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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

O primeiro sinal de que a relação entre Caio e Vanessa estava realmente desmoronando não veio através de nenhuma revelação dramática. Veio por uma mensagem curta de Caio dizendo que ela tinha pedido que ele não a procurasse mais.

Eu quase ignorei.

Mas ele acrescentou:

“Ela diz que precisa salvar o casamento.”

Fiquei olhando para a frase por alguns segundos.

Era difícil não perceber a ironia.

Durante três anos, Vanessa havia mantido um relacionamento com o irmão do marido. Agora, diante da possibilidade concreta de perder Eduardo, parecia decidida a tratar Caio como parte de um passado que precisava apagar.

Respondi apenas:

“Isso é entre vocês.”

Caio escreveu novamente.

“Você não acha absurdo?”

Desta vez, não consegui evitar.

“Você está me perguntando se acho absurdo uma pessoa trair o parceiro e depois agir de acordo com a própria conveniência?”

Ele não respondeu.

Talvez tivesse compreendido a pergunta.

Talvez não.

De qualquer maneira, não era mais meu trabalho ensiná-lo.

Enquanto isso, meu divórcio avançava lentamente. Havia documentos, propostas, ajustes e pequenos desacordos sobre despesas já assumidas. Nada se resolvia em uma tarde. A realidade era menos cinematográfica do que o flagrante no hotel.

E, estranhamente, isso me fazia bem.

A parte mais difícil da separação não era uma grande cena.

Era revisar faturas.

Separar objetos.

Decidir quem ficaria responsável por determinada despesa.

Cancelar planos feitos meses antes.

Informar às pessoas mais próximas que o casamento estava terminando sem transformar cada conversa em tribunal.

Quando alguém perguntava o motivo, eu dizia apenas:

— Houve uma traição longa e eu decidi me divorciar.

Não escondia.

Mas também não oferecia detalhes desnecessários.

Algumas pessoas queriam saber nomes, datas, circunstâncias.

Eu mudava de assunto.

Caio percebeu que eu não o estava expondo e, certa noite, mandou uma mensagem inesperada:

“Obrigado por não contar tudo para todo mundo.”

Aquilo me irritou.

Respondi:

“Não estou fazendo isso para proteger você.”

Depois acrescentei:

“Estou fazendo para proteger minha paz.”

Ele ficou sem resposta novamente.

Pouco tempo depois, aluguei o apartamento que havia visitado.

Era menor do que a casa onde eu vivia com Caio, mas cabia minha vida inteira sem que eu precisasse pedir licença a ninguém.

No primeiro dia, sentei no chão porque ainda não havia sofá.

Comi comida de entrega usando uma caixa como mesa.

E me senti estranhamente leve.

Não feliz o tempo todo.

Não curada.

Apenas livre de uma rotina construída sobre uma mentira.

Eduardo apareceu em minha vida de forma igualmente discreta.

Às vezes trocávamos mensagens sobre algum detalhe que envolvia Caio e Vanessa. Em outras ocasiões, ele perguntava apenas se eu estava bem.

Eu fazia o mesmo.

Havia entre nós uma compreensão que não precisava virar intimidade excessiva.

Os dois tínhamos sido atingidos pelo mesmo acontecimento, mas cada um estava responsável por reconstruir a própria vida.

Um sábado, encontramos-nos para tomar café depois de uma reunião com advogados em horários próximos. Eduardo parecia mais cansado do que de costume.

— Vanessa quer terapia de casal — contou.

— Você quer?

— Não.

A resposta veio sem hesitação.

— Então já sabe o que precisa dizer.

Ele ficou observando a xícara.

— Às vezes parece cruel não dar uma chance.

Aquilo me fez pensar nas minhas próprias dúvidas.

— Eu também pensei nisso.

— E?

— Acho que existe diferença entre punir alguém e decidir que não quero mais viver da mesma forma. Eu não estou me divorciando para castigar o Caio. Estou me divorciando porque não quero continuar nesse casamento.

Eduardo assentiu lentamente.

— É exatamente isso.

Na semana seguinte, ele comunicou a Vanessa que seguiria com o divórcio.

Ela reagiu mal.

Ligou para Caio, acusando-o de ter destruído a vida dela.

Caio, indignado, respondeu que ela também tinha destruído a dele.

Soube dessa discussão porque Caio tentou me contar cada detalhe.

Interrompi antes que terminasse.

— Eu não quero ser plateia da briga de vocês.

— Mas você tinha razão — ele disse. — Ela nunca ia deixar o Eduardo por mim.

— Caio, isso não muda o que você fez comigo.

— Eu sei.

Dessa vez, ele realmente pareceu entender.

A conversa terminou ali.

Nos dias seguintes, ele não voltou a falar sobre Vanessa.

Também parou de insistir para eu voltar.

Pela primeira vez, nossas mensagens ficaram restritas a assuntos necessários do divórcio.

Era um avanço pequeno, porém real.

A consequência para Caio não foi uma punição que eu tivesse planejado.

Foi perceber que havia perdido o casamento por uma relação que também não se sustentou quando precisou existir de verdade.

A consequência para Vanessa era semelhante.

E minha consequência, embora injusta, era ter de reconstruir uma parte da vida que eu não havia escolhido destruir.

Mas havia uma diferença importante.

Eles estavam lidando com os resultados das decisões que tomaram.

Eu estava começando a tomar decisões novas.

Quando terminei de organizar o último cômodo do meu apartamento, coloquei a chave sobre a mesa e fiquei olhando para ela.

Pequena.

Comum.

Mas era a chave de um lugar que existia por uma escolha minha.

Aquilo significava mais do que eu imaginava.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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