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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

A partir daquele momento, passei a observar Renato de outra maneira. Não procurei mensagens escondidas, não vasculhei seus bolsos e não tentei segui-lo. Eu não queria construir uma acusação a partir de medo.

Queria apenas saber se ainda existia casamento suficiente entre nós para ser salvo.

Durante algum tempo, tentei criar oportunidades simples de convivência.

Sugeri um jantar com Sofia.

Propus que passássemos um domingo juntos.

Perguntei se ele poderia chegar mais cedo numa sexta-feira para conversarmos com calma.

Sempre havia uma reunião, um cliente, um compromisso ou um cansaço impossível de adiar.

Até Sofia começou a perceber.

— O papai não gosta mais de ficar aqui?

A pergunta me atingiu mais do que qualquer discussão.

— Seu pai está trabalhando muito.

Foi a resposta que consegui dar.

Mas naquela noite senti vergonha de estar oferecendo à minha filha a mesma justificativa que eu repetia para mim havia anos.

Poucos dias depois, Renato disse que teria um jantar profissional numa região comercial próxima ao meu escritório. Não pensei muito sobre isso.

Naquela tarde, saí mais tarde do trabalho por causa de uma reunião.

Quando cheguei à rua, decidi caminhar até uma farmácia antes de ir para casa.

Foi ali, do outro lado da calçada, que vi Renato.

Ele saía de um restaurante.

Ao lado dele havia uma mulher.

Não estavam de mãos dadas.

Não estavam se beijando.

Mas a maneira como ela segurou o braço dele e a forma como Renato se inclinou para ouvi-la não pareciam profissionais.

Fiquei parada.

Eles não me viram.

Eu poderia ter atravessado a rua.

Poderia ter provocado uma cena.

Poderia ter exigido uma explicação ali mesmo.

Não fiz nada disso.

Voltei para o carro e fiquei sentada alguns minutos tentando separar aquilo que eu havia visto daquilo que minha cabeça estava acrescentando.

Quando Renato chegou em casa naquela noite, perguntei como havia sido o jantar.

— Cansativo. Cliente complicado.

— Com quem você estava?

Ele me olhou rapidamente.

— Como assim?

— Eu vi você saindo do restaurante.

O rosto dele mudou.

Foi uma alteração pequena, mas suficiente.

Renato pousou as chaves na mesa.

— Era uma pessoa com quem estou negociando.

— Ela costuma segurar seu braço desse jeito nas negociações?

Ele passou a mão pelo rosto.

— Helena, por favor.

— Eu só quero uma resposta.

Renato ficou em silêncio.

E naquele silêncio eu senti algo se reorganizar dentro de mim.

Não era ainda a confirmação que eu temia.

Mas também não era a reação de um homem injustamente acusado.

— Existe alguma coisa entre vocês? — perguntei.

— Não é tão simples.

Eu quase sorri de tristeza.

— Quando alguém responde que “não é tão simples”, normalmente já tornou tudo bastante simples.

Renato se sentou.

Por alguns segundos, pareceu procurar uma versão menos dolorosa dos fatos.

Disse que estava se sentindo distante de mim havia algum tempo. Disse que nossas conversas tinham virado discussões sobre contas, Sofia, Diego e problemas familiares.

Depois disse que conhecera aquela mulher por causa do trabalho.

— A gente começou a conversar.

— E?

Ele desviou o olhar.

— E passou do limite.

Eu não perguntei detalhes.

Não quis saber onde haviam se encontrado, há quanto tempo ou quantas vezes.

A confirmação já era suficiente.

Minha primeira reação não foi gritar.

Foi lembrar de todas as noites em que eu havia colocado Sofia para dormir sozinha enquanto Renato dizia estar trabalhando.

Lembrei das parcelas.

Do dinheiro entregue ao irmão dele.

Da casa comprada para a mãe.

Do meu sogro no hospital.

Das roupas que deixei de comprar.

Do esforço que eu acreditava fazer por uma família que existia para os dois.

— Você ainda está com ela?

Renato respondeu depois de alguns segundos.

— Eu não sei o que vai acontecer.

Foi aquela frase, mais do que a traição, que mudou alguma coisa definitivamente.

Ele havia me ferido e, mesmo assim, ainda falava como se estivesse avaliando opções.

Como se eu também fosse uma delas.

Levantei-me.

— Então descubra o que você quer. Mas não espere que eu continue vivendo da mesma maneira enquanto você decide.

Renato tentou me impedir de sair da sala.

Não fisicamente.

Apenas chamou meu nome.

— Helena, a gente precisa conversar.

— Nós estamos conversando há anos. Você só nunca precisou ouvir porque eu sempre fiquei.

Fui para o quarto de hóspedes naquela noite.

Renato não veio atrás de mim.

Na manhã seguinte, Sofia percebeu que eu havia dormido em outro lugar.

Não contei sobre a traição.

Disse apenas que eu e o pai dela estávamos enfrentando problemas e que nada daquilo era responsabilidade dela.

— Vocês vão se separar?

A pergunta veio baixa.

Eu segurei as mãos da minha filha.

— Eu ainda não sei. Mas qualquer coisa que aconteça, você continua tendo pai e mãe.

Foi a primeira vez que eu disse em voz alta que uma separação era possível.

No trabalho, tive dificuldade para me concentrar.

Mesmo assim, não tomei decisões naquele dia.

Eu sabia que raiva podia desaparecer e que medo podia fazer alguém aceitar qualquer promessa.

Precisava entender minha situação antes de escolher meu caminho.

Durante a semana seguinte, Renato tentou agir normalmente.

Chegava em casa.

Perguntava por Sofia.

Dormia no quarto.

Mas não disse que encerraria o envolvimento com a outra mulher.

Também não pediu desculpas de forma clara.

Falava sobre “confusão”, “distância” e “problemas dos dois”.

Até que uma noite eu perguntei:

— Se eu não tivesse visto vocês, você teria me contado?

Renato não respondeu.

Não precisava.

No dia seguinte, marquei uma consulta com uma advogada de família.

Eu não estava entrando com o divórcio.

Ainda não.

Queria apenas saber o que aconteceria se decidisse parar de carregar um casamento que já não era dividido por dois.

Saí do escritório da advogada com uma lista simples de coisas que precisava entender: bens, dívidas, responsabilidades com Sofia e os compromissos financeiros assumidos durante o casamento.

Ela não prometeu soluções rápidas.

Não disse que eu venceria nada.

Apenas me aconselhou a organizar a realidade antes de tomar qualquer decisão.

Foi exatamente o que fiz.

Naquela noite, abri novamente as pastas que guardavam quinze anos da nossa vida.

Dessa vez, eu não estava procurando maneiras de salvar Renato das consequências das escolhas dele.

Estava tentando descobrir como salvar a mim mesma das escolhas que eu havia feito por todos.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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