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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Nos primeiros meses, tentei tratar aquela nova dívida como mais uma fase difícil. Cortei ainda mais meus gastos, reorganizei o orçamento e passei a acompanhar cada vencimento com uma precisão que eu nunca havia precisado ter antes. Renato, por outro lado, agia como se a compra do apartamento da mãe já fosse um assunto encerrado.

Quando pedi que dividíssemos as parcelas, ele disse que seu dinheiro estava comprometido com despesas profissionais. Segundo ele, precisava manter o carro, almoçar com clientes e participar de eventos para continuar vendendo bem. Eu não discuti naquele dia, mas pela primeira vez não consegui aceitar aquela explicação como antes.

Diego continuava recebendo os R$ 4 mil mensais. Ele já não morava conosco, mas a transferência havia permanecido como se fosse uma espécie de salário sem trabalho. Sempre que eu perguntava se ele estava procurando emprego, Renato respondia que o irmão estava “tentando se encontrar”.

Um mês, depois de pagar a prestação do empréstimo, a escola de Sofia e todas as contas da casa, percebi que quase não havia dinheiro sobrando. Diego me mandou uma mensagem pedindo mais R$ 800 além do valor habitual. Disse que precisava resolver algumas coisas pessoais.

Eu respondi que não conseguiria mandar nada além do combinado. Poucos minutos depois, Renato entrou na cozinha segurando o celular. — Você precisava negar dinheiro para o meu irmão por causa de oitocentos reais?

Olhei para ele e perguntei quanto ele próprio pretendia mandar. Renato ficou em silêncio por alguns segundos e então respondeu que eu estava transformando uma questão pequena em conflito. Foi a primeira vez que percebi com tanta clareza que a palavra “nós” só aparecia quando alguém precisava do meu dinheiro.

Naquela noite, peguei um caderno e anotei tudo o que eu pagava. Prestação do empréstimo, condomínio, supermercado, escola, cursos de Sofia, água, energia, internet, plano de saúde e o dinheiro mensal de Diego. O total me deixou parada diante da mesa durante vários minutos.

No dia seguinte, mostrei a lista a Renato. Não gritei e não o acusei de nada. Apenas empurrei o caderno na direção dele e perguntei qual daquelas despesas ele assumiria a partir do mês seguinte.

Ele folheou as páginas e fechou o caderno. — Helena, não dá para transformar casamento em planilha. Eu trabalho para esta família também.

— Então escolha uma conta — respondi. — Só uma.

Renato levantou-se irritado. Disse que eu estava ficando mesquinha e que dinheiro nunca havia sido um problema entre nós. Eu quase ri, porque finalmente entendia que dinheiro nunca havia sido um problema para ele justamente porque eu sempre resolvia o problema.

Ainda assim, não cortei a ajuda de Diego. Não queria tomar uma decisão impulsiva que depois pudesse prejudicar alguém. Mas deixei claro que não pagaria mais nenhum valor extra e que aquela ajuda não poderia continuar para sempre.

Minha sogra me ligou dois dias depois. Falou com cuidado, mas era evidente que Diego havia contado a ela. — Helena, ele ainda está tentando encontrar o caminho dele. Tenha um pouco de paciência.

Eu respirei antes de responder. — Eu tenho tido paciência há anos. Só não posso continuar sendo a única pessoa a ter paciência e dinheiro ao mesmo tempo.

Depois daquela conversa, alguma coisa mudou dentro de mim. Continuei pagando o que precisava ser pago, mas comecei a guardar todos os comprovantes e a registrar cada despesa importante da família. Não era vingança; eu simplesmente não queria mais viver sem saber para onde meu esforço estava indo.

Também abri uma pequena reserva em uma conta separada para emergências minhas e de Sofia. Pela primeira vez em muitos anos, antes de pensar no que Diego, minha sogra ou Renato poderiam precisar, reservei uma parte do meu salário para nós duas.

Renato percebeu. Não perguntou por que eu estava fazendo aquilo, mas começou a ficar mais distante. Voltava mais tarde, passava mais tempo no celular e respondia cada conversa sobre dinheiro como se eu estivesse tentando tirar alguma coisa dele.

Eu ainda não sabia exatamente até onde aquela distância nos levaria. Mas uma certeza já existia: eu não continuaria entregando tudo o que ganhava sem exigir que o homem com quem me casei assumisse a própria parte.

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