
No meu primeiro almoço como nova diretora do hospital, uma residente tentou me expulsar da mesa que reservava todos os dias para o meu marido
PARTE 1
Eu tinha acabado de assumir a direção-geral do Hospital Municipal Central quando decidi almoçar no refeitório antes mesmo de entrar oficialmente na minha sala. Foi ali que uma residente da Ortopedia, sem fazer ideia de quem eu era, parou diante da minha mesa e disparou:
— De onde saiu essa acompanhante de paciente? Você acha que pode sentar em qualquer lugar?
Pouco depois, meu marido apareceu vindo do corredor, pálido, segurou o braço dela e tentou fazê-la parar.
— Chega. Ela é a nova diretora do hospital.
Eu só queria fazer uma refeição tranquila e observar como aquele hospital funcionava quando ninguém estava tentando impressionar a nova chefia. Não imaginava que, antes mesmo de engolir a primeira garfada, encontraria algo capaz de deixar meu coração gelado.
O refeitório estava cheio naquela hora. Conversas se misturavam ao barulho de talheres e bandejas até o instante em que a voz daquela mulher se ergueu acima de todas as outras.
— De onde saiu essa acompanhante de paciente? Você acha que pode sentar nessa mesa?
Eu acabara de colocar minha bandeja sobre a mesa e ainda nem tinha tocado nos talheres.
Do outro lado estava uma jovem de jaleco impecavelmente branco. No crachá preso ao peito, eu conseguia distinguir o nome do hospital e, logo abaixo, o setor: Ortopedia.
O nome dela era Natália Lemos.
Naquele momento, porém, eu ainda não sabia disso. O que ficou gravado na minha memória foi a maneira como ela mantinha o queixo ligeiramente levantado, como se a simples possibilidade de alguém questioná-la fosse absurda.
Olhei para a cadeira vazia à minha frente e depois para ela.
— Desde quando as mesas do refeitório podem ser reservadas?
A expressão dela endureceu. Evidentemente, não esperava que eu respondesse.
Algumas pessoas usando roupa cirúrgica azul, sentadas na mesa ao lado, trocaram olhares. Uma delas chegou a abrir a boca, mas desistiu antes de falar.
Mais afastada, Helena Mendes, vice-diretora administrativa do hospital, vinha com um copo de água nas mãos. Quando percebeu a cena, parou no meio do caminho.
Eu havia chegado ao Hospital Municipal Central naquela manhã para assumir a direção-geral.
Não houvera cerimônia de apresentação. O comunicado interno com minha nomeação ainda nem tinha circulado oficialmente, e eu sequer passara pela sala reservada à direção no prédio administrativo.
Queria apenas sentar alguns minutos no refeitório e observar o hospital em seu funcionamento normal.
O resultado foi que nem consegui começar o almoço.
— Você não entendeu? — Natália perguntou.
Ela largou a própria bandeja sobre a mesa com força suficiente para produzir um ruído seco que fez várias pessoas olharem em nossa direção.
— Essa mesa não é para você.
Cruzou os braços e me examinou de cima a baixo.
— É acompanhante de paciente de qual setor? Ou veio fazer alguma entrega?
As palavras saíram com tanta naturalidade que pareciam pertencer a um discurso repetido muitas vezes.
Eu não me levantei.
Acomodei os talheres ao lado da bandeja, apoiei as mãos sobre a mesa e perguntei:
— Existe algum documento dizendo que essa cadeira pertence a você?
Ela soltou uma risada curta.
— Você é bem respondona.
Depois inclinou a cabeça.
— E acha que tem alguma condição de discutir comigo aqui?
Meus olhos passaram pelo crachá dela.
— Você é médica residente?
A expressão de Natália escureceu.
— E o que isso tem a ver com você?
Um homem de meia-idade, sentado na mesa vizinha e usando óculos, finalmente interferiu. Falou tão baixo que parecia ter medo de ser ouvido.
— Senhora, talvez seja melhor sentar em outro lugar.
Outra pessoa concordou:
— Não vale a pena discutir com ela. Aqui sempre foi assim.
— Não compensa arrumar problema.
Olhei para quem tentava me aconselhar. Havia enfermeiros, internos, médicos em treinamento e funcionários de outros setores.
Todos tinham praticamente a mesma expressão.
Não era concordância com Natália.
Era uma resignação antiga.
Permaneci sentada.
— Quando vocês dizem que “sempre foi assim”, estão falando de quanto tempo?
Ninguém respondeu.
Natália sorriu novamente, como se minha insistência estivesse começando a diverti-la.
— Vai mesmo fazer esse escândalo todo por causa de uma cadeira?
Ela avançou um passo, apoiou uma das mãos na borda da mesa e se inclinou em minha direção.
— Vou falar pela última vez. Esse lugar fica reservado para o chefe Fernando. Então é melhor levantar agora, antes que eu chame alguém.
Chefe Fernando.
Minha mão, que naquele instante segurava o copo, parou no ar.
Ortopedia.
Hospital Municipal Central.
Chefe Fernando.
Fernando Vieira.
Era o nome do meu marido.
Coloquei o copo sobre a mesa devagar.
— Reservado para o chefe Fernando?
— Claro — respondeu ela, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Ele almoça aqui quase todos os dias. Eu guardo o lugar para ele. Vai levantar ou não?
O ar-condicionado soprava frio sobre o refeitório, mas senti um calor incômodo subir pelas minhas costas.
Baixei os olhos para o crachá dela.
Natália Lemos. Ortopedia. Médica residente.
Foi então que reparei na corrente fina em seu pescoço.
O pingente estava parcialmente escondido sob a gola do jaleco, deixando à mostra apenas um pequeno reflexo prateado.
Eu conhecia aquele modelo.
Conhecia bem demais.
Fernando tinha uma corrente praticamente igual.
No ano anterior, quando perguntei por que ele não a usava mais, disse que a havia perdido durante uma viagem a trabalho.
Durante alguns segundos, fiquei olhando para aquele brilho discreto.
Eu não sabia o que aquilo significava.
Não sabia como Natália tinha conseguido uma corrente tão parecida.
Mas nunca imaginei que meu primeiro almoço naquele hospital me colocaria diante de uma dúvida tão desconfortável.
— Vai sair ou não? — Natália repetiu, aumentando a voz.
Cinco ou seis mesas já acompanhavam a cena.
Mesmo assim, ninguém se levantou para enfrentá-la.
Peguei o copo, bebi um pouco de água e o coloquei novamente sobre a mesa.
— Não.
O sorriso desapareceu do rosto dela.
— Afinal, o que você faz neste hospital?
— Tente adivinhar.
Natália me observou por alguns segundos. Passou os olhos pelo meu rosto, pela minha roupa e pelas minhas mãos.
Eu usava uma camisa azul-escura simples, calça discreta e sapatos baixos. Não estava maquiada, e meu cabelo tinha sido preso às pressas em um rabo de cavalo baixo.
Nada em mim anunciava um cargo de direção.
— Trabalha no administrativo? — perguntou.
Antes que eu respondesse, ela mesma riu.
— O pessoal do administrativo está cada vez mais abusado. Só porque trabalha perto da direção acha que pode circular como quiser.
Uma enfermeira jovem sentada perto de nós finalmente reuniu coragem.
— Doutora Natália, talvez seja melhor deixar isso pra lá…
Natália virou a cabeça e lançou um olhar para ela.
Foi apenas um olhar.
A enfermeira interrompeu a frase imediatamente, abaixou a cabeça para o prato e voltou a comer. Percebi que os dedos dela tremiam ligeiramente em torno do garfo.
Guardei aquela imagem na memória.
— Há quanto tempo você está na Ortopedia? — perguntei.
Natália voltou a olhar para mim, já claramente irritada.
— Agora você está fazendo interrogatório?
— Só estou perguntando.
Mantive a voz tranquila.
— Essa história de reservar mesa acontece com o conhecimento de todo mundo da Ortopedia?
— Não só da Ortopedia.
Ela endireitou as costas, como se finalmente tivesse encontrado um assunto do qual pudesse se orgulhar.
— Todo mundo da área cirúrgica sabe que essa mesa é do chefe Fernando.
A maneira como pronunciou o nome dele mudou discretamente.
Havia uma suavidade que não estava presente quando falava das outras pessoas.
Não parecia apenas uma subordinada falando de seu superior.
Parecia uma mulher falando de alguém que ocupava um lugar particular em sua vida.
Bati de leve a ponta do dedo sobre a mesa.
— O chefe Fernando costuma cuidar muito bem de você?
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