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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

PARTE 6

A formalização do divórcio levou algum tempo, mas não porque eu tivesse voltado atrás. Renato e eu já havíamos atravessado a fase em que discutíamos sobre permanecer juntos. Agora, as dificuldades eram práticas.

Precisávamos acertar a convivência com Sofia, as responsabilidades financeiras e a divisão do que havíamos construído e financiado.

Minha maior preocupação era nossa filha.

Sofia tinha idade suficiente para perceber que algo grave acontecia, mas não precisava carregar detalhes da traição dos pais.

Renato e eu concordamos que ela permaneceria morando comigo e teria convivência regular com ele.

Também acertamos a participação dele nas despesas dela.

Pela primeira vez desde que nossa crise começara, vi Renato assumir uma responsabilidade sem que eu precisasse insistir dez vezes.

Talvez porque agora existissem prazos e compromissos claros.

Talvez porque finalmente entendesse que nossa vida comum estava realmente acabando.

Eu não sabia.

E já não precisava interpretar cada gesto dele.

O apartamento de minha sogra continuava sendo o ponto mais delicado.

Eu havia dado tempo suficiente para que Renato e Diego apresentassem uma solução.

Nenhum deles apresentou.

Minha sogra permaneceu no imóvel como se nada estivesse acontecendo.

Quando tentei conversar diretamente com ela, ouvi:

— Eu sou uma mulher velha. Para onde você quer que eu vá?

A pergunta me feriu porque me fazia parecer responsável pela situação.

— Eu não quero colocar a senhora na rua. Estou dizendo há meses que não consigo continuar pagando sozinha. Renato e Diego podem ajudar a manter o apartamento.

— Eles têm as despesas deles.

— Eu também tenho.

Ela ficou em silêncio.

Durante muitos anos, minhas despesas nunca haviam sido consideradas argumento suficiente para recusar nada.

Dessa vez, seriam.

Com orientação profissional, deixei tudo documentado e dei um prazo razoável para que a família se organizasse.

Não coloquei o imóvel à venda imediatamente.

Também não prometi mantê-lo para sempre.

Enquanto isso, Renato continuava distante.

A mulher com quem ele se envolvera permanecia em sua vida.

Eu soube porque perguntei uma última vez, durante uma conversa necessária sobre o divórcio.

— Você ainda está com ela?

— Estou vendo onde isso vai dar.

Não senti a dor aguda que esperava.

Senti cansaço.

Ali percebi que meu casamento já havia terminado emocionalmente antes mesmo de terminar no papel.

Quando a minuta do acordo ficou pronta, Renato leu tudo.

Sua advogada também.

Ele sabia que eu permaneceria com a obrigação financeira principal relacionada ao crédito e que o apartamento usado por sua mãe ficaria sob minha responsabilidade patrimonial, com possibilidade de venda.

Mesmo assim, assinou.

Talvez acreditasse que eu jamais teria coragem de vender.

Talvez imaginasse que, depois que a raiva passasse, eu continuaria pagando para evitar conflitos.

Renato tinha quinze anos de comportamento meu para sustentar essa expectativa.

O que ele não percebia era que aqueles quinze anos tinham se tornado justamente a razão de eu não voltar atrás.

Pouco antes da conclusão de todo o processo, Renato disse que precisaria viajar para Maceió por alguns dias.

— Trabalho? — perguntei.

Ele demorou um segundo antes de responder.

— Em parte.

Eu não perguntei mais.

Alguns meses antes, eu teria passado a noite imaginando com quem ele estava e o que faria.

Naquele momento, a única coisa que me preocupava era se cumpriria o horário combinado com Sofia no fim de semana seguinte.

Ele disse que sim.

Depois fez a mala.

Sofia ficou triste ao vê-lo sair.

— O papai vai viajar muito quando vocês se separarem?

— Isso depende dele, filha. Mas você pode conversar com ele sobre o que sente.

Eu não queria transformar Renato em inimigo dela.

Ele tinha falhado comigo como marido.

A relação dele com a filha seria construída pelas escolhas que fizesse como pai.

Dois dias depois de sua viagem, recebi a confirmação de que o divórcio havia sido finalizado e a averbação poderia ser retirada.

Fui ao cartório depois do trabalho.

Quando colocaram o documento em minhas mãos, senti algo difícil de explicar.

Não era alegria.

Também não era tristeza.

Era silêncio.

Um silêncio interno depois de anos tentando manter de pé uma estrutura que exigia cada vez mais de mim.

Voltei para casa.

Coloquei a certidão sobre a mesa de centro.

Foi ali que Sofia apareceu e perguntou o que era.

— É o documento que diz que a mamãe está livre.

Eu disse aquilo sorrindo.

Não porque tivesse sido libertada por um pedaço de papel.

Mas porque, pela primeira vez, a decisão escrita no documento era a mesma que eu já havia tomado dentro de mim.

Renato ligou de Maceió logo depois.

Eu não atendi.

Sabia que ele estava viajando com a mulher com quem havia se envolvido.

Não precisava ouvir explicações naquele momento.

Abri a gaveta.

Peguei a documentação dos imóveis.

Peguei meus cartões.

E revi os compromissos que ainda existiam.

A transferência de R$ 4 mil para Diego estava programada para dali a três dias.

Cancelei o agendamento.

Em seguida, liguei para a corretora com quem eu já havia conversado previamente sobre a possibilidade de vender o apartamento ocupado por minha sogra caso ninguém assumisse os custos.

— Pode iniciar o processo — falei.

Não havia raiva na minha voz.

Havia decisão.

A casa que todos tratavam como um direito da família de Renato continuava existindo graças a uma dívida que eu pagava.

Agora, aquela conta deixaria de ser invisível.

Naquela noite, dormi melhor do que havia dormido em muitos meses.

No dia seguinte, Diego descobriu que a transferência não aconteceria.

Minha sogra recebeu a confirmação de que o apartamento seria colocado à venda.

E Renato, ainda longe de casa, começou a entender que o divórcio não significava apenas deixar de ter uma esposa.

Significava deixar de ter a mulher que, durante quinze anos, sustentara silenciosamente uma parte enorme da vida dele e de sua família.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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