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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Durante anos, aquela carta destruída tinha sido uma das provas que eu guardava dentro de mim sempre que alguém dizia que Daniel me amava demais. Eu havia interpretado todas aquelas escolhas como sacrifícios feitos por nós dois. Agora, escondida atrás de uma coluna no aeroporto, percebi que talvez eu conhecesse apenas a versão da história que ele tinha escolhido me mostrar.

Daniel e Helena seguiram juntos até o estacionamento sem perceber minha presença. Não corri atrás deles e não tirei fotos. Eu já tinha diante de mim algo muito mais importante que uma cena de traição: um registro oficial dizendo que ele era casado com ela e uma certidão falsa que havia sido entregue a mim como verdadeira.

Voltei para o carro e permaneci alguns minutos com as mãos sobre o volante. A primeira vontade foi ligar para Daniel e exigir respostas. A segunda, mais forte, foi não lhe dar a oportunidade de preparar uma explicação antes que eu entendesse completamente o que havia acontecido.

Telefonei para o advogado. Disse apenas que havia confirmado pessoalmente que Daniel e Helena mantinham uma relação íntima e pedi que nenhuma providência financeira envolvendo a herança fosse vinculada a Daniel ou às empresas dele. O advogado respondeu que protegeria a transferência conforme minha autorização e que, no dia seguinte, revisaríamos as medidas judiciais possíveis.

Em seguida, liguei para a pessoa responsável por administrar meus investimentos pessoais. Durante meses, eu havia comentado que pretendia ajudar Daniel assim que o inventário fosse concluído. Naquele dia, retirei essa autorização antes mesmo que ela existisse formalmente: nenhum empréstimo, aporte, garantia ou transferência deveria ser feito em nome da empresa dele sem minha assinatura presencial.

Não pedi que prejudicassem Daniel. Não bloqueei contas que não eram minhas e não tentei interferir nos negócios dele. Apenas decidi que meu patrimônio não seria mais usado para salvar um homem que havia construído nossa relação sobre documentos falsos.

Quando cheguei à casa onde vivíamos, a pulseira mencionada na mensagem já estava sobre a mesa. A caixa era pequena, elegante e acompanhada de um cartão escrito à mão. “Para a mulher da minha vida.” Fiquei observando aquelas palavras por alguns segundos antes de fechar novamente a embalagem.

Daniel chegou depois das oito da noite. Entrou chamando meu nome, deixou a mala perto da porta e veio diretamente até mim. Beijou minha testa com a naturalidade de quem repetia o mesmo gesto havia anos e perguntou se eu tinha gostado do presente.

Eu disse que ainda não tinha aberto direito. Ele sorriu, tirou o casaco e começou a falar sobre a viagem, o atraso do voo e os problemas da empresa. Em nenhum momento mencionou Helena.

Perguntei casualmente quem havia viajado com ele. Daniel respondeu que parte da equipe comercial estivera com ele e citou dois funcionários. O nome de Helena não apareceu. Foi naquele instante que percebi que a mentira não pertencia apenas ao passado.

Ele perguntou então sobre o inventário. Quis saber se tudo havia dado certo e se o dinheiro estaria disponível em breve. Antes daquele dia, eu teria explicado cada detalhe; dessa vez, respondi apenas que o processo ainda exigia algumas providências.

Daniel pareceu desapontado, mas disfarçou. Comentou que a empresa estava atravessando semanas difíceis e que, quando o patrimônio fosse liberado, poderíamos conversar sobre um aporte temporário. Eu o observei usar a palavra “poderíamos” como se meus recursos ainda fossem naturalmente nossos.

Naquela noite, disse que estava cansada e fui para outro quarto. Daniel perguntou se havia acontecido alguma coisa. Respondi que precisava dormir e fechei a porta antes que ele insistisse.

Deitada no escuro, não senti vontade de chorar. O que me dominava era uma sensação mais estranha: a impressão de que cada lembrança dos últimos seis anos precisava ser retirada de uma caixa, examinada e colocada novamente em outro lugar.

Na manhã seguinte, saí antes de Daniel acordar. Levei comigo apenas documentos pessoais, computador e algumas roupas. Não sabia ainda onde terminaria aquela história, mas uma decisão já estava tomada: eu não continuaria vivendo como esposa de um homem que, perante a lei e longe dos meus olhos, havia escolhido outra mulher.

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