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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

PARTE 4

Daniel recebeu a notificação alguns dias depois.

Ele apareceu novamente no apartamento naquela mesma noite.

Dessa vez, não pediu autorização para conversar por telefone antes de subir. Esperou na recepção até que eu permitisse sua entrada.

Quando abri a porta, ele segurava uma pasta.

Seu rosto estava pálido.

— Você entrou com uma ação contra mim.

— Entrei.

— Por causa de uma certidão?

Olhei para ele.

— Por causa de seis anos.

Daniel apertou a pasta contra o corpo.

— Camila, precisamos conversar sem advogado no meio.

— O advogado não esteve entre nós quando você me entregou um documento falso.

Ele abriu a boca.

Fechou.

Foi a primeira vez que vi Daniel sem uma resposta pronta.

Coloquei sobre a mesa uma cópia atualizada do registro de casamento dele.

O nome de Helena estava ali.

A data também.

Três dias depois da nossa cerimônia.

Daniel não tocou no papel.

— Você já sabia — concluiu.

— Eu sei agora.

— Há quanto tempo?

— Tempo suficiente para ver vocês se beijando no aeroporto.

Ele fechou os olhos.

Não tentou negar.

Aquilo doeu mais do que eu esperava.

Parte de mim ainda aguardava uma explicação absurda que transformasse a cena em outra coisa.

Ela não veio.

— Você estava lá?

— Estava.

Daniel levou a mão à nuca.

— Cami…

— Não.

Ergui a mão.

— Antes que você diga qualquer coisa, eu quero uma resposta simples.

Apontei para o registro.

— Você se casou legalmente com Helena três dias depois da nossa cerimônia?

Ele demorou.

— Sim.

Não havia mais espaço para dúvidas.

Aquele “sim” mudou o centro de tudo.

Até aquele momento, eu tinha documentos, datas e uma cena no aeroporto.

Agora tinha a confirmação direta dele.

— E sabia que a certidão que eu tinha não correspondia a um casamento válido?

Daniel abaixou o olhar.

— Sim.

Senti uma pressão forte no peito.

Mesmo preparada, ouvi-lo admitir foi diferente.

— Por quê?

Ele se sentou sem que eu oferecesse uma cadeira.

— Eu não tenho uma resposta que faça isso parecer aceitável.

— Não pedi uma resposta aceitável.

Ele ficou calado.

— Eu conhecia Helena antes do nosso casamento — começou. — Nós já tínhamos uma relação confusa havia algum tempo.

— Enquanto estava comigo?

Daniel não respondeu imediatamente.

Foi resposta suficiente.

— Continue.

— Eu devia ter terminado aquilo. Não terminei.

O tom dele não era defensivo.

Talvez já tivesse percebido que qualquer tentativa de suavizar os fatos apenas pioraria tudo.

— Quando chegou perto da nossa cerimônia, eu achei que conseguiria encerrar tudo depois.

— E três dias depois você se casou com ela.

— Sim.

— Isso não parece encerramento.

Daniel apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Eu sei.

— Então por que fez?

Ele levantou o rosto.

— Porque eu não queria perder você e também não tive coragem de abrir mão dela.

Fiquei completamente imóvel.

Ali estava a explicação.

Não era um grande segredo empresarial.

Não havia conspiração.

Era algo muito mais simples e, talvez por isso, mais cruel.

Daniel quis as duas vidas.

Eu em público.

Helena escondida.

— E resolveu que mentir para duas pessoas era mais fácil?

— Helena sabia da situação.

A frase atravessou o silêncio.

— Ela sabia que eu acreditava ser sua esposa?

Daniel assentiu lentamente.

Lembrei de cada “cunhada”.

Cada presente.

Cada sorriso tímido.

— Então você não mentiu para duas pessoas.

Minha voz saiu mais baixa.

— Mentiu para uma. E a outra ajudou.

Daniel passou a mão pelo rosto.

— Eu nunca quis machucar você.

— Você organizou uma cerimônia inteira, colocou uma certidão falsa na minha mão e voltou para casa todos os dias durante seis anos. Não foi um acidente.

Ele não respondeu.

— A empresa está com problemas — continuou. — Eu sei que agora isso parece irrelevante, mas eu preciso pedir que você não tome nenhuma decisão por raiva.

— Eu não estou administrando sua empresa.

— O aporte…

— Não vai acontecer.

Daniel ergueu os olhos.

— Camila, centenas de pessoas trabalham lá.

— Então cuide delas com os recursos da sua empresa.

— Você sabe que a situação está apertada.

— Eu também sei que, até uma semana atrás, você contava com o dinheiro de uma mulher que nem sequer era sua esposa.

Ele ficou em silêncio.

— Não use seus funcionários para me transformar na responsável pelo problema que você já tinha antes de eu descobrir tudo.

Daniel pareceu envelhecer alguns anos em poucos minutos.

— O que você quer que eu faça?

— Nada por mim.

Levantei-me.

— Responda ao processo. Resolva sua empresa. Resolva seu casamento verdadeiro.

Ele também se levantou.

— E nós?

Olhei para o homem que conhecia desde a infância.

Por muitos anos, eu teria sido incapaz de imaginar minha vida sem ele.

Naquele momento, a resposta saiu sem esforço.

— “Nós” é justamente a parte que eu preciso descobrir se algum dia existiu da maneira que eu acreditava.

Daniel foi embora sem tentar me tocar.

Na manhã seguinte, pedi ao advogado que prosseguisse normalmente.

Também pedi à equipe financeira que concluísse a separação completa entre qualquer planejamento meu e os negócios de Daniel.

Duas coisas mudaram naquele dia.

Eu já não precisava descobrir se ele havia mentido.

E ele já não podia continuar contando com a minha vida, meu silêncio ou meu dinheiro como se ainda fossem extensões da vontade dele.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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