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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

— Quero — respondi. — Porque foi você quem decidiu transformar nosso dinheiro em dinheiro da sua irmã sem me consultar. Henrique abriu a boca para responder, mas uma pontada o fez se curvar e apoiar a mão na parede. O médico pediu que ele voltasse imediatamente para o quarto.

Foi nesse momento que minha sogra chegou quase correndo pelo corredor. Dona Sônia mal perguntou como o filho estava antes de olhar para mim e dizer: — Lívia, agora não é hora de criar problema por causa de dinheiro. Pague a cirurgia primeiro e depois vocês resolvem isso em casa. Ao ouvir aquilo, alguma coisa dentro de mim simplesmente se apagou.

— A senhora sabia? — perguntei. Ela desviou os olhos por um instante, o suficiente para me dar a resposta. Depois tentou justificar que Camila precisava terminar a reforma antes do casamento e que Henrique só quis ajudar a própria irmã.

— Então ligue para ela — respondi. — Peça R$ 12 mil dos R$ 900 mil que recebeu e pague a cirurgia do irmão. Dona Sônia pareceu ofendida com a sugestão. Disse que o dinheiro já estava comprometido com fornecedores e que eu poderia conseguir um empréstimo com alguém por alguns dias.

Henrique, do quarto, reforçou a mesma ideia. — Lívia, pede para sua amiga. Eu devolvo depois. Olhei para ele e percebi que, mesmo naquela situação, a solução que todos esperavam continuava sendo a mesma: eu assumiria outra dívida para proteger a decisão que eles haviam tomado sem mim.

— Não vou pedir dinheiro emprestado em meu nome — falei. — O dinheiro existe. Está com a Camila. Se vocês consideram a cirurgia urgente, peçam que ela devolva uma parte agora.

O médico interrompeu a discussão e explicou novamente que o quadro de Henrique exigia rapidez. Eu deixei claro que não estava impedindo tratamento algum; apenas não assumiria uma nova obrigação financeira para encobrir uma transferência feita escondida. Dona Sônia saiu alguns passos e ligou para a filha.

Pelo tom de voz, percebi que a conversa não estava sendo fácil. Camila dizia que já havia dado entrada em materiais e móveis, mas minha sogra finalmente perdeu a paciência. — Seu irmão está no hospital. Transfere pelo menos o valor da internação agora.

Quase vinte minutos depois, meu celular mostrou uma movimentação na conta. R$ 12 mil haviam retornado. Dos R$ 900 mil, Camila devolvera apenas o suficiente para que o irmão pudesse ser operado.

Entreguei o cartão novamente no caixa e autorizei o pagamento. Não fiz aquilo como um gesto de reconciliação, mas porque o dinheiro pertencia à nossa conta e finalmente uma pequena parte havia voltado. Henrique foi encaminhado para a preparação cirúrgica pouco depois.

Antes de levarem a maca, ele segurou meu pulso com menos força. — Quando eu sair, a gente conversa com calma. Eu retirei a mão e respondi: — Quando você sair, nós vamos conversar sobre os R$ 888 mil que continuam faltando.

Enquanto a cirurgia acontecia, sentei-me sozinha na sala de espera e abri o aplicativo do banco. Alterei o recebimento do meu salário para uma conta individual que eu quase não usava. Em seguida, salvei todos os extratos disponíveis e anotei as datas das três transferências.

Dona Sônia percebeu o que eu estava fazendo. — Você vai mesmo transformar isso numa guerra dentro da família? Olhei para ela e respondi: — Não. A guerra começou quando três pessoas decidiram que sete anos do meu trabalho podiam ser usados sem que eu sequer fosse informada.

Ela não voltou a falar comigo. E, enquanto esperava a notícia de que Henrique havia saído bem da cirurgia, tomei a primeira decisão que não dependia mais dele: a partir daquele dia, nenhum centavo do meu salário voltaria para uma conta que Henrique pudesse movimentar sozinho.

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