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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

Depois da venda, a rotina de todos precisou mudar.

Minha sogra encontrou um apartamento menor para alugar.

Renato e Diego dividiram o depósito inicial e algumas despesas de mudança.

Quando soube disso, senti uma mistura estranha de alívio e tristeza.

Durante anos, ambos disseram não ter condições de assumir certas responsabilidades.

Quando deixei de assumi-las por eles, encontraram uma maneira.

Diego conseguiu trabalho em uma empresa de logística.

Não era o emprego que ele imaginava ter depois da faculdade, segundo contou a Sofia numa conversa em família, mas era trabalho.

Começou com um salário bem menor do que os R$ 4 mil que eu lhe entregava todos os meses.

Isso o obrigou a reorganizar completamente a própria vida.

Certa tarde, ele me mandou uma mensagem.

“Agora entendo por que você falava tanto de orçamento.”

Li duas vezes.

Não respondi imediatamente.

Depois escrevi apenas:

“Espero que dê certo para você.”

Eu não precisava de um pedido de desculpas para justificar minha decisão.

Mas também não precisava transformar Diego em inimigo pelo resto da vida.

A distância era suficiente.

Com Renato, as coisas eram mais complexas.

Ele continuava tentando interpretar cada mudança minha como uma forma de puni-lo.

Quando a prestação da antiga dívida caiu depois da amortização, ele disse:

— Então agora você está bem. Talvez tenha ido longe demais com a casa da minha mãe.

— Eu não vendi para ficar “bem”. Vendi para parar de colocar minha casa em risco por uma dívida que ninguém queria dividir.

— Você poderia ter esperado mais.

— Esperei meses.

A conversa terminaria como todas as outras se eu continuasse tentando convencê-lo.

Então parei.

— Renato, você não precisa concordar. A decisão já foi tomada e executada.

Essa frase encerrou a discussão.

Foi uma sensação nova para mim.

Passei quinze anos acreditando que colocar limites exigia fazer o outro entender.

Descobri que não.

Às vezes, um limite existe justamente quando a outra pessoa discorda e, ainda assim, você o mantém.

Sofia também começou a exigir mudanças do pai.

Renato tinha combinado que ficaria com ela em determinados fins de semana, mas cancelou dois encontros no primeiro mês.

No primeiro, disse que surgiu uma viagem.

No segundo, afirmou ter uma reunião inesperada.

Sofia não chorou na minha frente.

Mas ficou mais quieta.

No terceiro fim de semana, quando Renato ligou perguntando se poderia mudar novamente o horário, ela pediu o telefone.

— Pai, se você não quiser vir, fala logo.

Eu ouvi da cozinha.

— Claro que eu quero.

— Então para de marcar e depois trocar.

Renato ficou em silêncio do outro lado.

— Você está brava comigo?

— Estou cansada de esperar.

Eu fechei os olhos.

Aquelas palavras poderiam ter saído da minha própria boca.

Renato apareceu no horário combinado naquele sábado.

Levou Sofia para almoçar e passou a tarde com ela.

Quando voltou, pediu para conversar comigo.

— Ela está diferente.

— Ela está crescendo.

— Você falou alguma coisa sobre mim?

Olhei para ele.

— Eu nunca contei detalhes da nossa separação para Sofia. Não vou colocá-la contra você.

— Então por que ela está assim?

— Porque ela vê quando você promete e não aparece.

Renato abaixou a cabeça.

Talvez pela primeira vez estivesse diante de uma consequência que dinheiro nenhum poderia amenizar.

Eu não podia reconstruir a relação dele com Sofia.

E também não tentaria.

Ao mesmo tempo, minha própria vida começou a adquirir uma rotina diferente.

Com a dívida menor e sem a transferência para Diego, consegui reconstruir minha reserva financeira mais rapidamente.

Ainda trabalhava muito.

Ainda havia contas.

Ainda existiam responsabilidades.

Mas eu já não precisava escolher entre comprar algo necessário para mim e bancar despesas de um homem adulto que poderia trabalhar.

Um sábado, Sofia me chamou para ir ao shopping.

Eu quase disse não por hábito.

Depois percebi que não havia motivo.

Compramos algumas coisas simples.

No fim da tarde, sentamos para tomar café e comer bolo.

Sofia olhou para mim e disse:

— Faz tempo que a gente não faz isso.

Eu sabia.

Durante anos, eu dissera que não tínhamos dinheiro.

Na verdade, tínhamos recursos.

Só que grande parte deles estava sempre destinada a manter outras pessoas confortáveis.

Renato começou a aparecer com mais regularidade para ver a filha.

Também passou a pagar sua parte das despesas sem que eu precisasse cobrar todas as vezes.

Não interpretei isso como mudança completa.

Era apenas responsabilidade atrasada.

A mulher com quem ele havia se envolvido continuava aparecendo esporadicamente em sua vida, pelo que eu sabia.

Não perguntei.

O relacionamento deles já não era assunto meu.

Uma noite, porém, Renato apareceu para buscar Sofia e ficou alguns minutos parado na porta.

— Você parece melhor.

— Estou melhor.

— Você não sente falta de nada?

Entendi a pergunta.

— Sinto falta de várias coisas. Mas sentir falta não significa querer voltar.

Ele ficou quieto.

— Eu errei com você.

— Errou.

— Parece fácil quando você fala assim.

— Não foi fácil viver.

Sofia apareceu atrás de mim com a mochila, encerrando a conversa.

Durante o trajeto até o elevador, Renato se virou uma vez.

Eu não disse nada.

Não havia mais necessidade de preencher os silêncios dele.

Minha sogra demorou mais tempo para aceitar a nova situação.

Durante semanas, não falou comigo.

Depois, num domingo em que Renato levou Sofia para visitá-la, ela pediu que a neta me perguntasse se poderia telefonar.

Disse a Sofia que ela não precisava ser mensageira.

Liguei eu mesma.

Minha sogra não pediu desculpas.

Eu também não esperava.

Ela apenas contou que o novo apartamento era menor, mas ficava perto de mercado, farmácia e ponto de ônibus.

— Dá para viver — disse.

— Fico contente.

Houve um silêncio.

Então ela acrescentou:

— Diego está trabalhando.

— Eu soube.

— Talvez tivesse sido bom se ele tivesse começado antes.

Não respondi.

Não porque quisesse castigá-la.

Mas porque aquela conclusão precisava pertencer a ela.

Quando desligamos, percebi que o conflito principal começava a mudar de forma.

Eu já não lutava para que a família de Renato reconhecesse tudo o que eu havia feito.

Já não precisava dessa validação.

Minha tarefa agora era impedir que a culpa me levasse de volta ao mesmo lugar.

E essa parte, descobri, exigia tanta firmeza quanto assinar um divórcio.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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