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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

A última conversa aconteceu três semanas depois.

Marcelo voltou a São Paulo para resolver as etapas finais do apartamento e do acordo. Eu também precisei ir por causa dos documentos.

Marcamos numa cafeteria perto do cartório onde nossos advogados nos encontrariam no dia seguinte.

Ele chegou antes.

Quando me viu, levantou.

— Oi.

— Oi.

Sentamos.

Durante alguns minutos, falamos apenas sobre questões práticas.

A instituição financeira havia aceitado prosseguir com a reorganização do financiamento conforme os documentos apresentados. A compensação da minha parte estava prevista no acordo.

Júlia continuava bem na nova rotina.

Minha vida em Brasília estava cada vez mais estabelecida.

Depois, Marcelo largou a colher ao lado da xícara.

— Eu prometi que não tentaria te convencer.

— Prometeu.

— Vou cumprir.

Esperei.

— Quero falar sem me defender.

Ele respirou fundo.

— Quando trouxe a Júlia para casa, eu já sabia que Recife podia acontecer. Não tinha a confirmação final, mas a chance era grande.

Eu sabia.

Mesmo assim, ouvir aquilo de forma tão direta ainda machucava.

— Eu pensei que conseguiria fazer tudo se a transferência não saísse. E, se saísse, achei que você assumiria.

— Por quê?

Marcelo demorou.

— Porque eu achava que esposa fazia isso.

A resposta foi tão crua que quase me tirou o ar.

— Mesmo trabalhando?

— Sim.

— Mesmo sem ser consultada?

Ele fechou os olhos.

— Sim.

— Você percebe como isso soa?

— Percebo agora.

Peguei minha xícara.

— E por que você achava normal?

— Porque, na minha cabeça, eu estava fazendo minha parte de outro jeito. Trabalhando, crescendo, ganhando mais. Eu usava isso para justificar o resto.

Ele balançou a cabeça.

— Só que você também trabalhava. Também ganhava dinheiro. Também tinha planos.

— Exato.

— Eu via tudo isso. Só não dava o mesmo peso.

Não havia frase bonita capaz de suavizar aquilo.

Marcelo continuou:

— O pior é que eu me considerava um marido moderno.

Soltei uma risada amarga.

— Você lavava louça.

Ele sorriu sem humor.

— Pois é.

— Divisão de tarefa doméstica não resolve nada se uma pessoa ainda acha que pode decidir pelo tempo da outra.

— Agora eu entendo.

Ficamos em silêncio.

Dessa vez, o silêncio não era fuga.

Era espaço.

Marcelo falou de Júlia.

Disse que a relação entre os dois também mudara. Ele parara de ligar três vezes por dia para conferir se ela havia tomado remédios ou comido. Júlia passara a enviar apenas o que precisava.

— Ela me disse que eu estava sufocando.

— Acredito.

— Fiquei ofendido.

— Também acredito.

Ele sorriu.

— Depois percebi que ela tinha razão.

Olhei para ele.

— Você está diferente.

— Eu sei.

— Isso não muda minha decisão.

— Eu sei também.

Havia tristeza em seu rosto.

Mas nenhuma tentativa de barganha.

— Eu queria que você tivesse ficado para ver.

— Talvez você só tenha conseguido mudar porque eu não fiquei.

Marcelo abaixou a cabeça.

— Minha terapeuta disse uma coisa parecida.

— Então ela é boa.

Rimos baixo.

Depois ele ficou sério.

— Eu sinto muito por ter colocado você naquela posição.

Assenti.

— Eu sinto muito por ter tratado seu trabalho como menos importante.

Assenti outra vez.

— E sinto muito por ter usado a palavra “família” para fazer você sentir culpa.

Aquela foi a frase que mais demorou para chegar.

Olhei para ele.

— Obrigada.

Marcelo respirou fundo.

— Era isso que eu precisava assumir.

Pela primeira vez, uma desculpa dele não vinha acompanhada de pedido.

Não pediu que eu voltasse.

Não pediu que eu reconsiderasse.

Não pediu que eu reconhecesse os esforços dele.

Apenas assumiu.

Isso não salvou nosso casamento.

Mas salvou alguma coisa da memória dele dentro de mim.

No dia seguinte, nos encontramos com os advogados.

O acordo patrimonial havia sido revisado.

Cada um leu seus documentos.

Fiz perguntas.

Marcelo também.

A formalização seria feita de forma consensual, sem filhos menores envolvidos e com assistência jurídica, conforme orientado.

Não houve cena dramática.

Nenhum de nós rasgou papel.

Ninguém apareceu para impedir.

A vida real raramente encerra um casamento com música de fundo.

Às vezes, termina com duas pessoas sentadas diante de uma mesa, conferindo nomes, números e páginas.

Antes de seguirmos para a etapa final no cartório, Júlia mandou uma mensagem no grupo que ainda existia entre nós três.

“Boa sorte hoje. E, por favor, não me transformem em motivo para voltar nem em motivo para se odiarem.”

Marcelo mostrou a tela.

— Ela ficou impossível.

— Acho que ficou lúcida.

Ele guardou o celular.

— Helena.

— Oi.

— Depois de hoje, eu não vou mais te chamar quando tiver problema com a Júlia.

— Isso é bom.

— Nem quando tiver problema comigo.

— Melhor ainda.

Ele sorriu.

— Você sabe que eu não queria que terminasse assim.

— Eu sei.

— Mas acho que, pela primeira vez, estou respeitando uma decisão sua que eu odeio.

A frase me atravessou.

— É.

Respirei fundo.

— Talvez seja a primeira vez.

Chamaram nossos nomes.

Marcelo se levantou.

Eu também.

Caminhamos lado a lado até a sala onde concluiríamos o que restava.

Não éramos inimigos.

Também não éramos mais um casal tentando se salvar.

Éramos duas pessoas prestes a assumir formalmente as consequências de tudo o que já havia acontecido.

Antes de entrar, Marcelo parou.

— Posso te perguntar uma última coisa?

— Pode.

— Você está com medo?

Pensei.

— Um pouco.

— Eu também.

Abri a porta.

— Então vamos assim mesmo.

E entramos.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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