por termos conseguido terminar tudo sem transformar o processo numa batalha interminável.

Eu também agradeci.

Talvez nossa maior conquista no fim tenha sido parar de exigir um do outro aquilo que já não podíamos oferecer. Eu não podia devolver a confiança perdida. Henrique não podia apagar a decisão que havia tomado. Mas ambos podíamos escolher não prolongar a destruição.

O acordo com Camila continuava em andamento. Uma parte significativa dos R$ 900 mil já havia retornado, somando as devoluções iniciais, os pagamentos dela e a responsabilidade assumida por Henrique. Ainda existia saldo pendente, mas agora havia prazo, registro e acompanhamento. Eu não precisava acordar todos os dias imaginando se um dia alguém decidiria pagar.

Dona Sônia apareceu inesperadamente na saída do meu trabalho algumas semanas depois. Ela não estava agressiva. Parecia até desconfortável por estar ali.

— Posso falar com você por alguns minutos?

Aceitei.

Sentamos num banco próximo. Ela começou dizendo que não concordava com todas as minhas decisões, mas reconhecia que Henrique tinha errado ao transferir o dinheiro sem me avisar.

Era uma mudança enorme para alguém que, no hospital, acreditava que eu deveria simplesmente pedir dinheiro emprestado.

— Eu pensei que você fosse voltar quando ele melhorasse — confessou. — Achei que casal brigava e depois resolvia.

— Nós resolvemos — respondi. — Só que resolver não significava necessariamente continuar casados.

Ela ficou em silêncio.

Depois disse que também começara a cobrar de Camila responsabilidade pelas parcelas. Não porque tivesse passado a concordar comigo em tudo, mas porque percebeu que proteger os filhos das consequências não os tornava mais unidos. Às vezes apenas transferia o custo para outra pessoa.

Não abracei Dona Sônia nem prometi recomeços. Nos despedimos com respeito. Aquilo bastava.

Minha prioridade agora era o apartamento que havia visitado. Com parte do dinheiro recuperado, minha reserva pessoal e um financiamento que cabia no orçamento, consegui avançar na negociação. Li cada documento com calma. Fiz perguntas. Pedi esclarecimentos.

Talvez outra pessoa considerasse excesso de cautela.

Para mim, era aprendizado.

Quando assinei a proposta, senti as mãos tremerem. Durante anos, eu imaginara esse momento ao lado de Henrique. Depois do desaparecimento dos R$ 900 mil, a compra de um imóvel parecia ter se tornado o símbolo de tudo que eu perdera.

Mas, sentado diante de mim, não havia marido, sogra nem cunhada.

Havia apenas a corretora e os documentos.

E fui eu quem decidiu.

Naquela noite, Henrique me enviou uma mensagem dizendo que soubera da compra. Parabenizou-me e escreveu que esperava que eu fosse feliz na nova casa. Fiquei olhando para aquelas palavras durante algum tempo.

Respondi: “Obrigada. Espero que você também construa uma vida melhor daqui para frente.”

Não havia ironia.

Durante meses, eu imaginara que recuperar o controle significaria ver todos os outros sofrerem exatamente o que eu havia sofrido. Descobri que não. Recuperar o controle significava não precisar mais que a vida deles piorasse para que a minha melhorasse.

Camila ainda tinha pagamentos a fazer. Henrique ainda precisava cumprir a parte dele. E eu continuava acompanhando tudo com atenção.

Mas meu futuro já não estava parado esperando o último centavo retornar.

Na véspera de receber as chaves, arrumei algumas caixas no apartamento onde ainda morava. Entre papéis antigos, encontrei uma anotação feita anos antes, com o valor que Henrique e eu pretendíamos economizar para comprar nossa casa.

Fiquei olhando para aquela folha.

Depois a dobrei e guardei.

Não porque quisesse voltar.

Mas porque aquela mulher que passara tantos anos economizando também fazia parte de mim.

Ela só precisava aprender que construir segurança não era entregar todas as decisões a um projeto chamado “nós”.

No dia seguinte, eu receberia as chaves de algo que começava com uma palavra muito mais simples.

“Eu.”

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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