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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

A reunião foi marcada para uma segunda-feira de manhã.

No fim de semana anterior, tentei não pensar nela.

Passei o sábado organizando coisas do apartamento. Abri caixas que não tocava havia anos, separei livros, documentos e fotografias.

Encontrei uma imagem de Rafael e eu no primeiro escritório.

Éramos mais jovens.

Atrás de nós havia uma parede descascada e uma mesa comprada de segunda mão.

Na foto, segurávamos uma placa improvisada com o nome da empresa.

Sentei-me no chão.

Durante muito tempo, apenas observei nossos rostos.

Eu não queria rasgar aquela fotografia.

Também não queria colocá-la de volta na moldura.

Guardei-a numa caixa.

Foi a forma mais honesta que encontrei de lidar com nosso passado.

Não precisava destruí-lo.

Também não precisava continuar vivendo dentro dele.

Na segunda-feira, cheguei cedo.

Rafael já estava na empresa.

Quando entrei na sala de reuniões, encontrei-o sozinho, olhando pela janela.

— Você chegou primeiro.

Ele se virou.

— Não dormi muito.

— Nervoso?

— Um pouco.

Coloquei minha pasta sobre a mesa.

— Qual foi sua decisão?

— Quero esperar os outros chegarem.

Assenti.

Antes que pudesse me sentar, ele falou:

— Marina.

— Sim?

— Eu preciso perguntar uma coisa antes.

Esperei.

— Aquele cheque.

— O que tem?

— Você descontou?

— Não.

Ele franziu a testa.

— Por quê?

— Porque não precisava transformar aquilo em dinheiro antes de entender exatamente o que representava.

— Eu queria que você ficasse protegida.

— Você queria encerrar uma situação difícil rapidamente.

Ele soltou o ar.

— Também.

Tirei o cheque da pasta.

Ainda estava intacto.

Coloquei-o diante dele.

Rafael olhou para o papel durante vários segundos.

— R$ 8 milhões.

— Foi o preço que você achou adequado para uma saída silenciosa.

— Quando você fala assim…

— Foi assim que aconteceu.

Ele tocou a borda do cheque, mas não o pegou.

— O acordo patrimonial que nossos advogados estão preparando já trata das questões financeiras de forma adequada — expliquei. — Não quero um pagamento separado chamado de compensação por ter sido sua esposa.

— Então está devolvendo?

— Estou.

Ele finalmente pegou o cheque.

— Você poderia ter feito isso no primeiro dia.

— No primeiro dia eu estava destruída. Não precisava tomar mais nenhuma decisão naquela noite.

Rafael levantou os olhos.

— Eu nunca soube o quanto você estava destruída.

— Porque você já estava olhando para a vida seguinte.

Ele fechou os olhos por um momento.

— É.

Não houve defesa.

Isso tornou a conversa mais difícil.

Os outros começaram a chegar.

Rafael guardou o cheque.

A reunião começou.

Ele apresentou os resultados do período de transição, falou dos projetos em andamento e explicou as mudanças de governança implantadas.

Depois fechou a apresentação.

— Eu decidi deixar a presidência executiva ao final do trimestre.

Ninguém reagiu imediatamente.

Eu também não.

Rafael continuou:

— Permanecerei como acionista e estou disposto a participar de uma transição organizada. Mas não acredito que seja saudável continuar na função depois de tudo que aconteceu.

Um conselheiro perguntou se aquela decisão estava ligada a algum desacordo específico.

— Não — respondeu Rafael. — É resultado do conjunto.

Ele olhou para mim.

— Durante anos, a empresa ficou dependente demais da minha pessoa. Parte disso aconteceu porque funcionava. Outra parte porque eu gostava que funcionasse assim. Acho que continuar insistindo nisso seria repetir o mesmo erro.

A frase me surpreendeu.

Não porque o absolvesse.

Mas porque mostrava que ele finalmente conseguia nomear o problema.

A reunião avançou para os procedimentos de sucessão.

Não escolhemos um substituto naquela manhã.

Seria conduzido um processo profissional entre opções internas e externas, com avaliação adequada.

Eu não tomaria a presidência executiva automaticamente.

Também não entregaria a função a alguém apenas por lealdade pessoal.

A empresa precisava aprender algo com o que acontecera conosco.

Ao final, todos saíram.

Rafael permaneceu novamente.

— Então é isso — disse.

— Ainda temos meses de transição.

— Estou falando de nós.

Olhei para ele.

— Sim.

— Lívia e eu adiamos qualquer plano de casamento.

Não perguntei por quê.

— Não estou contando para tentar voltar.

— Que bom.

Ele deu um sorriso triste.

— Você ainda acha que eu faria isso?

— Algumas semanas atrás, sim.

— E agora?

— Agora acho que você começou a entender que suas decisões precisam existir sem me usar como referência.

Ele assentiu.

Depois puxou uma cadeira.

— Eu sinto muito, Marina.

Foi a primeira vez que pediu desculpas sem acrescentar uma explicação.

Nenhum “mas”.

Nenhum “você também”.

Nenhum argumento.

Apenas aquelas palavras.

Respirei fundo.

— Eu acredito que sente.

Ele me encarou, talvez esperando mais.

— Isso não significa que vou voltar.

— Eu sei.

— E também não apaga o que aconteceu.

— Eu sei.

Havia tristeza no rosto dele.

Mas não a tristeza teatral de quem percebe que está perdendo alguma coisa.

Era a tristeza de alguém que finalmente aceitava que já perdera.

Ficamos alguns segundos sem falar.

Depois Rafael se levantou.

— Nossos advogados disseram que a reunião final do acordo pode ser na sexta.

— Henrique me avisou.

— Você vai?

— Claro.

Ele caminhou até a porta.

— Marina.

— O quê?

— Naquela primeira noite, quando você disse “parabéns”, achei que não se importava.

Senti uma pontada antiga no peito.

— Eu me importava tanto que precisei me trancar no quarto para conseguir continuar respirando.

Rafael abaixou os olhos.

— Eu não sabia.

— Agora sabe.

Ele saiu.

Na sexta-feira, resolveríamos a parte final do nosso casamento.

Depois disso, não haveria mais documentos escondendo decisões emocionais.

Não haveria cheque sobre a mesa.

Não haveria procuração usada como substituta da confiança.

Restaria apenas uma pergunta.

Quem seríamos quando deixássemos definitivamente de ser “nós”?

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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