
PARTE 8
O jantar aconteceu num restaurante pequeno, longe do hospital. Fernando chegou antes de mim e escolheu uma mesa perto da janela. Pela primeira vez desde nossa separação, conseguimos conversar durante quase meia hora sem mencionar Natália, a Ortopedia ou a comissão.
Falamos da família.
De amigos.
De um filme que nenhum de nós terminara.
Por alguns minutos, reconheci o homem com quem construíra grande parte da minha vida.
Foi justamente isso que tornou a conversa seguinte mais difícil.
— Você pensa em voltar? — Fernando perguntou.
Eu deixei os talheres sobre o prato.
— Penso.
Seus olhos se iluminaram por um instante.
— E?
— Pensar não significa que eu consiga.
A expressão dele mudou, mas não houve raiva.
— O que falta?
— Eu confiar que não precisarei descobrir novamente uma parte importante da sua vida por acaso.
Fernando assentiu.
— Eu entendo.
— Não sei se entende completamente.
— Então me explica.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Quando encontrei aquela corrente no pescoço dela, o pior não foi imaginar que você tivesse uma amante.
Ele me observou com atenção.
— O pior foi perceber que existia uma versão da sua relação com uma mulher que trabalhava com você da qual eu não sabia nada. Depois descobri que você tinha escolhido esconder deliberadamente essa versão.
Fernando não desviou os olhos.
— Eu sei.
— E agora, sempre que penso em voltar, uma parte de mim pergunta: o que mais eu não sei?
— Não existe mais nada.
— Talvez não exista.
Respirei fundo.
— Mas confiança não volta porque a pessoa que quebrou diz que pode confiar.
Ele baixou a cabeça.
— O que eu posso fazer?
— Continuar sendo honesto sem usar honestidade como moeda para me trazer de volta.
Fernando ficou alguns segundos sem responder.
Depois assentiu.
Na semana seguinte, a comissão concluiu oficialmente o caso profissional.
A decisão sobre Natália confirmou a advertência, a mudança de supervisão e o acompanhamento até o término do ciclo de avaliação. Também reconheceu melhora consistente em seu comportamento.
Quanto a Fernando, o relatório concluiu que existira favorecimento informal na supervisão e falha em responder a reclamações, mas não encontrou evidência de fraude acadêmica, manipulação de avaliações ou relação íntima que pudesse ser comprovada dentro do escopo da investigação institucional.
Era uma conclusão equilibrada.
Ele não era inocentado de tudo.
Também não era acusado do que não podia ser demonstrado.
Fernando permaneceria como médico do setor e poderia exercer funções de ensino, mas não retomaria a chefia naquele momento.
A decisão não foi minha.
Ainda assim, quando li o resumo administrativo, senti algo se encerrar.
Durante meses, a vida profissional e a vida pessoal tinham se misturado numa massa difícil de separar.
Agora havia limites mais claros.
O hospital tinha terminado seu trabalho.
Meu casamento continuava sendo minha responsabilidade.
Natália me procurou no dia seguinte à conclusão do processo.
— Posso entrar?
— Pode.
Ela permaneceu em pé diante da mesa.
— Eu queria agradecer pela forma como tudo foi conduzido.
— Você não precisa me agradecer.
— Preciso, sim.
Respirou fundo.
— Se a senhora tivesse decidido acabar comigo naquele primeiro dia, muita gente teria achado justo.
— Talvez.
— Eu inclusive.
A resposta me surpreendeu.
Natália continuou:
— Durante semanas achei que todo mundo estava contra mim. Depois comecei a perceber que eu tinha usado o nome do doutor Fernando porque gostava do efeito.
Era quase a mesma conclusão a que ele chegara sobre ela.
Dois lados da mesma relação.
Cada um alimentara no outro uma coisa de que gostava.
— Eu achava que ser próxima de alguém importante me tornava importante também — disse.
— E agora?
Natália olhou para o próprio crachá.
— Agora estou tentando ser boa no que faço sem precisar que ninguém tenha medo de mim.
Assenti.
— Isso demora.
— Eu sei.
Ela se levantou para sair, mas antes de chegar à porta voltou-se.
— Sobre o doutor Fernando…
— Não precisamos falar dele.
— Só queria dizer uma coisa.
Esperei.
— Ele nunca me prometeu nada. Nunca disse que deixaria a senhora. Nunca tivemos um relacionamento.
— Eu acredito que você está dizendo o que considera verdade.
Ela pareceu aceitar o limite da minha resposta.
Depois saiu.
Naquela noite, peguei a chave do nosso apartamento que ainda carregava na bolsa.
Fiquei olhando para ela por alguns minutos.
Eu poderia voltar.
Fernando provavelmente me receberia.
Talvez reconstruíssemos alguma coisa.
Mas percebi que a pergunta certa já não era “ele merece outra chance?”.
Essa pergunta me colocava novamente como juíza dele.
A pergunta verdadeira era:
“Que vida eu quero viver daqui para frente?”
E eu ainda precisava encontrar minha própria resposta.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














