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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

Parte 8

Voltar ao apartamento em São Paulo foi mais difícil do que eu imaginava.

A chave ainda girava do mesmo jeito.

O cheiro era familiar.

Minha antiga caneca continuava no armário.

Mas o lugar não parecia mais meu.

A cama hospitalar havia sido retirada do escritório. Júlia já tinha se mudado para um apartamento alugado a poucos quilômetros da casa da mãe, escolhido com orientação para facilitar sua mobilidade.

Minha mesa estava novamente no lugar.

Marcelo havia recolocado a estante.

Até os três livros que eu encontrara no chão meses antes estavam alinhados sobre a mesa.

Parei na porta.

Aquilo não consertava nada.

Mesmo assim, senti um aperto.

Marcelo apareceu atrás de mim.

— Eu arrumei quando a Júlia saiu.

— Vi.

— Eu devia ter perguntado antes de mexer aqui.

Olhei para ele.

— Devia.

Não havia agressividade em sua voz.

Parecia simplesmente cansado.

Fomos até a sala.

A reunião sobre o imóvel estava marcada para a tarde seguinte. Naquela noite, Marcelo havia pedido uma conversa sem advogados.

Aceitei porque não havia mais nada a negociar emocionalmente.

Ou pelo menos era o que eu pensava.

— A Júlia está melhor — disse ele.

— Falei com ela ontem.

— Ela consegue fazer muita coisa sozinha agora.

— Isso é ótimo.

Marcelo assentiu.

— Eu atrapalhei no começo.

— Como assim?

— Queria resolver tudo por ela.

Sentei no sofá.

— Ela me falou.

— Minha terapeuta disse que eu tenho dificuldade de distinguir ser necessário de ser útil.

Não respondi.

Ele soltou uma risada curta.

— Eu odiaria ouvir isso de você alguns meses atrás.

— E agora?

— Agora eu vejo.

Marcelo ficou olhando para as próprias mãos.

— Quando nosso pai morreu, eu tinha vinte e dois anos. Minha mãe ficou perdida, Júlia ainda estudava. Eu virei o cara que resolvia tudo.

Era a primeira vez que ele trazia aquela história sem usá-la como desculpa.

— Eu achava que isso era cuidar.

— Às vezes era.

— É. Mas comecei a achar que, se eu resolvesse, tinha direito de decidir.

Ele levantou os olhos.

— Fiz isso com você.

Fiquei em silêncio.

— E quando surgiu Recife, pensei que era a chance da minha carreira. Ao mesmo tempo, Júlia precisava de ajuda. Eu tinha certeza de que você reclamaria, mas acabaria assumindo.

A frase era dolorosa justamente por ser simples.

— Você planejou contando com meu consentimento depois do fato.

— Sim.

— E ainda se achava o responsável da família.

Marcelo assentiu.

— Essa é a parte que mais me envergonha.

Não senti vontade de atacá-lo.

Também não senti vontade de abraçá-lo.

Havia apenas uma tristeza tranquila.

— Eu queria que você tivesse entendido antes.

— Eu também.

Ele respirou fundo.

— Existe alguma chance para nós?

A pergunta chegou sem dramatização.

Olhei em volta.

Aquela sala tinha visto aniversários, domingos preguiçosos, discussões pequenas, jantares com amigos.

Não era verdade que todo nosso casamento fora ruim.

Talvez por isso fosse tão difícil.

— Eu ainda tenho carinho por você.

Marcelo me olhou com esperança.

— Mas carinho não é suficiente.

A esperança diminuiu.

— Eu não consigo voltar para dentro do casamento só porque agora você entende o problema.

— E se eu continuar mudando?

— Continue.

— Sem você?

— Sim.

Ele desviou o olhar.

— Isso parece muito definitivo.

— É.

Marcelo ficou em silêncio por um tempo.

Depois perguntou:

— Você me odeia?

— Não.

— Nem um pouco?

— Às vezes fiquei com muita raiva.

— Mas não me odeia.

— Não.

Ele assentiu, como se aquilo fosse ao mesmo tempo conforto e derrota.

No dia seguinte, fomos ver Júlia antes da reunião.

O apartamento dela era menor, mas muito mais funcional.

Os espaços entre os móveis estavam livres.

Algumas alturas haviam sido adaptadas.

A cuidadora já não ficava o dia todo.

Júlia nos recebeu sozinha na sala.

— Olha só quem resolveu chegar junto sem se matar — brincou.

Marcelo revirou os olhos.

— Engraçadinha.

Eu sorri.

Foi estranho perceber que, naquele momento, ela parecia mais independente do que no primeiro dia em que chegara à nossa casa.

Não porque sua condição tivesse desaparecido.

Mas porque as pessoas ao redor tinham parado de tratá-la como um pacote a ser transferido de um responsável para outro.

Conversamos por quase uma hora.

Em determinado momento, Júlia olhou para mim.

— Eu queria te pedir desculpa de verdade.

— Você já pediu.

— Não do jeito certo.

Marcelo ficou quieto.

— Eu cheguei na sua casa e aceitei tudo como se fosse normal. O quarto, sua rotina, seu espaço. Eu estava apavorada depois do acidente e deixei meu irmão decidir tudo por mim.

Ela respirou fundo.

— Isso não me torna culpada pelo que ele fez, mas também não quero fingir que eu não participei em nada.

Assenti.

— Eu aceito suas desculpas.

Júlia sorriu.

— Obrigada.

Marcelo olhou para nós duas.

— Acho que sou o único que ainda está devendo muita coisa.

Júlia respondeu antes de mim:

— Então paga devagar.

Rimos.

Foi a primeira vez em meses que os três rimos da mesma coisa.

Mas não significava reconciliação.

Significava apenas que o conflito deixava de controlar cada segundo.

Na reunião sobre o apartamento, chegamos a um acordo preliminar. Marcelo ficaria com o imóvel e assumiria a continuidade do financiamento, desde que a instituição aprovasse os ajustes necessários e que minha parte patrimonial fosse compensada conforme o acordo jurídico.

Nada aconteceria naquele instante.

Havia documentos e etapas pela frente.

Mesmo assim, o caminho estava definido.

Na saída, Marcelo caminhou comigo até a calçada.

— Eu vou voltar para Recife amanhã.

— Eu sei.

— Nossos advogados disseram que, depois que finalizarmos o acordo, podemos fazer o divórcio consensual.

— Sim.

Ele enfiou as mãos nos bolsos.

— Quero te pedir uma coisa.

Esperei.

— Antes de assinar, quero uma última conversa. Sem tentar te convencer.

— Sobre o quê?

— Sobre o que eu preciso assumir.

Olhei para ele por alguns segundos.

— Tudo bem.

Marcelo assentiu.

Naquela noite, voltei para o hotel com a sensação estranha de que o fim já não parecia uma explosão.

Parecia uma porta sendo fechada com cuidado.

E talvez isso doesse ainda mais.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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