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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

Esperei uma semana antes de falar com Marcelo novamente sobre nós.

Não queria transformar uma decisão definitiva em resposta a uma discussão.

Trabalhei, fui ao mercado, conheci melhor Brasília, participei de reuniões e deixei a rotina cumprir sua função mais importante: separar impulso de certeza.

No sábado, liguei para ele.

— Você pode falar?

— Posso.

— Preciso que escute até o fim.

A mudança na respiração dele foi imediata.

— Tá.

— Eu não quero continuar casada do jeito que está.

Marcelo tentou interromper.

— Helena…

— Deixa eu terminar.

Ele se calou.

— Não estou pedindo que você abandone Recife. Não quero que deixe a Júlia. Também não quero punição.

Respirei.

— Quero me separar.

Do outro lado, ouvi apenas o som baixo do ar-condicionado.

— Você está falando em divórcio?

— Sim.

— Por causa daquela situação?

— Por causa do que ela mostrou.

— Isso é absurdo.

A reação veio com força.

— Eu reconheci que errei. Organizei tudo da Júlia. Estou fazendo terapia. Estou tentando mudar.

Aquilo me surpreendeu.

— Você começou terapia?

— Há três semanas.

— Fico contente.

— Então como você pode falar em divórcio agora?

— Porque sua melhora não me obriga a continuar casada.

A frase doeu em mim também.

Marcelo levou alguns segundos para responder.

— Você já decidiu.

— Sim.

— Tem outra pessoa?

Fechei os olhos.

— Não.

— Tem certeza?

— Marcelo, não transforme isso em algo mais fácil para você odiar.

— Eu só estou tentando entender.

— Então entende isto: eu não quero mais construir minha vida com medo de que toda grande decisão sua venha acompanhada de uma obrigação minha que eu só descubra depois.

— Eu disse que nunca mais faria isso.

— Eu acredito que você esteja tentando mudar.

— Mas não acredita em mim.

— Acredito que uma pessoa possa mudar. Não sei se quero ficar casada esperando para descobrir.

Marcelo respirou fundo.

— Você sabe como isso soa frio?

— Sei.

— Depois de anos juntos…

— Justamente por terem sido anos juntos, eu estou tentando fazer isso com respeito.

Ele desligou sem se despedir.

Chorei depois.

Não durante a ligação.

Depois.

Sentei no chão da sala e chorei pelo casamento que eu desejara, pela versão de Marcelo que eu ainda amava e pela culpa absurda de escolher ir embora justamente quando ele começava a admitir seus erros.

Mas admitir um erro não apaga suas consequências.

Dois dias depois, Júlia me ligou.

— Marcelo contou.

— Imaginei.

— Ele está muito mal.

— Sinto muito.

— Eu não liguei para te convencer de nada.

Isso me fez relaxar.

— Obrigada.

— Na verdade, eu briguei com ele.

— Por quê?

— Porque ele disse que você estava abandonando a família.

Suspirei.

— E você respondeu o quê?

— Que ele foi para Recife no dia em que queria que você ficasse em São Paulo cuidando de mim.

Fiquei quieta.

Júlia continuou:

— Eu disse que ele não tinha o direito de usar meu acidente para te acusar.

— Júlia…

— Não estou escolhendo lado. Ele é meu irmão. Eu amo ele.

Sua voz tremeu um pouco.

— Mas eu não vou ser argumento.

Aquilo representava outra mudança importante.

Júlia estava assumindo a própria voz.

Marcelo perdeu a possibilidade de escondê-la atrás da palavra “família”.

Naquela mesma semana, procurei novamente a advogada.

Disse que queria iniciar uma separação consensual, se Marcelo aceitasse.

Organizamos a lista do que precisaria ser discutido: apartamento, saldo de contas comuns, móveis, obrigações pendentes e despesas compartilhadas até a formalização.

Nada seria decidido por uma única assinatura mágica.

Precisávamos chegar a um acordo.

Mandei uma mensagem para Marcelo:

“Quero fazer isso sem briga. Quando você estiver pronto, podemos conversar sobre a parte prática com orientação jurídica para os dois.”

Ele respondeu horas depois.

“Eu não estou pronto.”

Não pressionei.

Dois dias depois:

“Mas vou conversar.”

Marcamos uma videoconferência.

Marcelo apareceu com o rosto abatido.

— Eu consultei um advogado.

— Certo.

— Ele explicou que, se nós dois concordarmos, dá para organizar de forma consensual.

— É o que eu prefiro.

— Você realmente não vai voltar atrás?

— Não.

Ele baixou o olhar.

— Então vamos falar do apartamento.

A conversa foi longa.

O imóvel ainda tinha financiamento. Nenhum de nós queria simplesmente fingir que ele não existia. Marcelo sugeriu ficar com o apartamento e compensar minha parte conforme uma avaliação e o saldo devedor.

Eu disse que estudaria os números antes de concordar.

Falamos também dos móveis.

— A cama da Júlia não entra nisso — comentou ele.

— Claro que não. É alugada para necessidade dela.

Foi estranho discutir objetos depois de tantos anos.

A mesa.

A televisão.

O sofá.

A cafeteira que havíamos comprado numa promoção.

Pareciam pequenas ruínas administrativas de uma vida em comum.

No meio da conversa, Marcelo parou.

— Eu odeio isso.

— Eu também.

— Então por que está fazendo?

— Porque odiar o processo não significa que a decisão esteja errada.

Ele passou a mão no rosto.

— Eu queria voltar no tempo.

— Eu sei.

— Se eu tivesse te perguntado antes…

— Talvez estivéssemos em outro lugar.

— Isso é o que mais dói.

Não respondi.

Havia coisas que nenhuma resposta diminuiria.

Nas semanas seguintes, avançamos devagar.

Fizemos avaliação do apartamento.

Marcelo enviou documentos financeiros.

Eu revisei valores.

Nossos advogados ajustaram pontos do acordo.

Júlia continuou sua reabilitação e decidiu que, assim que fosse possível, queria sair do nosso antigo apartamento e morar num local menor, acessível e perto da mãe.

Marcelo inicialmente se opôs.

— Não precisa sair. O apartamento é grande.

— Justamente — respondeu ela, segundo me contou depois. — Eu não quero viver num lugar que virou símbolo da briga de vocês.

A decisão de Júlia obrigou Marcelo a enfrentar uma consequência que não esperava.

Ele tinha trazido a irmã para nossa casa como se aquele espaço fosse uma extensão automática de sua vontade.

Agora, nem eu nem ela queríamos continuar ali.

No fim do mês, Marcelo me mandou uma mensagem.

“Vou a São Paulo na semana que vem ajudar a Júlia a ver apartamentos adaptados. Você precisa ir para resolver a avaliação final do nosso imóvel. Podemos conversar pessoalmente?”

Fiquei alguns minutos olhando para a tela.

Depois respondi:

“Podemos.”

Eu sabia que não seria uma conversa para decidir se haveria separação.

Essa decisão já estava tomada.

Seria a conversa em que, finalmente, Marcelo teria que olhar para mim sem uma irmã, uma promoção ou uma distância de quilômetros entre nós.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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