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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Na manhã da minha viagem, Marcelo acordou antes do despertador.

Quando saí do banho, ele estava sentado na cama, vestido, mas sem fazer nada. Sua mala permanecia fechada perto da porta. A minha, ao lado.

— Ainda dá tempo de você desistir — disse.

Continuei arrumando o cabelo.

— De Brasília?

— De transformar isso numa guerra.

Virei para ele.

— Eu não transformei em guerra. Eu disse que não vou abandonar meu trabalho para cumprir uma promessa que você fez.

— Você fala como se eu tivesse armado tudo.

— Você mesmo admitiu que não me perguntou porque tinha medo de eu dizer não.

Marcelo se levantou.

— E o que você queria que eu fizesse? Minha irmã estava saindo do hospital.

— Conversasse comigo.

— Para ouvir você dizer que não?

— Talvez eu dissesse sim a alguma coisa. Talvez ajudasse a montar uma rotina. Talvez contribuísse por um período. Talvez sugerisse outra solução.

Parei diante dele.

— Mas você não queria ajuda. Queria garantia.

Ele desviou os olhos.

Fomos para a sala.

Júlia já estava acordada.

Uma cuidadora indicada pelo centro de reabilitação viria naquela tarde para uma entrevista. Marcelo também tinha marcado outra profissional para o dia seguinte.

Nada estava resolvido, mas, pelo menos, ele começara a agir como alguém que realmente tinha uma responsabilidade.

Antes de eu sair, Júlia pediu:

— Posso falar com você um minuto?

Marcelo foi para a cozinha.

Ela respirou fundo.

— Desculpa pelo quarto.

— Pelo quarto?

— Seu escritório.

Olhei para a porta.

— Marcelo disse que vocês quase não usavam.

Soltei uma risada curta.

— Eu trabalhava ali quatro dias por semana.

O rosto dela mudou.

— Eu não sabia.

— Eu sei.

— Parece que estou dizendo isso demais.

— Porque ele contou versões diferentes para nós duas.

Ela ficou quieta.

Depois perguntou:

— Você está com raiva de mim?

Pensei antes de responder.

— Estou irritada com algumas coisas. Ontem, você chamou seu irmão muitas vezes por motivos que talvez pudesse ter esperado ou organizado melhor.

Ela corou.

— Eu sei.

— Mas você sofreu um acidente, perdeu autonomia de uma hora para outra e está aprendendo a viver de outro jeito. Eu consigo separar isso do que Marcelo fez.

Os olhos de Júlia ficaram úmidos.

— Obrigada.

— Só não deixe ele usar você como justificativa para decidir pela vida dos outros.

Ela assentiu lentamente.

No carro a caminho do aeroporto, Marcelo tentou outra abordagem.

— Quando você estiver instalada em Brasília, talvez pense diferente.

— Sobre o quê?

— Sobre nós.

— Eu vou pensar.

Ele me olhou rapidamente.

— Isso parece ameaça.

— Não é. É consequência.

Marcelo fechou a mão no volante.

— Eu errei ao não conversar antes.

Era a primeira frase claramente parecida com um reconhecimento.

Esperei.

— Mas você também está exagerando.

E ali estava o complemento.

— Qual parte é exagero?

— Ir embora agora. Separar despesas. Falar como se eu tivesse te explorado durante o casamento inteiro.

— Eu não falei isso.

— Mas está agindo como se tudo tivesse acabado.

— Eu estou observando o que aconteceu.

— Um erro.

— Um erro é esquecer uma conta. Você tomou uma decisão grande, sabendo que talvez fosse embora, e contou com meu trabalho sem perguntar.

Marcelo apertou os lábios.

— Eu cresci cuidando da minha família.

— E eu respeito isso.

— Então deveria entender.

— Entendo você querer cuidar. Não entendo transformar sua obrigação em dever meu.

Chegamos ao aeroporto sem resolver nada.

Na calçada do terminal, ele tirou minha mala do porta-malas.

— Você vai mesmo?

— Vou.

Marcelo apoiou a mão na alça, impedindo que eu puxasse.

— E se eu disser que preciso de você?

— Você precisa de uma solução para a Júlia. Não necessariamente de mim.

— Estou falando do nosso casamento.

Olhei para ele.

— Então começa me tratando como parte dele quando tomar decisões.

Ele soltou a mala.

Entrei no terminal.

Não chorei naquele momento.

A dor veio depois, já dentro do avião, quando as luzes de São Paulo diminuíram sob as nuvens.

Não era satisfação.

Eu não queria vencer uma disputa.

Queria ter sido consultada.

Queria que meu marido tivesse olhado para mim e dito: “Minha irmã precisa de ajuda. Minha carreira pode mudar. Como podemos enfrentar isso juntos?”

Em vez disso, ele decidira que meu consentimento era um obstáculo.

Em Brasília, minha empresa havia reservado um apartamento temporário para o primeiro mês. Passei os primeiros dias mergulhada em reuniões, documentos e adaptação à nova equipe.

Marcelo mandava mensagens.

No começo, sobre coisas práticas.

“Você sabe onde está o contato da fisioterapia?”

“Qual era o nome daquela cuidadora?”

“Você deixou a senha do Wi-Fi anotada?”

Respondi ao que realmente dependia de mim.

O restante, devolvi.

“Está no relatório da clínica.”

“Pergunte à Júlia.”

“Converse com a profissional.”

No quarto dia, ele ligou.

— Você está fazendo isso de propósito.

— Isso o quê?

— Respondendo tudo como se eu fosse um estranho.

— Você quer que eu coordene os cuidados à distância?

— Não. Só estou pedindo ajuda.

— Ajuda pontual, sim. Administração diária, não.

Ele ficou irritado.

— Eu estou tentando trabalhar, organizar a mudança para Recife e resolver tudo da Júlia ao mesmo tempo.

— Eu sei.

— E isso não significa nada para você?

— Significa que a responsabilidade que você disse que assumiria é realmente pesada.

Silêncio.

Desta vez não preenchi.

Dois dias depois, Júlia começou formalmente uma rotina mais estruturada de reabilitação. Marcelo contratou uma cuidadora durante o período em que ela ficava sozinha e reorganizou alguns horários.

Também combinou com a mãe que ela passaria algumas tardes com Júlia, sem exigir dela tarefas físicas que não conseguiria realizar.

Não era perfeito.

Mas era real.

Na sexta-feira, Marcelo me ligou novamente.

Sua voz estava cansada.

— Vou para Recife na segunda.

— E a Júlia?

— A cuidadora vai ficar durante o dia. À noite, vou contratar outro período por enquanto. A clínica disse que dá para reavaliar conforme ela ganhar autonomia.

— Parece mais seguro.

— Vai custar caro.

— Eu imaginei.

Ele soltou uma risada amarga.

— Você fala isso com muita tranquilidade.

— Eu não estou feliz com a situação, Marcelo.

— Poderia ter ajudado mais.

— Você quer dizer financeiramente?

— Também.

— Nós já conversamos.

— Você ganha bem.

— Você também.

A voz dele endureceu.

— Ela é sua cunhada.

— E sua irmã.

A mesma frase.

Mas, agora, tinha outro peso.

Marcelo ficou quieto.

Então falou:

— Sabe o que mais me incomoda?

— O quê?

— Você está me tratando como se eu tivesse feito alguma coisa imperdoável.

— Não sei ainda se é imperdoável.

Ele respirou fundo.

— Isso quer dizer o quê?

Olhei pela janela do apartamento temporário, para a cidade que ainda parecia desconhecida.

— Quer dizer que eu preciso decidir se consigo continuar casada com alguém que acha normal tirar de mim o direito de escolher.

Do outro lado da linha, ele não respondeu.

E, pela primeira vez, a discussão deixou de ser apenas sobre Júlia.

Passou a ser sobre nós.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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