
Parte 8
O período de transição começou na semana seguinte.
Rafael permaneceu como presidente executivo, mas agora apresentava relatórios regulares e dividia decisões relevantes com as instâncias previstas. Eu assumi oficialmente uma posição mais ativa na estratégia da companhia e passei a acompanhar de perto os projetos que poderiam afetar o futuro do negócio.
A tensão não desapareceu.
Mas mudou de natureza.
Nós já não discutíamos para decidir quem tinha mais direito de estar ali.
Discutíamos contratos, orçamento, expansão e risco.
Às vezes concordávamos.
Às vezes não.
E, pela primeira vez em muitos anos, uma discordância minha não terminava com a frase “deixa que eu resolvo”.
Certa manhã, Rafael entrou na minha sala com uma projeção.
— Você estava certa sobre aquele contrato.
Levantei os olhos.
— Qual?
— O que eu queria aprovar sem revisão.
Sentou-se.
— O cliente pediu novas condições. Se tivéssemos aceitado na época, estaríamos muito expostos agora.
Peguei o documento.
— Ainda dá para negociar.
— Dá.
Rafael permaneceu ali.
— Eu odiava quando você me fazia perguntas.
— Eu percebi.
— Porque parecia que você estava tentando provar que eu estava errado.
— E eu estava?
Ele sorriu de lado.
— Às vezes.
Foi uma conversa pequena.
Mas simbolizava uma mudança grande.
Rafael começava a separar discordância de deslealdade.
Eu também aprendia algo.
Durante anos, havia evitado confrontos para preservar nossa relação. Agora descobria que confronto não precisava significar destruição. Podia ser simplesmente duas pessoas defendendo posições diferentes e aceitando um processo.
Enquanto isso, o relacionamento de Rafael e Lívia começou a enfrentar seus próprios problemas.
Eu não acompanhei detalhes.
Não perguntei.
A informação chegou a mim apenas quando Lívia solicitou uma licença curta e, depois, pediu para deixar definitivamente qualquer função que a colocasse próxima da presidência.
O RH tratou do assunto.
Dias mais tarde, ela pediu para falar comigo.
— Vou sair da empresa.
— Já decidiu?
— Sim.
— Então o RH vai organizar sua saída de acordo com o contrato e os procedimentos.
Ela soltou uma risada cansada.
— Você sempre responde como se estivesse numa reunião.
— Sobre seu emprego, é assim que deve ser.
— Eu e Rafael ainda estamos juntos.
Assenti.
— Certo.
Lívia pareceu incomodada com minha neutralidade.
— Você não vai perguntar nada?
— Não.
— Nem se vamos nos casar?
— Não é da minha conta.
Ela mordeu o lábio.
— Quando isso começou, eu achava que você estava apenas ocupando um lugar que já tinha acabado.
A frase poderia ter me enfurecido.
Em vez disso, senti apenas um cansaço antigo.
— E agora?
— Agora eu sei que uma pessoa pode estar distante de uma rotina e ainda fazer parte da história.
Fechei a pasta diante de mim.
— Lívia, não preciso que você compreenda meu casamento. Ele terminou.
Ela assentiu.
— Eu sei.
Levantou-se.
Antes de sair, parou junto à porta.
— Eu deveria ter esperado que ele resolvesse a vida dele antes de entrar nela.
Não respondi.
Não porque discordasse.
Mas porque eu não precisava absolver nem condenar aquela mulher naquele momento.
Ela saiu da companhia duas semanas depois.
Sem escândalo.
Sem demissão teatral.
Sem humilhação pública.
Uma escolha profissional encerrou o vínculo que tornara o ambiente insustentável.
Rafael não tentou impedir.
A saída dela produziu um efeito que eu não esperava: ele ficou ainda mais focado na empresa.
Talvez por medo de perder outro espaço importante.
Talvez porque trabalhar fosse o modo que conhecia de recuperar controle.
Mas o controle absoluto não voltou.
E isso ficou evidente numa reunião decisiva sobre um projeto de expansão.
Rafael defendia crescimento rápido.
Eu defendia uma etapa intermediária.
O conselho ficou dividido.
Ele poderia ter transformado aquilo em confronto pessoal.
Não fez.
Apresentou dados.
Eu apresentei os meus.
No fim, aprovamos uma versão menor do projeto, com revisão prevista antes da segunda etapa.
Quando saímos, Rafael disse:
— Cinco anos atrás, eu teria feito do meu jeito.
— Eu sei.
— E você teria deixado.
— Provavelmente.
Ele riu sem alegria.
— A gente criou hábitos ruins juntos.
— Alguns.
— Só eu estou pagando por eles.
Parei no corredor.
— Não, Rafael. Você está pagando pelas suas escolhas. Eu estou pagando pelas minhas de outra forma.
— Quais?
— Dez anos em que fui diminuindo minha própria presença para evitar conflito. Meses reconstruindo uma vida que achei que seria permanente. E o trabalho de reaprender quem sou fora de um casamento.
Ele ficou sério.
— Eu não tinha pensado assim.
— Eu sei.
Naquela tarde, Henrique me ligou.
A documentação do divórcio estava avançando.
As discussões patrimoniais haviam chegado a um formato que ambos os lados consideravam possível.
Nada seria resolvido em uma única assinatura.
Mas o caminho estava claro.
Também havia chegado o momento de definir o futuro societário de Rafael.
O período de transição estava perto do fim.
Ele precisaria escolher entre permanecer como executivo dentro daquela nova estrutura ou se afastar da gestão cotidiana.
Quando contei isso a ele, Rafael não reagiu imediatamente.
— Quanto tempo tenho?
— O suficiente para decidir com responsabilidade.
— E o que você prefere?
A pergunta me surpreendeu.
— O que for melhor para a empresa e sustentável para nós dois como acionistas.
— Isso não é resposta.
— É a única que posso dar.
Ele assentiu.
Dois dias depois, pediu que fosse convocada uma reunião para apresentar sua decisão.
Não me contou qual seria.
E, dessa vez, eu não tentei descobrir.
Eu já não precisava antecipar cada movimento dele para me sentir segura.
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