
PARTE 6
Com o avanço do processo, Daniel deixou de tentar convencer meus advogados e passou a responder formalmente ao que era solicitado.
A mudança não significava que ele tivesse desistido de mim.
Significava apenas que começava a compreender que não poderia resolver aquele problema aparecendo na minha porta com flores, presentes ou lembranças da infância.
Em uma das reuniões entre os representantes de ambos, Daniel reconheceu que sabia da inexistência do nosso casamento legal e que tinha conhecimento do registro com Helena.
A discussão passou então para a origem e o uso da certidão que eu havia recebido.
O advogado dele tentou limitar a responsabilidade, argumentando que seria necessário determinar quem havia produzido materialmente o documento e em quais circunstâncias.
O meu concordou.
Eu também.
Não queria que alguém fosse acusado por algo sem prova apenas para tornar minha história mais simples.
A apuração mostrou que Daniel havia participado diretamente da entrega e utilização daquele documento como se fosse legítimo, embora ainda houvesse detalhes administrativos que precisariam ser esclarecidos pelas autoridades.
Para mim, o ponto central já era suficiente.
Ele sabia.
E eu não.
Poucos dias depois, Daniel pediu uma conversa presencial.
Aceitei desde que fosse em um local neutro.
Encontramo-nos em uma sala reservada no escritório do advogado.
Daniel entrou carregando apenas o celular.
Nenhuma caixa.
Nenhuma flor.
Nenhum presente.
— Eu pedi para falar porque quero propor uma coisa — disse.
Esperei.
— Vou me divorciar de Helena.
A frase não provocou em mim o impacto que ele parecia esperar.
— Isso é uma questão entre vocês.
— Depois disso, podemos nos casar legalmente.
Fiquei olhando para ele.
Daniel continuou rápido demais:
— Eu sei que parece absurdo dizer isso agora. Mas podemos corrigir o que aconteceu.
— Você não pode corrigir seis anos registrando um casamento no sétimo.
— Eu posso pelo menos fazer o que deveria ter feito.
— Para você, talvez.
Ele apertou os lábios.
— Cami, eu amo você.
— Você amava Helena também?
Daniel não respondeu.
— Porque se amava, então o problema não era falta de sentimento. Era o que você decidiu fazer com ele.
Ele baixou o olhar.
— Eu fui covarde.
— Foi.
— Eu queria manter as duas relações.
— Queria.
— E achei que conseguiria administrar isso para sempre.
— Achou.
Cada resposta minha parecia tirar dele a possibilidade de transformar aquela conversa em uma negociação emocional.
Daniel respirou fundo.
— Quando sua herança apareceu, eu percebi que você poderia descobrir.
Franzi a testa.
— Você já sabia que o inventário verificaria nosso estado civil?
— Eu temi que verificasse.
Aquele era um detalhe novo, mas nascia diretamente da situação que já existia.
— Então, nas últimas semanas, enquanto eu dizia que queria usar o dinheiro para salvar sua empresa, você sabia que havia uma chance de eu descobrir tudo.
Daniel fechou os olhos.
— Sim.
— E não me contou.
— Não.
Foi a segunda grande mudança daquela conversa.
A mentira não permanecera apenas porque Daniel nunca encontrara uma oportunidade de confessar.
Ele tivera uma oportunidade recente.
Sabia do risco.
Mesmo assim, escolhera o silêncio.
Levantei-me.
— Você entende por que não existe casamento que possa consertar isso?
Daniel permaneceu sentado.
— Entendo que você não acredita mais em mim.
— Não é só isso.
Peguei minha bolsa.
— Pela primeira vez, eu acredito em mim o suficiente para não aceitar uma relação que exige que eu ignore o que aconteceu.
Na saída, ele me chamou.
— Você vai continuar com o processo?
Virei-me.
— Vou.
Daniel assentiu.
Não tentou impedir.
Na semana seguinte, Helena informou aos próprios advogados que também pretendia encerrar o casamento.
Quando soube, não senti vitória.
O casamento deles terminar ou continuar não mudava o que tinha sido feito comigo.
Mas a decisão dela teve consequências dentro da empresa.
Helena pediu afastamento da função de secretária executiva e, pouco depois, iniciou a saída negociada do cargo.
A proximidade pessoal entre os dois havia se tornado impossível de separar do ambiente profissional.
Daniel aceitou.
Talvez porque não tivesse escolha.
Talvez porque finalmente percebesse que não podia manter todas as partes da antiga vida exatamente onde estavam.
Enquanto isso, eu comecei a participar de reuniões sobre os investimentos deixados pelo meu pai.
Durante a primeira, permaneci quase em silêncio.
Na segunda, fiz perguntas.
Na terceira, pedi que uma proposta fosse refeita porque não concordava com o nível de risco.
O responsável pela gestão sorriu.
— Seu pai fazia exatamente isso.
A frase me atingiu de uma forma inesperada.
Passei o restante do dia pensando nele.
Durante meses, eu havia planejado usar grande parte do patrimônio que meu pai deixara para salvar a empresa de Daniel.
Talvez por amor.
Talvez por hábito.
Talvez porque eu ainda enxergasse meu futuro apenas como extensão do futuro dele.
Agora, pela primeira vez, comecei a pensar no que eu queria construir.
Não precisava gastar o dinheiro para provar independência.
Também não precisava escondê-lo por medo.
Precisava apenas decidir.
E essa possibilidade, que antes parecia óbvia, tornou-se uma das coisas mais valiosas que eu havia recebido.
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