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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

Marcelo sentou na beirada da cama e soltou um suspiro comprido. Em seguida, olhou para mim com um sorriso satisfeito, como se aquele primeiro dia tivesse provado alguma coisa. — Viu? Não foi tão complicado. Júlia só precisa de um pouco de paciência.
Continuei dobrando uma blusa que levaria comigo na viagem que minha empresa havia confirmado naquela tarde. A mala ainda estava escondida no fundo do guarda-roupa. — Para você talvez não tenha sido complicado. Você ficou o dia inteiro cuidando dela.
— E vou continuar cuidando — respondeu imediatamente. — Ela é minha irmã. Não vou jogar isso nas costas de ninguém. A firmeza da frase me chamou atenção, mas preferi não discutir.
Na manhã seguinte, Marcelo acordou mais cedo do que de costume. Tomou banho, vestiu uma camisa social e passou quase meia hora falando ao celular na varanda. Quando voltou, havia uma energia diferente nele.
Depois do café, entrou no quarto e saiu puxando uma mala grande. Júlia estava na sala. Eu também. Ele parou no meio do caminho e abriu um sorriso. — Lena, tenho uma notícia incrível.
— Fala.
— Fui promovido. A empresa está me mandando para Recife para coordenar uma operação nova. É uma transferência longa, três anos. Meu voo é hoje à noite.
Júlia abriu a boca, surpresa. Eu permaneci sentada. Marcelo continuou falando sobre salário, benefício de moradia e oportunidade profissional, mas seus olhos voltavam para mim o tempo inteiro.
Quando finalmente parou, o silêncio ocupou a sala. Ele esperou. Eu também. Só então Marcelo perguntou: — Você não vai dizer nada?
Levantei e fui até o quarto. Peguei minha mala pronta, voltei puxando-a pelo corredor e a deixei ao lado da dele. — Que coincidência. Minha empresa também me transferiu para um projeto fora de São Paulo. Três anos.
O sorriso desapareceu do rosto dele. — Como assim?
— Brasília. Eu aceitei ontem. Começo na semana que vem, mas viajo hoje para organizar a mudança e a integração.
Júlia olhou primeiro para mim e depois para o irmão. Marcelo demorou alguns segundos para reagir. — Mas você não pode ir agora.
— Por quê?
Ele apontou discretamente para Júlia, como se a resposta fosse evidente. — Você sabe muito bem.
Cruzei os braços. — Ontem você me garantiu que cuidaria dela sozinho.
— Eu não sabia da transferência quando falei aquilo.
A frase saiu rápido demais. Júlia abaixou o olhar. Eu perguntei: — Você ficou sabendo quando?
Marcelo hesitou. — Hoje.
— Então resolvemos fácil. Você conversa com a empresa, explica a situação da sua irmã e organiza o atendimento que ela precisa antes de viajar.
— Não funciona assim, Lena. É uma promoção importante.
— A minha transferência também é importante.
Ele passou a mão pelo rosto, irritado. — Você está comparando as duas coisas?
— Estou comparando dois empregos e duas pessoas adultas com responsabilidades.
Júlia apertou os braços da cadeira. — Talvez eu possa ir para a casa da mamãe.
Marcelo se virou para ela imediatamente. — Nem pensar. A mamãe mal consegue cuidar dela mesma.
— Então precisamos contratar alguém e manter a fisioterapia — respondi. — Foi o que o médico recomendou desde o início.
Marcelo me encarou como se eu tivesse acabado de propor algo absurdo. — Você sabe quanto custa uma cuidadora?
— Sei. Também sei quanto custa abandonar a reabilitação.
Ele começou a andar de um lado para o outro. — Lena, são só três anos. Você poderia conversar com sua empresa.
Quase ri. — Três anos não são “só” três anos.
— Você sempre trabalhou bem daqui. Talvez dê para fazer remoto.
— Meu novo cargo exige presença em Brasília.
— Então recusa.
A palavra veio seca. Simples. Como se minha carreira fosse um compromisso opcional.
— Você também pode recusar Recife.
— Não é a mesma coisa.
— Por quê?
Marcelo abriu a boca, mas não respondeu de imediato. Júlia assistia à discussão em silêncio, visivelmente desconfortável. Por fim, ele disse: — Porque eu sou o responsável financeiro por muita coisa.
— E eu não sou?
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Mas foi exatamente isso que você disse.
Ele baixou a voz. — Somos casados. É normal um ajudar o outro.
— Concordo. Só que ajuda não é você decidir sozinho que sua irmã vai morar na nossa casa, transformar meu escritório em quarto de cuidados e, vinte e quatro horas depois, me pedir para abrir mão de três anos da minha carreira.
— Eu não estou pedindo para você abrir mão de nada.
— Acabou de mandar eu recusar a transferência.
Júlia mexeu a cadeira para trás. — Eu não quero causar uma briga.
Olhei para ela. — Você não é o problema, Júlia.
Marcelo soltou uma risada sem humor. — Ah, claro. Então eu sou.
— O problema é você prometer uma responsabilidade e depois presumir que eu vou cumpri-la no seu lugar.
O rosto dele ficou vermelho. — Ela é minha irmã.
— Exatamente.
Júlia levantou os olhos.
Marcelo percebeu tarde demais o peso daquela resposta. — Lena, pelo amor de Deus. Eu vou estar a milhares de quilômetros. Você vai estar mais perto.
— Brasília não é perto de São Paulo.
— Você sabe o que eu quero dizer.
— Sei. Você quer dizer que, por eu ser sua esposa, a responsabilidade que você assumiu automaticamente passa a ser minha.
Ele se aproximou. — Eu só esperava um pouco de parceria.
— Parceria teria sido conversar comigo antes de trazer a Júlia para morar aqui.
Marcelo olhou para a irmã e pareceu perceber que a discussão já não podia mais ser disfarçada. — Depois a gente conversa.
— Não. A gente conversa agora, porque seu voo é hoje.
Ele apertou a mandíbula. — Certo. Então fala. O que você pretende fazer?
— Viajar.
— E deixar a Júlia aqui?
— Eu não trouxe a Júlia para cá.
A sala ficou imóvel.
— Você faria isso? — perguntou ele.
— Eu vou cumprir a responsabilidade que assumi com meu trabalho. Você precisa cumprir a que assumiu com sua irmã.
— E se eu não puder?
— Então você encontra uma solução real: cuidadora, reabilitação, adaptação da rotina, conversa com sua empresa. O que você não pode é me transformar na solução sem minha autorização.
Ele apontou para minha mala. — Você fez isso de propósito.
— Eu aceitei minha transferência antes de você me contar a sua.
— E não me falou.
— Você instalou uma cama hospitalar no meu escritório sem me falar.
Marcelo respirou fundo. A irritação deu lugar a algo diferente: preocupação. Pela primeira vez desde que anunciara a promoção, ele parecia perceber que eu realmente iria embora.
— Lena, se você entrar naquele avião hoje, vai mudar muita coisa entre nós.
Segurei a alça da mala. — Não fui eu quem começou a mudar as coisas sem conversar.
Ele ficou parado diante de mim, sem resposta.
Então perguntei, com calma:
— Você quer mesmo transformar isso numa escolha entre a sua irmã e a minha carreira?
Marcelo me encarou.
— Eu esperava que você escolhesse a nossa família.
Minha mão apertou a alça.
— Engraçado. Porque ontem você prometeu que essa responsabilidade seria sua.
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