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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

Cerca de oito meses depois do hospital, minha vida já não parecia provisória. Eu havia reorganizado as despesas, montado uma reserva novamente e começado a procurar apartamentos menores, sem pressa. Não queria repetir a obsessão antiga de juntar cada centavo ignorando o presente. Queria uma casa que coubesse na minha realidade e, principalmente, num plano que dependesse de mim.

Os pagamentos de Camila continuavam. Alguns meses eram mais altos porque ela conseguia antecipar parte do valor; em outros, seguia apenas o mínimo previsto. A reforma do apartamento dela havia sido reduzida bastante. O casamento aconteceu de maneira simples, sem a casa completamente pronta.

Não senti satisfação em saber disso. O objetivo nunca foi estragar os planos dela. O que eu precisava era que os meus planos deixassem de ser considerados descartáveis.

Henrique também cumpria a parte assumida. Nossa comunicação ficou restrita ao que ainda precisava ser resolvido no divórcio e aos pagamentos. Às vezes ele perguntava como eu estava, e eu respondia de forma educada. A distância deixou de ser uma arma e se tornou apenas a forma normal da nossa relação.

Certo fim de tarde, ele pediu para me encontrar mais uma vez. Aceitei porque o processo estava perto do fim e não havia mais tensão suficiente para transformar uma conversa em ameaça. Encontramo-nos no mesmo café onde meses antes eu havia dito que ele não voltaria para casa.

Henrique estava mais calmo. Disse que não pediria outra chance. Queria apenas explicar uma coisa que havia entendido.

— Eu passei muito tempo achando que meu erro foi ter dado dinheiro demais para a Camila — começou. — Mas não foi isso, foi?

Esperei que continuasse.

— O erro foi achar que eu podia decidir por nós dois e que você acabaria aceitando porque era minha esposa.

Assenti.

Não precisava acrescentar nada.

Ele respirou fundo e contou que demorara para perceber como havia naturalizado a ideia de que eu sempre resolveria o que faltasse. Se a empresa dele rendia menos, eu segurava as contas. Se a família dele precisava de ajuda, eu deveria compreender. Se alguma coisa desse errado, eu encontraria uma saída.

— Quando eu estava no hospital, eu realmente achei absurdo você não pedir dinheiro emprestado — disse. — Hoje eu percebo que eu queria que você criasse uma dívida para resolver uma decisão que eu escondi de você.

Ouvir aquilo não reconstruía nosso casamento. Mas fechava uma parte da ferida que ficara aberta desde aquela tarde. Pela primeira vez, ele descrevia o problema sem colocar minha reação no centro.

— Obrigada por entender — falei.

Henrique sorriu com tristeza.

— Pena que foi tarde.

Não respondi porque ambos sabíamos que era verdade.

Pouco depois, Patrícia me ligou para informar que faltavam apenas alguns procedimentos para concluir formalmente o divórcio. O acordo financeiro já estava reconhecido e seguia sendo cumprido. A sensação que tive não foi de medo. Foi de encerramento.

Também recebi uma ligação de uma imobiliária naquele mês. Um apartamento pequeno que eu havia visitado semanas antes continuava disponível. Era muito mais modesto do que o imóvel que Henrique e eu planejávamos comprar, mas ficava perto do meu trabalho e cabia no orçamento sem que eu precisasse esgotar minhas reservas.

Passei alguns dias fazendo contas.

Dessa vez, não escondi os números de ninguém, mas também não precisei pedir autorização.

Camila soube por Henrique que eu estava procurando imóvel e me mandou uma mensagem. Disse que esperava que eu conseguisse comprar algo que gostasse e que continuaria cumprindo o acordo até devolver o que devia. Respondi simplesmente: “É isso que eu espero também.”

Nossa relação nunca voltou a ser próxima. E estava tudo bem. Nem todo conflito precisa terminar em abraço para terminar de maneira saudável.

No mês seguinte, visitei novamente o apartamento. Fiquei alguns minutos na sala vazia, observando a luz entrar pela janela. Não era a casa que eu havia imaginado sete anos antes.

Talvez por isso mesmo parecesse tão minha.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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