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LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

Meses depois, acordei em uma manhã de domingo e levei alguns segundos para lembrar que aquela data teria sido meu aniversário de casamento com Caio.

A lembrança veio sem violência.

Não senti o peito apertar como antes.

Apenas fiquei deitada por alguns instantes, observando a luz entrando pela janela.

Depois levantei e fiz café.

Aquilo, para mim, era a maior prova de que alguma coisa tinha realmente mudado.

Houve um tempo em que eu acreditava que superar significaria esquecer.

Agora entendia que não era assim.

Eu ainda lembrava.

Só que a lembrança já não dava ordens.

Naquela semana, Eduardo me convidou para um café. Fazia algum tempo que não nos víamos.

Quando cheguei, ele já estava sentado.

Parecia mais leve.

— Terminou — disse depois que me sentei.

Eu entendi imediatamente.

— O divórcio?

Ele assentiu.

— Finalmente.

— Como está?

Eduardo pensou antes de responder.

— Melhor do que achei que estaria.

Sorri.

— Conheço essa resposta também.

Conversamos durante algum tempo.

Não sobre Vanessa.

Não sobre Caio.

Falamos de trabalho, mudanças de rotina e coisas comuns.

Em determinado momento, percebemos isso ao mesmo tempo.

Rimos.

— Acho que é a primeira conversa nossa em meses em que eles não são o assunto principal — ele comentou.

— Já estava na hora.

Aquilo simbolizava mais do que parecia.

Nossa ligação havia começado por causa de uma traição compartilhada.

Mas não precisávamos passar o resto da vida orbitando as pessoas que nos traíram.

Quando saímos da cafeteria, Eduardo me desejou sorte.

Eu também desejei a ele.

Depois cada um seguiu para um lado diferente.

E achei apropriado.

Não havia necessidade de transformar duas vítimas da mesma história em um novo casal para produzir um final bonito.

Às vezes, um final bonito era simplesmente duas pessoas recuperando a própria direção.

Alguns dias depois, encontrei Caio por acaso.

Eu saía de uma loja quando o vi do outro lado da calçada.

Por um instante, nenhum dos dois soube se deveria parar.

Então ele atravessou.

— Oi.

— Oi.

Ele parecia bem.

Mais magro, talvez.

Mas tranquilo.

— Como você está?

— Bem. E você?

— Melhorando.

Assenti.

Houve um pequeno silêncio.

— Não estou mais com a Vanessa — disse ele, quase como se sentisse obrigação de esclarecer.

— Eu sei.

— Eduardo contou?

— Não. Você já tinha me dito meses atrás.

Caio pareceu perceber que eu realmente não acompanhava mais a vida deles.

— Ah.

Sorri de leve.

— Eu não fico perguntando.

Ele deu um sorriso constrangido.

— Faz sentido.

Antes de nos despedirmos, Caio ficou sério.

— Lívia, eu queria dizer uma última coisa.

Esperei.

— Naquela época, eu achava que você estava acabando com a nossa família quando foi embora daquele hotel.

Lembrei imediatamente.

“Você quer destruir esta família?”

A frase ainda estava guardada em algum canto da minha memória.

Caio continuou:

— Hoje eu sei que não foi você.

Não respondi.

Ele respirou fundo.

— Fui eu. Eu e a Vanessa. Você só se recusou a fingir que ainda existia o que a gente tinha quebrado.

Talvez aquela fosse a conclusão mais honesta que ele já havia me oferecido.

— Sim — respondi. — Foi isso.

Ele assentiu.

— Desculpa ter levado tanto tempo para entender.

— Algumas coisas levam tempo.

Não senti necessidade de dizer mais.

Caio estendeu a mão, depois pareceu reconsiderar.

Eu mesma estendi a minha.

Apertamos as mãos.

— Se cuida — falei.

— Você também.

E seguimos caminhos diferentes.

Não virei para olhar.

Naquela tarde, voltei para casa e percebi que aquele encontro não tinha despertado vontade de chorar, investigar ou imaginar como seria se eu tivesse tomado outra decisão.

Meu casamento tinha terminado.

Mas eu não me sentia como alguém cuja vida tinha terminado junto.

Durante os meses seguintes, minha rotina ganhou uma normalidade que antes parecia impossível.

Trabalhei.

Organizei minha casa.

Visitei amigos.

Passei fins de semana sozinha sem interpretar a solidão como abandono.

Aprendi a distinguir silêncio de vazio.

E, principalmente, parei de analisar cada detalhe do passado procurando uma resposta capaz de fazer tudo parecer razoável.

Algumas escolhas de Caio nunca seriam razoáveis para mim.

Eu podia viver mesmo sem entendê-las completamente.

Em uma noite tranquila, encontrei no fundo de uma gaveta a caixa onde tinha guardado minha aliança.

Sentei-me à mesa e abri.

O anel ainda estava ali.

Durante meses, eu evitara decidir o que fazer com ele.

Naquele momento, percebi que já conseguia.

Não queria jogá-lo fora com raiva.

Também não queria guardá-lo como se representasse algo que eu ainda esperava recuperar.

Levei-o, dias depois, para avaliar possibilidades de vender ou transformar.

Não havia pressa.

O importante era que a decisão agora pertencia a mim.

O mesmo valia para quase tudo.

Se um dia eu teria outro relacionamento, seria uma escolha minha.

Se preferisse ficar sozinha por mais tempo, também.

Se algum dia perdoaria completamente Caio e Vanessa, o tempo diria.

Mas perdão não seria uma obrigação.

Reconciliação também não.

Eu havia passado três anos tentando me adaptar a uma realidade criada pelas mentiras de outra pessoa.

Agora não pretendia construir meu futuro em função do que alguém esperava de mim.

No aniversário de um ano do dia em que descobri a traição, lembrei novamente daquele quarto.

Lembrei de Vanessa escondida no lençol.

De Caio tentando pegar meu celular.

De Eduardo entrando pela porta.

Da minha própria voz fazendo piadas porque, naquele instante, o sarcasmo era a única forma que encontrei para não desmoronar.

Se pudesse voltar àquele momento e falar com a mulher que eu era, não diria que tudo seria fácil.

Não diria que ela deixaria de sofrer rapidamente.

Também não diria que um novo amor apareceria para consertar sua vida.

Diria apenas que, depois de toda a confusão, ela voltaria a se reconhecer.

E talvez isso fosse suficiente.

Fechei a janela antes de dormir.

Minha casa estava silenciosa.

Não havia explicações esperando por mim.

Não havia celular escondido.

Não havia desculpas médicas.

Não havia uma amiga fingindo se preocupar com meu casamento enquanto o destruía pelas costas.

Havia apenas minha vida, imperfeita e completamente minha.

Apaguei a luz com uma sensação serena.

Caio tinha decidido mentir.

Vanessa tinha decidido me trair.

Eu não podia mudar nenhuma dessas escolhas.

Mas, dali em diante, ninguém além de mim decidiria o rumo da minha vida.

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