
PARTE 5
Caio demorou dois dias para responder à proposta de divórcio. Quando finalmente respondeu, não aceitou nem recusou. Pediu uma conversa presencial com a advogada presente. Eu concordei porque, naquele ponto, já não queria discutir assuntos importantes em encontros improvisados.
Na reunião, ele parecia mais contido do que nas vezes anteriores. Perguntou sobre bens, despesas pendentes e a possibilidade de continuar no apartamento até o fim do contrato. Nada daquilo era extraordinário. Pela primeira vez desde o flagrante, estávamos tratando de consequências concretas em vez de tentar reescrever o passado.
Quando a parte financeira terminou, Caio pediu alguns minutos para falar comigo.
Minha advogada perguntou se eu queria ficar.
— Tudo bem — respondi. — Pode ser aqui.
Ele percebeu que eu não aceitaria sair sozinha com ele.
— Eu parei de ver a Vanessa — disse.
Esperei.
— Só isso?
— Achei que você quisesse saber.
— Não muda minha decisão.
A expressão dele se fechou.
— Você não sente nada?
Aquilo me atingiu de maneira inesperada.
— É claro que sinto.
Respirei devagar.
— Sinto raiva. Sinto vergonha por ter acreditado. Sinto falta da pessoa que eu pensava que você era. E sinto tristeza pelos três anos em que tentei ser compreensiva com um problema que nunca existiu. O que eu não sinto é obrigação de permanecer casada porque agora você resolveu interromper o que deveria nunca ter começado.
Caio ficou em silêncio.
Depois disse:
— Eu achava que, quando terminasse com ela, você pelo menos consideraria.
— Isso mostra que você ainda está pensando na traição como se o problema fosse apenas Vanessa.
Ele não respondeu.
A reunião terminou sem acordo completo, mas houve progresso. Caio aceitou discutir o divórcio sem tentar impedir juridicamente o processo e concordou em organizar a saída do apartamento quando o contrato permitisse. Ainda havia detalhes a resolver, porém a possibilidade de uma separação civilizada começava a existir.
Do lado de Eduardo e Vanessa, as coisas pareciam mais turbulentas.
Eu sabia apenas o que Eduardo me contava quando algum assunto dizia respeito também a Caio ou à situação familiar em comum. Não perguntava por detalhes íntimos. Depois do que havia acontecido, eu tinha desenvolvido uma espécie de alergia a ocupar espaços que não me pertenciam.
Um dia, porém, Eduardo me ligou porque Vanessa havia afirmado que Caio queria reatar com ela.
— Ele disse alguma coisa para você? — perguntou.
— Disse que tinha parado de vê-la.
Houve um silêncio.
— Então um dos dois está mentindo.
— Pode ser. Mas não acho que a gente precise descobrir qual.
Ele pareceu surpreso.
— Não?
— Não para decidir nossos casamentos.
Eduardo demorou alguns segundos antes de responder.
— Você tem razão.
Era exatamente isso.
Durante os primeiros dias após o flagrante, eu tinha sentido necessidade de compreender tudo. Quantas vezes? Onde? Quem procurava quem? Quem tinha mentido mais? Quem tinha começado?
Depois percebi que nenhuma resposta mudaria o fato principal.
Eles mantiveram uma relação escondida durante três anos.
O restante podia explicar detalhes, mas não transformar aquilo em outra coisa.
Na semana seguinte, Caio finalmente deixou o apartamento. Levou roupas, objetos pessoais e algumas coisas que combinamos previamente. Fui até lá apenas depois que ele saiu.
Quando abri a porta, a casa parecia maior.
Não porque houvesse menos móveis.
Porque havia menos tensão.
Caminhei pelos cômodos e percebi quantas memórias estavam associadas às minhas tentativas de não incomodá-lo. O sofá onde eu evitava me aproximar demais quando ele dizia estar cansado. A cama onde aprendi a dormir virada para o outro lado. O banheiro onde muitas vezes me perguntei, diante do espelho, se eu ainda era atraente para o meu próprio marido.
Sentei-me na beirada da cama.
Pela primeira vez desde o hotel, chorei de verdade.
Não havia ninguém para assistir.
Não havia ironia para me proteger.
Chorei pela mulher que tinha passado três anos tentando não pressionar um homem que já havia escolhido traí-la.
Quando as lágrimas diminuíram, peguei o celular e liguei para a imobiliária.
Perguntei sobre as condições para encerrar o contrato quando fosse possível.
Eu não queria permanecer naquele apartamento apenas porque Caio tinha saído.
Também não queria que cada parede se transformasse em monumento àquilo que aconteceu.
Enquanto eu começava a procurar outro lugar, Caio enfrentava uma realidade diferente.
Ele tinha deixado a casa e, pelo que soube mais tarde, também não estava vivendo com Vanessa.
A relação que os dois haviam sustentado escondida parecia não saber funcionar à luz do dia.
Vanessa continuava tentando recuperar Eduardo.
Caio, por sua vez, tentava recuperar a mim.
Os dois diziam ter vivido um grande sentimento, mas nenhum parecia disposto a construir a própria vida ao lado do outro depois que os casamentos começaram a acabar.
Quando percebi isso, não senti satisfação.
Apenas uma clareza amarga.
Talvez o segredo tivesse sido parte essencial do que existia entre eles.
No fim daquela semana, Caio me mandou uma mensagem:
“Vanessa disse que nunca pretendeu deixar o Eduardo.”
Li uma vez.
Depois outra.
Não respondi imediatamente.
Minutos depois, veio uma segunda mensagem:
“Eu fui um idiota.”
Dessa vez, respondi.
“Foi. Mas descobrir isso agora é uma consequência sua, não uma responsabilidade minha.”
Ele não insistiu.
Naquela noite, eu visitei um apartamento pequeno em um bairro diferente. Tinha uma sala simples, uma janela ampla e nenhuma lembrança minha com Caio.
Fiquei parada diante da janela por alguns minutos.
Não assinei nada naquele dia.
Mas, pela primeira vez, comecei a imaginar minha vida não como algo que havia sido destruído, e sim como algo que ainda podia ser reorganizado.
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